206. Almôndegas: “Canção Da Meia-Noite”

Quando a meia-noite me encontrar
Junto a você
Algo diferente vou sentir
Vou precisar me esconder
Na sombra da lua cheia
Este medo de ser
Um vampiro, um lobisomem, um saci-pererê


Quem gosta de canção popular sulista, certamente já escutou algo dos Almôndegas, conjunto formado em Pelotas.

“Vento Negro”, por exemplo, já é um legítimo clássico do Sul, tanto que a escutava no álbum justamente intitulado Clássicos gaúchos ao violão (2003), de Marcello Caminha, pensando se tratar de uma canção tradicional muito mais antiga, embora date de 1975. O mesmo se passava com “Haragana”, que ouvi pela primeira vez em Clássicos do sul (1999), da dupla Kleiton e Kledir, imaginando que a faixa fosse da lavra de algum conhecidíssimo nome gaudério (como Lupicínio Rodrigues ou Teixeirinha, que também se faziam representar nesse álbum, respectivamente, com “Felicidade” e “Coração De Luto).

Na verdade, “Haragana” e a própria “Vento Negro” foram incorporadas ao repertório de Kleiton e Kledir justamente porque as composições remontam aos Almôndegas, sendo que os irmãos donos do hit “Deu Pra Ti” foram membros fundadores do conjunto.

Outra canção já sedimentada na terra do Gre-Nal é “Canção Da Meia-Noite”, que abre o LP de estreia do conjunto, Almôndegas (1975). A canção é marcada por sua relativa elaboração harmônica e pelos fraseados ao violino, que Kleiton Ramil preservou nas canções da dupla que, algum tempo depois, formaria com o irmão Kledir.

A letra também é um barato e bem sugestiva: num encontro amoroso à meia-noite, o sujeito teme perder completamente o controle, se metamorfoseando numa besta folclórica. E suplica à dama: “Dona senhora, meia-noite eu canto / Essa canção anormal / Dona senhora, nesta lua cheia / Meu corpo treme, o que será de mim / Que faço força pra resistir a toda essa tentação? / Na sombra da lua cheia, esse medo de ser / Um vampiro, um lobisomem, um saci-pererê”.

Embora “Canção Da Meia-Noite” tenha sido composta pelo cantor Zé Flávio, é interessante observar que algumas de suas marcas estilísticas acabariam vazando para a futura produção autoral dos irmãos Ramil. Assim, noto que os acordes da canção podem ter inspirado “Roda Da Fortuna” (trazida ao blog sem sensibilizar muito os frequentadores: foi uma das canções menos visitadas até o momento, embora seja uma de minhas favoritas entre todas as mais de 200 que já abordei), do álbum de estreia da dupla, em 1980.

Da mesma forma, a narrativa da letra me lembra um grande sucesso de Kleiton e Kledir, “Paixão”: “Amo tua voz e tua cor / E teu jeito de fazer amor / Revirando os olhos e o tapete / Suspirando em falsete / Coisas que eu nem sei contar / Ser feliz é tudo que se quer / Ah! Esse maldito fecho ecler / De repente a gente rasga a roupa / E uma febre muito louca / Faz o corpo arrepiar / Depois do terceiro ou quarto copo / Tudo que vier eu topo / Tudo que vier, vem bem / Quando bebo, perco o juízo / Não me responsabilizo / Nem por mim, nem por ninguém”. (E, se repararmos bem, a letra é politicamente incorretísima!).

A transfiguração do sujeito num “vampiro, um lobisomem, um saci-pererê” reapareceria nas evocações sacrílegas de “Fonte Da Saudade”, que traz novamente o tema da conjunção amorosa carnal (e observe os termos em destaque): “Esse quarto é bem pequeno / Pra te suportar / Muito amor, muito veneno / Pra pouco lugar / O teu corpo é uma serpente / A me provocar / E teu beijo, a aguardente / A me embriagar / Essa boca muito louca / Pode me matar / Se isso é coisa do demônio / Eu quero pecar“.

Pois é, não é preciso ser vulgar ou pornográfico para tratar, numa canção, de uma coisa tão linda (e poética) quanto o sexo. As gerações atuais têm muito o que aprender com a família Ramil.

os-almondegas.jpg
Almôndegas: cantando amores de outro mundo.

Como dei a entender, “Canção Da Meia-Noite” foi muito regravada. Vou destacar, aqui, apenas duas versões.

A primeira é da própria dupla Kleiton e Kledir, abrindo seu DVD Ao vivo (2005). Na banda de apoio, dois músicos com relativa projeção nacional: o guitarrista Luciano Granja e o baterista Adal Foncesa (irmão do também batera Alex Fonseca), que tocaram nos Engenheiros do Hawaii de 1996 a 2000. Ótimo arranjo:

E a segunda versão, também num registro de apresentação, é a do Nenhum de Nós, em seu Acústico ao vivo (1994). O arranjo também é reverente à versão dos Almôndegas, e a plateia reconhece (e saúda) a canção logo nos primeiros acordes. Em vez do violino de Kleiton, a gaita de João Vicenti. Performance intensa e inesquecível:

5 comentários

  1. Fui conferir ”Haragana” e ”Vento Negro” e descobri que são aquelas gravadas pela Fafá de Belém,eu achava que fossem músicas-regionais do Pará e não do Rio Grande do Sul.

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    1. A Fafá tem um histórico de relações com o cancioneiro sulista. Ela gravou também outra canção clássica do extremo-Sul, “Gaudêncio Sete Luas”, que quase trouxe ao blog. Grato pelo comentário.

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