209. Roupa Nova: “Seguindo No Trem Azul”

Confessar sem medo de mentir
Que em você encontrei inspiração
Para escrever
Você é pessoa que nem eu
Que sente amor
Mas não sabe muito bem
Como vai dizer


Clube da esquina (1972), disco assinado por Lô Borges e Milton Nascimento, traz diversos clássicos da canção brasileira. Um deles é uma peça singela, que Lô compôs quando tinha apenas 17 anos, “O Trem Azul”. Vale a pena ouvir as palavras de Barral Lima, o tecladista e produtor que organizou o Song book Lô Borges (Belo Horizonte: Neutra, 2013), sobre essa e outras obras do cantor e compositor, presentes no álbum:

Nesse disco, Lô tocava biolão, guitarra, piano, percussão e cantava cinco de suas oito composições, e com elas estabelecia definitivamente sua dicção como compositor que alinhava Beatles e [Tom] Jobim de forma perfeitamente equilibrada, sem se reduzir a qualquer dessas grandes influências. “O Trem Azul” talvez seja o exemplo mais arquetípico desse movimento. Sob uma melodia de notas repetidas ingênua e engenhosamente em cima da sétima maior de cada acorde – em Dó Maior, Lô encadeia acordes típicos da região de Dó Menor (Ab7M, Eb7M, Bb7M, e a dominante do refrão, G7(b9)13), um gabito tanto jobiniano quanto beatleniano – que conduzia a letra imagética e enigmática de Ronaldo Bastos. O refrão contrasta por elevar um mínimo degrau entre a sétima maior e a tônica, dando um pouco mais de afirmação à melodia. Esse caráter lento, prostado e contraído da melodia é bastante distintivo da canção, que remete a um clima onírico e lisérgico. O solo melódico de Toninho Horta, tal como um contraponto, se firmava como parte integral da composição, enquanto a instrumentação elétrica e os vocais em três partes consistiam no acabamento perfeito dessa receita originalíssima.

“O Trem Azul” é um grande marco do Clube da Esquina, não só do álbum, mas do movimento estético que os mineiros estabeleceram no desenvolvimento da canção brasileira (p. 9).

Não canso de ouvi-la… escute também:

Como disse, Clube da esquina alinha diversos clássicos inesquecíveis. E, para além de suas características composicionais, “O Trem Azul” pode ser assim considerada sob um outro ponto de vista: por sedimentar uma imagem no inconsciente de gerações. O trem azul, quase um personagem da canção, virou sinônimo de placidez, um instrumento mediador entre nosso desgastado cotidiano e a promessa de uma paisagem que seja puro deleite. Assim como Paulo Vanzolini eternizou a expressão “volta por cima”, que saiu de sua obra e foi parar nos dicionários, Lô, Bituca e companhia fizeram do trem azul um objeto imaginário, utópico, para muito além da canção beatle-jobiniana.

Sim, esse trem foi parar longe da ferrovia construída pelos irmãos Borges, por Milton e pela miríade de compositores e músicos associados ao Clube. E, muito tempo antes que “O Trem Azul” se tornasse o jingle da campanha publicitária de uma famosa operadora de telefonia (já na presente década), um outro conjunto embarcou na mesma viagem: o Roupa Nova.

O conjunto carioca nunca negou sua admiração pelo Clube da Esquina. Seu nome remete a uma bonita canção de Bituca e Fernando Brant (a própria “Roupa Nova”), lançada por Beto Guedes em 1981. Além disso, permanece em seu repertório, desde os anos 1980, a incrível “Nos Bailes Da Vida”, também de Milton e Brant, que parece uma biografia autorizada do próprio Roupa Nova.

Pois bem, em 1985, no álbum Roupa Nova (que traz o clássico “Dona”, de Sá e Guarabyra), uma faixa chamava a atenção pela referência explícita à obra de Lô: “Seguindo No Trem Azul”. A letra é novamente de Ronaldo Bastos, que retoma o trem como veículo para a consumação de um amor verdadeiro e profundo: “Só me dará prazer, se viajar contigo / Até nascer o sol, seguindo no trem azul / Te dou meu coração, queria dar o mundo / Luar do meu sertão, seguindo no trem azul”.

A música de “Seguindo No Trem Azul” – composta pelo tecladista Cleberson Horsth – não faz maiores referências ao arranjo, à melodia ou à harmonia do trem original de Lô. Mesmo assim, contribuiu para levar a mensagem de paz e união e amor fraterno, extensamente abordada pela obra dos mineiros, a um público bem mais amplo.

roupa-nova.jpg
Roupa Nova: levando o trem azul para paisagens muito além dos trilhos do Clube da Esquina.

“Seguindo No Trem Azul” reaparece, com novos arranjos, em dois álbuns do Roupa.

Em Agora sim! (1999), a sonoridade oitentista cede lugar a uma batida eletro-acústica, preservando as belas harmonias vocais do conjunto:

E em RoupAcústico (2004), a faixa permanece linda e comovente:

3 comentários

  1. Achei que tivesse confundido os ”Trens Azul”,mas realmente,a música com o Roupa Nova atingiu todo mundo,me lembro de ouvir até boia-fria cantando na roça,enquanto a do Clube da Esquina (minha favorita) ficou circunscrita.

    Curtir

    1. Tem muito “trem” no repertório dos mineiros, que acabam chegando a outras ferrovias musicais. E a do Roupa Nova, apesar de certo apelo populista, é uma das mais sólidas do Brasil contemporâneo, sem dúvidas. Grato pelo comentário.

      Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s