202. Luiz Gonzaga: “Paraíba”

Quando a lama virou pedra
E Mandacaru secou
Quando o ribaçã de sede
Bateu asa e voou
Foi aí que eu vim me embora
Carregando a minha dor
Hoje eu mando um abraço
Pra ti pequenina
Paraíba masculina
Muié macho, sim sinhô


Nos estudos da linguística, desde muito cedo se reconheceu que as palavras não são neutras. Ou melhor, são – mas ninguém utiliza palavras para se comunicar. Palavras são entidades abstratas, assim como o são os números. Da mesma forma como os números requerem valores no processo de comunicação – ninguém fala “2”, mas fala “2 gols do Ceará sobre o Palmeiras”, “2 centenas de dias rumo ao abismo”, “2 horas escrevendo um post neste blog” -, as palavras também vêm acompanhadas de valores ou unidades, embora nem todos percebam.

Essa diferença entre a unidade abstrata da língua (seja a sílaba, o fonema, a palavra ou a oração) e seu poder comunicativo já fora identificada desde Ferdinand de Saussure, com os conceitos de langueparole, estando ressaltada na produção da filosofia da linguagem soviética (sobressaindo-se os nomes de Medvedev e Voloshinov, inaceitavelmente confundidos com Mikhail Bakhtin), que disseca o conceito de enunciado.

Pois é, as palavras são assim: podem significar A ou ~A (não-A). Tudo depende do contexto, isto é, das condições concretas em que a palavra se converte em enunciado.

Seria tão bom se os estudantes recebessem uma educação linguística capaz de abordar tais conceitos! Aposto que, se assim fosse, estaríamos formando gerações de cidadãos conscientes da responsabilidade enorme implicada no ato de comunicar, isto é, fazer desta ou daquela palavra um enunciado concreto. E talvez não correríamos o risco de colocar, no assento da presidência da república, um indivíduo que, com o uso de apenas uma palavra, ofenderia milhões de pessoas – inclusive as que nele votaram.


Toda a discussão gerada pela forma como aquele-de-nome-impronunciável se referiu ofensivamente ao povo nordestino como “paraíba” me lembrou, justa e obviamente, do sucesso de Luiz Gonzaga, que virou o tema de hoje.

Estou aqui pensando, enquanto escrevo, que tudo parece se encaixar de alguma maneira… Como se os eventos que remontam às disputas políticas dos anos 1930 até hoje pudessem ser alinhados pela análise aprofundada de “Paraíba”, composta por Gonzagão e Humberto Teixeira, e lançada pelo Rei do Baião em 1952.

Conta a história que, previamente à disputa da presidência da república em 1930, João Pessoa foi um dos três únicos governadores (à época, chamados presidentes das províncias) a não apoiar a eleição de Júlio Prestes (da situação, aliado do presidente Washington Luiz), vindo a integrar a chapa concorrente encabeçada por Getúlio Vargas. O próprio contexto paraibano era conflituoso: João Pessoa enfrentava uma dura disputa com Zé Pereira, que proclamara Princesa Isabel como um território autônomo, ainda que dentro da província.

Por conta dessa disputa, João Pessoa foi assassinado, o que teria sido o estopim da Revolução de 30 que alçou Vargas ao poder. Um golpe. Em 1932, a fracassada tentativa de golpe no golpe. Nova Constituição em 1934, logo revogada pela Constituição do Estado Novo em 1937. Em 1943, a promulgação da Consolidação das Leis Trabalhistas, fato relevantíssimo só por garantir alguma dignidade ao trabalhador brasileiro. Getúlio não estava de brincadeira e, para o bem ou para o mal, certamente era um estadista com “E” maiúsculo.

Mas estamos falando de Paraíba, nesse contexto, um foco de resistência. Estado geograficamente pequeno, cujo nome é lido como feminino (e isso só acontece apenas lá e na Bahia): mulher, mas aguerrida. É assim que Humberto Teixeira pensa na expressão “mulher macho” para designar a terra de João Pessoa, em 1946, quando “Paraíba” é composta.

Pois bem. Cai Getúlio, temos a “longa noite”, o Brasil se redemocratiza, passa por um período de relativa estabilidade institucional e lenta redução das desigualdades, até o momento em que se elege o atual presidente. O país está polarizado e, para um contingente nada desprezível da população – que as pesquisas dimensionam como cerca de 30% dos brasileiros -, todos que não se alinham ao governo, é porque são comunistas. Absolutamente todos: jornalistas, cientistas, professores, estudantes, artistas.

E o homem é flagrado pronunciando uma simples palavra que, naquele contexto, assume-se como um enunciado transparentíssimo. O povo do Nordeste é “tudo paraíba”. E, para esse mesmo homem, mulher-macho… não pode, “tá errado isso aí”. Ainda, como se fosse pouco, o indivíduo e seus asseclas representam absolutamente tudo o que é avesso aos ideários consubstanciados em dispositivos legais que, há mais ou menos tempo, apenas amenizam o sofrimento de nosso povo (que passa fome sim), como a própria CLT.

(Colocar esse personagem junto de Vargas, num mesmo texto, é até ofensivo: chega a ser comovente).

Mas, afinal, qual o problema em se falar “dos paraíbas”? E me vem à cabeça um inocente vídeo do Porta dos Fundos, em que David Brazil se apresenta para os espectadores: “Meus gostosos, minhas gostosas do Instagram: que bom, que coisa boa saber que eu sou o D-D-David Brazil. Adorei! Olha, sou bicha mesmo, sou gaga, sou paraíba…”

Quer dizer, se um cearense se descreve como paraíba, não tem problema? Ou se um homossexual se apresenta como bicha, também não tem?

Exatamente. Tudo diz respeito ao contexto – novamente, às condições concretas que cercam o falante no seu ato enunciativo. Numa situação, “paraíba” soa como palavra ofensiva, conotando desprezo – afinal, não fosse o Nordeste, alguém teria sido eleito já em primeiro turno. Num outro contexto, “paraíba” pode sim ser uma metonímia de autoafirmação identitária, a ser bradada com orgulho, como o faz David Brazil. E o mesmo vale para “bicha” ou “mulher-macho”.

Como mostra a boa matéria de Dani Fechine e Diogo Almeida no G1 PB, embora o feminismo tenha suas razões para deplorar o modo como Teixeira descreve a mulher valente (que só poderia receber esse predicado ao demonstrar macheza, isto é, uma qualidade inerente ao universo masculino), há mulheres – que não poderiam simplesmente ser chamadas de alienadas, como é o caso da grande paraibana Elba Ramalho – que não se incomocam com o baião de Gonzaga, antes, o tomam exatamente como expressão de um empoderamento feminino, à época, sequer designado por essa expressão.

De novo: é tudo uma questão de atentar-se ao contexto do falante, às condições concretas a partir das quais ele ou ela enuncia.

Mas olhar para o concreto significa olhar para o que é objetivo e, numa palavra, verdadeiro. E, como diria Lênin, se “a verdade é sempre revolucionária”, não espere que aqueles 30% de brasileiros (cujo pensamento está ainda primitivamente refém dos esquemas da lógica formal, tomando A e ~A como termos inconciliáveis, ou seja, são incapazes de pensar dialeticamente) se atentem para isso.

Que cansaço… é minha vertigem ou estamos perigosamente próximos de 1930, novamente?

luiz-gonzaga.jpg
Luiz Gonzaga, porta-voz do sofrimento e do espírito resistente do povo nordestino.

E até este momento, em que comento versões alternativas da canção tematizada, não escapará à politização. Isso porque “Paraíba” foi regravada por uma miríade de artistas e destacarei apenas a versão mais significativa, neste contexto: aquela registrada por Daniela Mercury e Dominguinhos em 100 anos de Luiz Gonzaga (1997). Pois ouvir a expressão “mulher macho” saindo da boca de Daniela, à luz do conhecimento de sua bissexualidade, torna a obra de Gonzagão e Teixeira ainda mais complexa: soa quase como ironia. E, afinal, a versão é fantástica; Dominguinhos trazia um calor tão grande a suas interpretações… herdeiro legítimo de Gonzagão, e ficamos órfãos de novo… Ouça:

5 comentários

  1. As palavras tem múltiplos sentidos,pelo tom de voz a gente percebe se a intenção é ofender e diminuir alguém.

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