211. O Grande Encontro: “O Princípio Do Prazer”

Juntos vamos esquecer
Tudo que doeu em nós
Nada vale tanto pra rever
O tempo que ficamos sós
Faz a tua luz brilhar
Pra iluminar a nossa paz
O meu coração me diz
Fundamental é ser feliz


Na psicanálise, os conceitos de princípio do prazer e princípio da realidade nos ajudam a entender muitos de nossos comportamentos, e não apenas aqueles referentes à infância. Não sou grande estudioso do tema, mas fiz lá minhas leituras – e me sirvo rapidamente de uma delas aqui –, trazendo um pequeno excerto sobre o funcionamento psíquico, à luz da necessidade do prazer:

O princípio básico do funcionamento mental, segundo Freud, é o de evitar desprazer. […] Um dos esquemas de funcionamento da psique […] conjuga estes três sistemas: consciente, pré-consciente, e inconsciente. O modelo é simples, muitíssimo útil e prático, sobretudo quando se quer entender os diferentes tipos de lógica operantes em nossa mente. Os sistemas possuem características lógicas diversas ou, como se diz também, princípios diversos de funcionamento. A consciência toma em conta a realidade consensual, o inconsciente trabalha só de acordo com o princípio do prazer-desprazer, como uma espécie de máquina de reduzir tensões mentais, porque o excesso de tensão é experimentado como desprazer (Fábio Herrmann em O que é psicanálise, 1989 – conforme edição de 1991 do Círculo do Livro, p. 75-77).

Em outras palavras, afloram determinadas tensões, em nossa mente, que podem ser dissipadas mediante certos comportamentos. Algumas dessas tensões têm como origem o princípio do prazer, um conjunto de forças típicas do inconsciente, que nos impelem a experimentar a realidade, principalmente, de forma sensualista (quer dizer, satisfazendo aos órgãos dos sentidos). Por vezes, o princípio do prazer se choca com o princípio da realidade, que representa a prudência ou a capacidade em, pelo menos, se adiar a satisfação imediata do prazer.

Transladando esses conceitos para o contexto da canção popular, Geraldo Azevedo escreveu um belíssimo xote, justamente “O Princípio Do Prazer”. Ou seria um reggae?

Lançada em 1986 no álbum De outra maneira, a faixa traz uma bonita e discreta levada ao violão, sendo acompanhada por belos fraseados de sanfona. Segundo o próprio Geraldo, a canção “deve ter influência de Paul McCartney, dos Beatles, alguma coisa assim… porque… Porém, ela tem alguma da harmonia brasileira e, ao mesmo tempo, ela tem alguma surpresa harmônica… […] de Tom [Jobim]… de uma maneira muito sutil”. Também como o próprio cancionista reconhece, a harmonia traz passagens semelhantes àquelas de outro sucesso seu, “Moça Bonita”.

Mas o arranjo ainda aparece contaminado pelos timbres pasteurizados dos anos 1980:

A solução? Rearranjar a faixa e acrescentar novas surpresas. Pois foi isso que fizeram Geraldo, Zé Ramalho e o guitarrista Robertinho de Recife, na reapresentação da obra no álbum O Grande Encontro(1997). Após uma reunião bem-sucedida entre Geraldo, Zé, Elba Ramalho e Alceu Valença no ano anterior, registrando um clássico disco ao vivo com releituras acústicas de canções do quarteto, os três primeiros se uniram novamente e produziram um belíssimo álbum de estúdio.

Ali, “O Princípio Do Prazer” ressurge investindo em outros climas que, ainda que preservem o balanço do xote-reggae da versão original, trazem novos elementos, como as sempre lindamente timbradas guitarras de Robertinho, mais passagens deliciosamente psicodélicas.

Se a ideia era compatibilizar o arranjo com a letra, funcionou! Afinal, nada mais adequado que uma boa dose de psicodelia para acompanhar versos como “Carícias, canções, deixa entrar o sol da manhã / A cor do som, eu com você sou muito mais”.

Com o novo arranjo, “O Princípio Do Prazer” concentrou novas energias (exprimidas, principalmente, pelos maravilhosos agudos de Elba) que traduzem exatamente a busca de um sujeito desejante por satisfação, se dispondo a esquecer (ou reprimir?) os insucessos afetivos pretéritos. Mas, apesar de toda essa sede de prazer, o ouvinte fica com a sensação de que tais esforços são legítimos – afinal, é o coração que orienta o caminho do sujeito em sua tentativa de eternizar seu gozo: “O princípio do prazer / Sonho que o tempo não desfaz / O meu coração me diz / Fundamental é ser feliz.”

Sim, é fundamental mesmo.

o-grande-encontro.jpg
O princípio do prazer é escutar a harmonia de vozes e a comunhão artística do Grande Encontro.

Na última reunião do Grande Encontro (que, dessa vez, trouxe Alceu de volta, no lugar de Zé Ramalho), Elba e Geraldo fazem de “O Princípio Do Prazer” a oportunidade para um dueto animado e inesquecível, ainda que sem a psicodelia da versão de O Grande Encontro 2. O registro aparece como extra do DVD O Grande Encontro – 20 anos (2016):

Além dessa belíssima gravação, existe a versão voz-e-violão de Geraldo, em Solo contigo (2019). Maravilhosa:

2 comentários

  1. Onde tem Geraldo Azevedo só pode ter coisa boa,uma bela mensagem positiva.Quanto à Freud,eu sempre leio também,e apesar de não aceitar suas teorias como verdade-absoluta,não deixa de ser interessante.
    Eu simplificaria assim,enquanto a nossa consciência busca o prazer,o nosso inconsciente (nosso eu-profundo,ou nossa essência-espiritual) busca sempre a evolução,que passa quase sempre pelo desprazer e obstáculos (criados pelo ”Superego”,que na verdade são as leis-morais-divina).Só eu mesmo,um boia-fria querendo reler Freud,rs.

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