205. Escola De Escândalo: “Complexos”

Passo horas seguidas olhando minha imagem no espelho
Vejo o defeito como seria bom não tê-lo
Mudo de ângulo tento esconder
Tento disfarçar
Mas esse problema nem um milhão de anos irão apagar


Era 1985 e três bandas haviam conseguido superar o isolamento de Brasília, fazendo viagens frequentes para tocar no Rio de Janeiro e em São Paulo: a Legião Urbana, o Capital Inicial e a Plebe Rude. A Legião, inclusive, já estava com contrato firmado com a EMI-Odeon, gravando em 1984 seu LP de estreia. Não tardaria a que o Capital também preparasse seu debut, assim como a Plebe. A propósito, essa trinca de álbuns – Legião Urbana (1985), Capital Inicial (1986) e O concreto já rachou (1985) – concentra uma quantidade surpreendentemente grande de ótimas canções, algumas das quais se tornariam clássicos absolutos do rock nacional (“Geração-Coca-Cola”, “Ainda É Cedo”, “Música Urbana”, “Fátima”, “Até Quando Esperar”, “Proteção”, etc.) e até da canção brasileira como um todo (casos de “Será” e “Por Enquanto”, gravadas por muita gente alheia ao universo roqueiro).

O que poucos sabem é que havia um quarto conjunto brasiliense que quase chegou a estourar: a Escola de Escândalo. Em O diário da turma 1976-1986: a história do rock de Brasília (2. ed. Brasília: Pedra na Mão, 2013), Paulo Marchetti elenca as diversas formações da banda, trazendo depoimentos de seus ex-componentes. O vocalista Bernardo Mueller (irmão de André X, baixista e compositor da Plebe) tece um relato bastante significativo sobre o desencanto que abateu os membros do conjunto, após a promessa de sucesso que não foi cumprida pela história:

Numa época, no Escola de Escândalo, em 85 e 86, a diversão acabou e começou uma certa pressão porque as outras bandas estavam começando a se dar bem e nós ainda estávamos em Brasília. Com isso, começamos a nos preocupar em fazer sucesso; virou uma obrigação. Isso acabou com a banda. O Herbert Vianna até nos ajudou a gravar uma fita-demo na EMI, que não deu certo. Foi uma grande frustração para nós (p. 169-170).

De qualquer forma, com a circulação de arquivos proporcionada pela internet, o público pôde vir a conhecer o conteúdo dessa demo, facilmente encontrável no YouTube (e cheguei a escutar diversas de suas canções ainda no início dos anos 2000).

Além disso, a Escola de Escândalo participou da coletânea Rumores (1985), que reunia quatro bandas, com duas canções cada uma. O álbum é, hoje, uma raridade do rock nacional, apesar de sua produção barata e quase artesanal. Além da Escola, traz outros conjuntos lendários: Finis Africae, Detrito Federal e Elite Sofisticada (banda cujo nome surgiu de uma brincadeira do baixista da Legião, Renato “Negrete” Rocha, que achava seus colegas da Plebe Rude playboys demais para ostentarem esse nome).

Há três destaques a se fazer quanto à participação da Escola de Escândalo em Rumores. Em primeiro lugar, observamos uma banda pós-punk com vocais femininos, de Marielle Loyola, o que ainda era novidade no Brasil. Infelizmente I: a cantora seria ejetada do conjunto pouco depois de prensada a coletânea. Em segundo lugar, o álbum registra as célebres guitarras de Fejão – tido por muitos como o melhor músico de todos os que se consolidaram entre as bandas candangas. Infelizmente II: Fejão, um dos poucos negros a tocar no rock de Brasília dos anos 1980, morreu de meningite em 1996 (o outro negro era justamente Negrete, também falecido, em 2015). E, finalmente, tem o fato de que as duas canções da Escola, em Rumores, serem muito boas.

Ainda segundo Paulo Marchetti, no livro citado acima, o compositor Bernardo “era considerado, por muitos, um grande letrista” (p. 166). De fato, as canções “Complexos” e “Luzes” se sobressaíam no repertório de Rumores, e hoje são clássicos da cena de Brasília.

“Luzes” ganhou certo reconhecimento já nos anos 2000, quando a Plebe Rude ressurgiu para gravar o ao vivo Enquanto a trégua não vem, incluindo a composição no registro e até lançando-a como música de trabalho. Continua ainda hoje no repertório dos plebeus, sendo bastante saudada pelos fãs nas apresentações.

Já “Complexos”, que abre Rumores, permaneceu esquecida por mais tempo. A letra é bastante direta e traz as reflexões (literalmente) de um sujeito que, diante do espelho, incomoda-se com o que vê. Entendendo estar possuída por diversos “complexos” (especialmente certo complexo de inferioridade), a voz que canta se conscientiza de que contempla sua imagem a partir dos olhos dos outros, e pensa num mundo em que a aparência não seria tão determinada por esses padrões arbitrários: “Qualquer desvio do normal é visto como uma fraqueza, / Mas quem foi que instituiu esses padrões de beleza? / Imagine um mundo onde não houvesse comparação / Quem nos salvaria da monotonia da perfeição?”. Discussão, ainda hoje, bastante atual.

E não esqueçamos de dar crédito aos demais músicos que compunham a Escola, à época: o baterista Balé e o baixista Geraldo “Gerusa” Ribeiro (irmão de Loro Jones, guitarrista do Capital Inicial até o Acústico MTV de 2000).

escola-de-escandalos
Escola de Escândalo como o quinteto com vocal feminino que gravou Rumores: pós-punk que ficou no caminho e hoje é cult.

Assim como “Luzes” foi redescoberta em 2000, por conta da Plebe, “Complexos” também foi desencavada e ganhou um novo e poderoso registro moderno. Das formações antigas, a nova Escola de Escândalo trouxe de volta Gerusa e a própria Marielle. Além dos timbres atualizados e de a versão, respeitosamente, surgir como um tributo ao falecido Fejão, há a participação de outro ilustre músico de Brasília – pertencente a uma geração posterior que, no entanto, nunca deixou de respeitar os pioneiros da capital do rock: Gabriel Thomaz, dos Autoramas (de quem falamos aqui). Confira:

2 comentários

  1. Não conhecia,”Escola de Escândalo”,se o nome fosse um pouquinho melhor talvez ajudasse,ou não,sei lá,rs.
    Eu sempre termino meus comentário com ”risos”,apesar de tudo e de quase todos eu mantenho o bom humor.

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    1. O nome é uma brincadeira punk. Ao menos é muito marcante. Quando aos “rs”, que bom que você é essa pessoa que encara as coisas com leveza. É uma qualidade cada vez mais rara! Grato pelo comentário.

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