208. Orquestra Mundana Refugi: “As Caravanas”

É um dia de real grandeza, tudo azul
Um mar turquesa à la Istambul enchendo os olhos
Um sol de torrar os miolos
Quando pinta em Copacabana
A caravana do Arará, do Caxangá, da Chatuba


Em 1942, o escritor franco-argelino Albert Camus publicava O estrangeiro, que logo se tornaria um clássico da literatura existencialista. Li a obra quando tinha 15 anos, impulsionado pelo fato de o livro inspirar a canção “Killing An Arab”, do The Cure, além de “A Revolta Dos Dândis, I”, dos Engenheiros do Hawaii (aliás, o álbum A revolta dos dândis é quase todo existencialista, com referências explícitas a Camus – sendo “A revolta dos dândis” o título de um de seus ensaios – e a Sartre, outro grande nome do “movimento existencialista”, se assim podemos nomeá-lo. Para saber mais, recomendo O que é existencialismo, de João da Penha, título da coleção Primeiros Passos publicado pela Brasiliense em 1982).

A obra tem como personagem principal o argelino Mersault, e sua abertura é um clássico:

Hoje mamãe morreu. Ou talvez ontem, não sei. Recebi um telegrama do asilo: “Mãe morta. Enterro amanhã. Sinceros sentimentos.” Isso não quer dizer nada. Talvez tenha sido ontem.

O protagonista, o próprio narrador de sua desventura, é um sujeito profundamente indiferente a tudo e a todos. Leva uma vida banal, tem amigos, troca amenidades com seus vizinhos, possui até uma namorada. E, num fim-de-semana programado com um encontro entre casais, acaba se envolvendo no assassinato de um homem árabe.

Mersault não nega o crime, mas atribui o acontecimento ao sol: o brilho quente e intenso do astro-rei o entorpecera no momento em que estava com o dedo no gatilho. Tirou a vida de um homem sem mesmo saber o porquê, num arroubo de confusão mental.

Já o julgamento é implacável, e os acusadores mobilizam, como provas, o imenso histórico de atitudes frias do personagem, incluindo sua indiferença ao falecimento de sua mãe.

A filosofia existencialista tem como uma de suas categorias principais o absurdo. De forma simplificada, o conceito se refere à completa ausência de sentido em nossas vidas – o que estamos fazendo aqui? E, em minha leitura adolescente de O estrangeiro, identifiquei o absurdo na forma como o julgamento de Mersault se desenrolara: ora, o homem realmente não teve culpa por estar com uma arma em mãos justamente quando o sol ficaria mais intenso; o assassinato fora, literalmente, uma fatalidade.

Uma leitura ingênua, que confundiu O estrangeiro com O processo, de Kafta Kafka. Na verdade, pensando bem, os acusadores não estavam agindo de forma absurda: absurda mesmo era a imensa indiferença de um sujeito que, tão friamente (apesar – e não por causa – do calor e da luz do sol), desprezava tão completamente a vida alheia, a ponto de subtraí-la sem nem mesmo sentir remorso.

Mersault estava condenado à morte e, pensando bem, a justiça estava feita (ao menos no contexto do romance): afinal, o que esperar de alguém incapaz de manter qualquer laço de afeto ou consideração para com aqueles a seu redor (perguntado pela namorada se ele a amava, Mersault apenas respondeu que isso não faria a menor diferença), e mais do que isso, incapaz de se responsabilizar por seus atos?


Estamos em 2017 e a polarização política permanece como diretriz organizadora do debate público. Chico Buarque lança o clipe de “Tua Cantiga”, que traz um personagem narrador se declarando à amada, admitindo, a certa altura, que “Quando teu coração suplicar / Ou quando teu capricho exigir / Largo mulher e filhos e de joelhos vou te seguir”.

Pronto! Pobre Chico. Uma metáfora, colocada na boca de um personagem, inseriu o compositor no centro de uma polêmica absurda. A esquerda radical endureceu o discurso contra o compositor paulista, deplorando a forma como um homem, dito progressista, expunha de forma tão banal o abandono familiar: justo você, Chico Buarque?

A polêmica foi tamanha que, por pouco, o restante de Caravanas, álbum que abrigaria “Tua Cantiga” (e lançado no mesmo 2017), não passou batido. Seria uma lástima, porque o disco trazia uma obra-prima infinitamente superior à polêmica canção de trabalho (e que já era absurdamente linda e elaboradíssima, com fórmula de compasso ternária, uma referência melódica – a princípio, involuntária – a Bach e citações de Shakespeare): a própria canção “As Caravanas”.

Clássico imediato, a obra tem como referência primeira “Caravan” de Duke Ellington. A introdução parece inspirada na milonga, mas a canção não é facilmente identificável com nenhum gênero. O andamento segue o violão de Chico, adornando-se com uma bela orquestração.

A letra é um primor. Uma espécie de narrador neutro observa uma cena bastante comum nas praias cariocas. A classe média assiste atônita ao desembarque, à alva areia de Copacabana, dos moradores das comunidades, a partir de suas conduções superlotadas: “A caravana do Arará, do Caxangá, da Chatuba / A caravana do Irajá, o comboio da Penha”. E imediatamente pensamos no Rappa, que já em seu álbum de estreia (O Rappa, 1994), denunciava que “Todo Camburão Tem Um Pouco De Navio Negreiro”. Todo camburão e todo busão que vem da perifa.

A reação da “massa cheirosa” (como diria uma famosa colunista de um jornalão paulista) é um misto de fascínio e medo – este, muito mais pronunciado: “Diz que malocam seus facões e adagas / Em sungas estufadas e calções disformes / É, diz que eles têm picas enormes / E seus sacos são granadas / Lá das quebradas da Maré / Com negros torsos nus deixam em polvorosa / A gente ordeira e virtuosa que apela / Pra polícia despachar de volta / O populacho pra favela / Ou pra Benguela, ou pra Guiné”. Os pretos favelados, escurecendo a branca orla da nossa praia, só podem ser uma ameaça, uma invasão ao nosso espaço; que a polícia cuide desses marginais que vieram bagunçar o descanso dos justos, que tanto trabalham pela ordem-e-progresso!

E, diante dos absurdos que ouve-vê, o narrador extrai uma moral que, de tão óbvia à luz dos ideais de igualdade-liberdade-fraternidade, o faz até duvidar de que a realidade, em pleno século XXI (ou seja, quase 250 após as grandes revoluções burguesas), ainda esteja enredada nesse primitivismo incorrigível: “Tem que bater, tem que matar, engrossa a gritaria / Filha do medo, a raiva é mãe da covardia / Ou doido sou eu que escuto vozes / Não há gente tão insana / Nem caravana / Nem caravana / Nem caravana do Arará”.

O interessante, da movimentação narrada, é a rápida identificação dos favelados com outros povos historicamente marginalizados, de forma universal. E é aí que aparecem, pela primeira vez, as pistas que sugerem O estrangeiro de Camus como uma inspiração para o enredo de “As Caravanas” – os grifos são meus: “Não há barreira que retenha esses estranhos / Suburbanos tipo muçulmanos do Jacarezinho / A caminho do Jardim de Alá / É o bicho, é o buchicho, é a charanga”. A homologia está traçada: o desprezo da classe média carioca (e não apenas dela) pelos povos da favela é o mesmo desprezo de Mersault pelo árabe que assassinou sem mais nem menos, também com o sol na cabeça à beira-mar.

E o sol, álibi de Mersault, é novamente evocado em “As Caravanas”: “Sol / A culpa deve ser do sol que bate na moleira / O sol que estoura as veias / O suor que embaça os olhos e a razão”. Mas o sol serve como justificativa para o quê, exatamente? É o narrador que, diante do absurdo a que testemunha, atribui o surrealismo ao efeito da insolação? Ou estaria o narrador “passando o pano”, justificando o injustificável – quer dizer, estabelecendo um impensável nexo causal entre o calor do sol e o sentimento fascista dos “cidadãos de bem”? Ou ainda, seria a voz da própria classe média que, à Mersault, convoca o sol apenas para se sentir menos culpada e responsável por seu preconceito de classe e de cor? Essas são questões que, inteligentemente, a canção de Chico apenas nos sugere, mas não responde.


Agora é 2019 e a polarização permanece. Não é apenas o Brasil: é o mundo que está dividido entre a social-democracia e o populismo de direita, responsável por eleger líderes autodeclarados outsiders da política, justamente em nações de maior peso na geopolítica mundial.

A esquerda brasileira permanece refém da pauta de costumes, enredada pelos absurdos proferidos pelo presidente e seus correligionários – enquanto a reforma da previdência vai avançando seus passos pelo Parlamento, meio desidratada, é verdade, mas ainda assim um eficientíssimo dispositivo para acelerar a pauperização e a eliminação dos assistidos pelos mecanismos de seguridade social. A conferir.

Já no âmbito europeu, outras pautas permanecem em debate, com destaque para a questão imigratória. Mas o Brasil é o destino escolhido por refugiados de diversos cantos do mundo, não podendo ficar indiferente também a esse assunto. E eis que, no âmbito da prática artística, emerge um coletivo que, com sua arte, provoca a reflexão também sobre os “desgarrados da terra” – como diria a canção “Levantados Do Chão”, parceria de Chico com Milton Nascimento.

Trata-se da Orquestra Mundana Refugi, composta por quase duas dezenas de músicos oriundos de diversas nações, em sua maioria, refugiados políticos. A banda-orquestra acaba de lançar seu segundo álbum, Caravana Refugi, que traz “As Caravanas” como grande destaque.

Se a versão original de Chico chamava a atenção por articular o arranjo camerístico de Luiz Cláudio Ramos com o beat-box de tamborzão do rapper Rafael Mike (um eficiente recurso retórico, capaz de autorizar o “branco de classe média” Chico Buarque a falar em prol dos menos favorecidos – e aqui estou sendo irônico, pois não concordo exatamente com a forma como conceito de lugar de fala vem sendo utilizado justamente para interditar determinados debates ou opiniões, apenas por provirem de onde provêm), temos na versão da OMRefugi outros trunfos que reforçam semioticamente a situação narrada na letra.

Destacam-se, assim, as intervenções feitas com instrumentos típicos das culturas do Grande Oriente Médio, que provocam uma identificação ainda maior entre as “hordas bárbaras” da periferia e os muçulmanos discriminados e perseguidos na Europa e suas colônias, deslocando “As Caravanas” do particular para o universal.

Impacto maior ainda tem a citação a “Deus Lhe Pague”, que conecta a obra recente de Chico Buarque a seu clássico “Construção”, que também a trazia como música incidental. Assim, a tragédia de um operário que despenca do edifício em que trabalha, entorpecido pela bebida (seu anestésico diante do absurdo do real) é, novamente, homologada à tragédia diária que assombra o cotidiano dos pobres, castigados e desafortunados em geral – cuja simples existência é tida como um incômodo, um agente provocador da desordem, uma anomalia que, por fazer do mundo uma verdadeira Torre de Babel (como o início do clipe da OMRefugi sugere, com sua profusão de vozes em diversos idiomas), deve ser suprimida.

Carlinhos Antunes, mentor da OMRefugi, mostrou a nova gravação de “As Caravanas” a Chico Buarque, que a adorou. E quem somos nós para discordar desse homem que, já aos 75, permanece como um dos mais relevantes sujeitos da arte – e, por conseguinte, da política – brasileira?

Só mesmo seus poemas-canções para nos trazer um pouco de alento diante de tanto aburdo.

orquestra-mundana-refugi.jpg
Orquestra Mundana Refugi: da polifonia de vozes e sotaques à mensagem de união e solidariedade entre os povos.

5 comentários

  1. Um dos melhores textos do editor do blog,e parabéns à Orquestra Mundana pela excelente escolha e performance de As Caravanas.

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    1. Muito obrigado pelo elogio. Canções recentes como “As Caravanas” são um alento para a produção cultural brasileira, e merecem ser saudadas num espaço como este.

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