213. Nei Lopes: “Baile No Elite”

Fui a um baile no Elite, atendendo a um convite
Do Manoel Garçon (meu Deus do Céu, que baile bom!)
Que coisa bacana, já do Campo de Santana
Ouvir o velho e bom som: trombone, sax e pistom.
O traje era esporte, que o calor estava forte
Mas eu fui de jaquetão, pra causar boa impressão
Naquele tempo era o requinte o linho S-120
E eu não gostava de blusão (é uma questão de opinião!)


Nei Lopes é um erudito na canção popular brasileira. Africanista, dicionarista, enciclopedista… e também cancionista. E, em todas as suas produções, a síntese perfeita entre a cultura elaborada e a cultura popular.

Já trouxemos uma canção de sua lavra ao blog – celebrando a incrível Beth Carvalho, com “Morrendo De Saudade” – e hoje falaremos de sua parceria com outro grande sambista que nos deixou, João Nogueira, com “Baile No Elite”.

A canção consta em seu álbum dedicado (quase que exclusivamente) ao samba de breque, Sincopando o breque (1999). O gênero tem como característica, além do silêncio que interrompe o acompanhamento musical, o caráter fortemente narrativo, temperado com muito bom humor.

O álbum em questão traz uma porção dessas estórias que flagram o cotidiano de nosso povo. Além disso, as faixas apresentam uma incrível coesão interna: nada de enunciados genéricos e demonstrações de amor gratuitas, pois o cancionista se preocupa em explorar todo o vocabulário implicado nos temas das canções, até as últimas consequências.

Assim, “Samba Na Medida” traz, além de um peculiar esquema de rimas intercaladas (relativamente incomum na canção popular), diversos elementos do universo da alfaiataria: “Mano Walter Alfaiate / Parceiro e amigo fraterno / Escreve aí no teu caderno / Eu quero fazer um terno / Caprichado no arremate / Com um corte bem moderno / Num pano verde-abacate / Com botões cor de tomate / Meio outono, meio inverno”.

Outra que gosto é “Cara E Coroa” que, apesar de politicamente incorreta (por se basear no julgamento alheio sobre a sexualidade de um rapaz de gosto muito peculiar), nos faz rir com as imagens que evoca: “Ele deve ter sido educado em casa de madrinha / Na certa brincou muito de comidinha / E sempre tirou em primeiro lugar / Deve ter sido sempre o goleiro no racha da escola / E embora fosse o dono da bola / Na rua ninguém deixava ele jogar / Esse cara é de fato um sujeito fora do comum / Tem voz de piloto de Fórmula 1 / Mas usa um bigode sobrenatural / E aí eu não sei se ele é calmo ou se é muito afoito / Se é atiradeira ou se é trinta e oito / Se é cara-ou-coroa ou um cara-de-pau”.

Já em “Feição De Boboca”, o enunciador é que se vê vítima das provocações de outrem, praticamente se reconhecendo como um perdedor. Parece ser o mesmo personagem de “Justiça Gratuita”, cuja companheira, Felicidade, ostenta um léxico de tribunal aprendido no curso de Direito, e acaba ludibriando o parceiro com seu juridiquês: “Me pediu uma grana / Dizendo que era um contrato de mútuo / Comeu e bebeu, disse que era usufruto / E levou pra casa o meu violão / Meses depois / Que fez este agravo ao meu instrumento / Ela, então, me disse, cheia de argumento / Que o adquiriu por usucapião”.

“A Neta de Madame Roquefort”, a mais abolerada do álbum, impressiona pelas brincadeiras com a sonoridade das palavras de nosso idioma que foram importadas do francês, ao descrever uma personagem habituada à cultura burguesa: “Depois, no Arpoador, com seu maiô de tricô, ela não faz forfait / De bustier com fecho-eclair / E quando chega a noite ela vai à boate com seu Chevrolet / Mas quem dirige é o chofer / E você imagine que nem no Regine’s ela paga couvert / (É hors-concours na discotèque, opinião de Eddie Barclay)”.

Destaco, ainda, a zodiacal “A Hora Do Touro”: “Lendo um anúncio num famoso matutino / Quis saber do meu destino e fui direto a um professor / Que tinha estado bastante recentemente / Lá nas terras do Oriente com Nabucodonosor / (Na astrologia e na magia ele se dizia ser doutor) / Examinando a data do meu nascimento / Ele previu bom casamento e uma escalada social / Segundo ele, eu sou do signo de touro / Que é o signo do ouro, do prazer e coisa e tal / Signo forte e sendo signo da terra / Muita coisa boa encerra no plano material / (Muito conforto e mordomia pra gastar o vil metal)”. E imagine que o tema não se resuma à astrologia, é claro, pintando alguma gracinha com o simbolismo do signo bovino: “Mas, como um touro, sou teimoso e persistente / E no domingo novamente volto a me candidatar / Vênus, por certo, vai estar lá na paquera / Todo o baixo astral já era, vou me reabilitar / Você vai ver, vai tudo ser satisfatório / Vou achar no auditório uma de Scórpius pra meu par / (Ferrão aqui, chifre acolá, mas mesmo assim vou me casar!)”. Genial!

Mas voltemos a “Baile No Elite”. Como outras canções já trazidas ao blog, esta traz uma narrativa praticamente inverossímil que, afinal, se desfaz como fumaca, por ser um sonho. A voz que canta narra suas proezas, uma a uma, com riqueza de detalhes, de sua chegada triunfante a seu sucesso como dançarino e conquistador, no baile em questão.

Entre uma malandragem aqui e outra acolá, o ouvinte é atirado para um cenário cada vez mais raro: um baile que, apesar de não ser tão elitizado assim, requer um mínimo de requinte quanto ao traje dos participantes, e anima a plateia com um espetáculo de choro. De choro! E pensar que, hoje, animação é sinônimo de bebedeira em algum apertado espaço gourmet

Assim, apesar de seu caráter onírico, revelado ao final da narrativa, “Baile No Elite” registra um momento esquecido da história do Brasil, em que o entretenimento se aliava à valorização de nossa cultura e de nossa arte.

Só por isso, a canção já merece ser celebrada.

nei-lopes.jpg
Nei Lopes: entusiasta da cultura brasileira, sincopando o breque com muita personalidade.

João Nogueira foi quem lançou “Baile No Elite”, em seu Vida boêmia (1978). Preste atenção à sonoplastia dos sopros, bem como ao acompanhamento do 7 cordas:

Em homenagem ao mestre, Marcelo D2 defendeu “Baile No Elite” no Sambabook João Nogueira (2012). Ao cantar, o intérprete substituiu os nomes dos lendários dançarinos de gafieira mencionados na letra, Trajano e Mário Jorge, pelos amigos Diogo Nogueira (sempre bom lembrar, herdeiro de João) e Seu Jorge. Não é um show de interpretação, mas a malandragem do narrador de “Baile No Elite” cai como uma luva no jeito despojado do cantor, que nunca se restringiu ao gênero do raprockandrollpsicodeliahardcoreragga. Confira:

Em seu MTV apresenta (2009), o Casuarina executa uma versão bastante reverente à tradição do samba de breque. Breve, mas merecedora de uma audição:

Por fim, há a versão de Júnior Werneck, em seu álbum de estreia (homônimo, lançado em 2018). Embora o arranjo traga um dispensável acompanhamento de cordas, a performance vocal é aceitável:

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