214. Simone: “O Que Será (Abertura)”

E todos os meus nervos estão a rogar
E todos os meus órgãos estão a clamar
E uma aflição medonha me faz implorar
O que não tem vergonha, nem nunca terá
O que não tem governo, nem nunca terá
O que não tem juízo


Muito já foi dito sobre “O Que Será”, de Chico Buarque. Em 85 anos de música brasileira: vol. 2 (São Paulo: Edições 34, 1997), Zuza Homem de Mello e Jairo Severiano contextualizam a origem da obra, uma suíte em três partes:

Feita para o filme “Dona Flor e Seus Dois Maridos”, a canção “O Que Será” tem três versões, que marcam passagens diferentes da trama: “Abertura”, “À Flor da Pele” e “À Flor da Terra”. Cantada no filme por Simone, a versão “À Flor da Terra” (três estrofes de doze versos) alcançaria grande sucesso na gravação de Chico Buarque e Milton Nascimento, que abre o elepê Meus caros amigos, um dueto, aliás, que aconteceu por mero acaso. Chico estava na gravadora ensaiando a canção com Francis Hime, quando Milton, de passagem pelo estúdio, ouviu e gostou. Daí surgiu o convite para a gravação, depois retribuído com a participação de Chico num disco de Milton, cantando com ele “À Flor da Pele”. Mas “O Que Será”, em qualquer das versões, é uma obra-prima, no nível das melhores criações de Chico Buarque, com sua melodia forte e sua letra libertária, um tanto ambígua em certos aspectos: “O que será que será / que todos os avisos não vão evitar / porque todos os risos vão desafiar / porque todos os sinos irão repicar / porque todos os hinos irão consagrar…” Em 15.9.92, ao tomar conhecimento do conteúdo de sua ficha no Dops-DPPS, em que há uma análise de “O Que Será”, Chico Buarque declarou ao Jornal do Brasil: “acho que eu mesmo não sei o que existe por trás dessa letra e, se soubesse, não teria cabimento explicar…”

Os dois duetos entre Chico e Bituca – “O Que Será (À Flor Da Pele), em Geraes (1976), e “O Que Será (À Flor Da Terra)”, em Meus caros amigos (1976) – são grandes clássicos e representam as gravações mais famosas entre as três partes da obra. Mas justamente o tema que abre a suíte, “O Que Será (Abertura)”, gravado por Simone em Face a face (1977), permanece relativamente esquecido, daí nossa vontade relembrá-lo aqui.

Comparando-se a sequência das três partes, observa-se que a abertura introduz os temas – poéticos e melódicos – que serão mais bem desenvolvidos nas duas partes seguintes. Nota-se que a versão de Simone não se inicia com o jogo de advinhações que caracteriza a íntegra das versões de Milton e Chico. Os versos introdutórios servem para situar o estado de ânimo de um dos personagens que participa do diálogo, que assevera: “E todos os meus nervos estão a rogar / E todos os meus órgãos estão a clamar”.

O interlocutor, por sua vez, passa a investigar a origem dessa aflição: “O que será que lhe dá / O que será meu nego, será que lhe dá / Que não lhe dá sossego, será que lhe dá / Será que o meu chamego quer me judiar / Será que isso são horas dele vadiar / Será que passa fora o resto do dia / Será que foi-se embora em má companhia / Será que essa criança quer me agoniar / Será que não se cansa de desafiar / O que não tem descanso, nem nunca terá / O que não tem cansaço, nem nunca terá / O que não tem limite”.

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Simone: o belo timbre da Bahia que fez abertura da saga buarquiana de “O Que Será”.

Estaria Chico falando sobre a ditadura? Estaria o primeiro personagem agoniado diante da perspectiva de se engajar numa violenta ação clandestina da luta armada? Ou estaria prestes a deixar o país, rumo ao exílio – “Será que foi-se embora em má companhia”? Pois o sujeito em questão “não se cansa de desafiar” o que parece inominável, mas pode ser identificado com o regime truculento: “O que não tem limite”.

Hipóteses. Estamos, aqui, perscrutando apenas o texto de Chico Buarque. Mas já nos ensinara Luiz Tatit que a redução da canção à poesia simplesmente a dissolve. E, na análise do perfil melódico de “O Que Será (À Flor Da Terra)” – que é idêntico ao da segunda parte da abertura, que já introduz as advinhas (“o que é, o que é”, estilizadas como “o que será, que será”), e se mantém intacto por toda a “Flor Da Pele” – o semioticista da canção nos apresenta diversos achados:

Se pensarmos que as indagações do texto buscam uma resposta esquiva e constantemente postergada e que a melodia cresce em tensão criando diferentes matizes para a pergunta, talvez possamos identificar um sentimento de falta qualificando o estado em que se encontra o enunciador. A partir das gradações de freqüência, captamos o comprometimento emotivo de quem faz a indagação. […]

Se os versos vão se sucedendo sem alterar o valor de conteúdo e as perguntas mantêm exatamente a mesma estrutura motívica, o foco de mobilidade do sentido concentra-se nas variações de altura cuja função principal, nas canções de andamento lento, é traduzir o grau de tensão passional manipulado pelo enunciador. Embora o texto não mencione a natureza da paixão vivida nem as ocorrências introspectivas do enunciador, a elevação de freqüência e o esforço de emissão decorrente acusam a existência de um transtorno íntimo provocado pela falta de algo. É a disforia, fruto da disjunção com os valores mais caros, que se converte em sofrimento passional e só se manifesta pelo tom de voz, mais tenso ou menos tenso. É como a intensidade do grito que traduz, em escala regredida, a intensidade da dor física (Tatit em O cancionista: composição de canções no Brasil. 2. ed. São Paulo: Edusp, 2002, p. 255-257).

Aí estão as chaves interpretativas para a trilogia “O Que Será”. No entanto, muitas camadas de sentidos – incluindo aquelas decorrentes da construção ativa de sentidos, por parte de cada ouvinte singular – podem se sobrepor na conformação final do produto a ser fruído. Assim, há quem diga que a “Abertura” insinua a necessidade urgente de uma lenta distenção do regime ditatorial (a abertura iniciada por Geisel dois anos antes de Chico elaborar sua trilogia), enquanto que “À Flor Da Pele” é a mais visceral dentre as três peças, repleta de versos literalmente herméticos (“O que será que será / […] Que nem dez mandamentos vão conciliar / Nem todos os ungüentos vão aliviar / Nem todos os quebrantos, toda alquimia / Que nem todos os santos, será que será”):

Restou a “À Flor Da Terra” o retorno ao chão por onde passam as gentes, mesmo que seja o chão da boca do lixo, das vulgaridades e indecências – “O que será que será / Que vive nas idéias desses amantes / Que cantam os poetas mais delirantes / Que juram os profetas embriagados / Que está na romaria dos mutilados / Que está na fantasia dos infelizes / Que está no dia-a-dia das meretrizes / No plano dos bandidos, dos desvalidos / Em todos os sentidos, será que será / O que não tem decência, nem nunca terá / O que não tem censura, nem nunca terá / O que não faz sentido”:

Em resumo, essa obra em três partes se apresenta como uma das mais desconcertantes e complexas contribuições de Chico Buarque à canção popular (do mundo) e à cultura brasileira como um todo.

(E, se interessar, perfilei as três versões de estúdio de “O Que Será” em uma playlist no YouTube, que você pode acessar aqui).


Existem muitas versões para a segunda e terceira partes de “O Que Será”. A mais notável é a interpretação do prório Chico para “À Flor Da Pele”, em Chico Buarque ao vivo – Le Zenith, Paris (1990):

E, como curiosidade, o conjunto italiano Mystic Diversions, especialista em climas tranquilos para fim de festa (chillout/ambient/lounge), apresentou uma belíssima versão instrumental para “O Que Será”:

3 comentários

  1. Eu tenho um LP com o Chico e Milton cantando em espanhol.O mais interessante é que nem o próprio compositor disse saber o significado de uma das letras.Há quem associe uma delas ao uso de drogas,a Maria Bethânia gravou ao vivo em tom de protesto.
    No meu caso,eu conheci a obra no filme ”Dona Flor” e sempre associei à sensualidade e libido do casal protagonista.
    Inesquecível a nudez de… José Wilker!

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    1. Que legal! Sua coleção de LPs deve ser um deleite para os amantes da canção popular. E as três versões de “O Que Será” são bastante indecifráveis; capto alguma coisa diferente a cada vez que escuto. Sobre Dona Flor, não assisti ao filme original, mas lembro da minissérie global de fins dos anos 1990, com o Marco Nanini. Ou seja, não vi José Wilker peladão!
      Grato pelo comentário.

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