215. Daíra: “Princesa Do Meu Lugar”

Se me der vontade de ir embora,
Vida adentro, mundo a fora
Meu amor, não vá chorar
Ao ver, que o cajueiro anda florando
Saiba que estarei voltando, princesa do meu lugar


Sou apaixonado pela música de Belchior desde a primeira vez em que escutei uma canção sua, aos 11 anos, “Apenas Um Rapaz Latino Americano”. Depois, o cantor passou por São Carlos, quando eu tinha por volta dos 17. No jornal televisivo do meio-dia, o cearense de Sobral compareceu para um bate-papo com o apresentador, levando seu violão e falando de seus sucessos. Chegou a cantarolar “Como Nossos Pais” e meu pai, que assistia à atração junto comigo, perguntou: “Ué, não vai falar de ‘Paralelas’“? E, imediatamente, como se tivesse escutado o apelo de meu velho, Bel deu uma palhinha também desse clássico.

Aos poucos, fui conhecendo outros sons. Na república de meus amigos de graduação, Era uma vez um homem e seu tempo (1979) foi um LP que, por muitas semanas, girou diariamente na vitrola coletiva – e “Comentário A Respeito De John” foi bastante tocada nas rodinhas de violão. O disco tocou ali até mais que Alucinação (1976), o grande álbum que trazia “Sujeito De Sorte” (que anda na boca do povo, atualmente, por ter sido sampleada por Emicida em “AmarElo”), “Não Leve Flores”, “Fotografia 3×4” e outras canções fortes.

Em Elis, encontrei uma intérprete capaz de potencializar ainda mais as letras cortantes do mestre; sua interpretação de “Como Nossos Pais” é um dos momentos mais comoventes da canção popular mundial, e a Pimentinha também não fez feio com sua releitura rock para “Velha Roupa Colorida”.

Mas minha primeira aquisição de um lançamento de Belchior veio tardiamente, quando já tinha 21 anos, e não passava de uma coletânea – magistral, é verdade, o acústico Um concerto bárbaro (1995), que trazia uma versão impressionante para “Galos, Noites E Quintais”, além de outras canções que acabava de conhecer, como “Notícia De Terra Civilizada” e “Os Profissionais”.

Mais recentemente, voltei a escutar Alucinação e, ao final do ano passado, correndo as eleições e seu resultado trágico, fiz de “Conheço Meu Lugar” (essa, de Era uma vez um homem e seu tempo) a trilha sonora motivadora para o pesado 2019 que nos esperaria.

Nessas audições de Belchior pra cá, Belchior pra lá, vim a conhecer o trabalho dessa incrível garota de Niterói, Daíra Saboia, que gravou o disco-tributo Amar e mudar as coisas (2017), com releituras simples, mas arrojadíssimas, para dez canções do autor de “A Palo Seco”.

Fiquei encantado e enternecido: apesar da ausência de Belchior em nosso combalido contexto artístico brasileiro, suas canções continuam vivas na voz feminina de uma jovem intérprete, que também traz sangue cearense nas veias, e jamais deixa a impressão de querer surfar em qualquer onda revisionista.

Todas as interpretações de Daíra, em Amar…, são magistrais. Mas a que mais me tocou foi justamente a de uma canção que não conhecia, “Princesa Do Meu Lugar”. Depois vim a saber que a faixa jamais fora gravada pelo próprio compositor, tendo sido lançada pela cantora Guadalupe num álbum de mesmo nome, em 1980:

Sobral é conhecida, no Ceará, como Princesa do Norte. Na canção, Belchior faz uma declaração de amor à terra que deixou. E tal como “Asa Branca” de Gonzagão, que traz um enunciador crente de que voltará ao sertão, assim que os sinais da natureza o certificarem de que um novo ciclo de fertilidade se inicia, “Princesa Do Meu Lugar” sincroniza os movimentos do narrador com a paisagem peculiar de Sobral e arredores, com seus cajueiros e carnaubeiras.

É uma obra triste. Apesar da declaração de afeto eterno por sua terra, o personagem, de forma surpreendentemente racional, naturaliza a partida: deixo minha terra assim como um pássaro à mão pode (e irá) voar, para longe, a qualquer momento. E o aspecto trágico se revela em duas instâncias: no contexto interno da própria canção, representado pela inevitabilidade de que a terra de origem nunca deixe o sujeito, não importa para quão longe ele se desloque (“Não há pranto que apague / Dos meus olhos o clarão / Nem metrópole onde eu não veja / O luar, o luar do sertão!”); e, no exame póstumo sobre o desenrolar da biografia do autor, com a constatação de que Belchior jamais retornou verdadeiramente ao Ceará, senão para ser ali enterrado.

Se assim compreendemos a canção, torna-se evidente a adequação do canto passionalísimo de Daíra ao interpretá-la, sozinha ao violão.

Belchior não merecia menos… e olho vivo na cantora, que promete ir longe.

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Daíra: uma linda voz que emociona ao interpretar o presente que Sobral legou ao Brasil, Belchior.

A cantora Amelinha – que dividiu a juventude com Belchior e os demais companheiros da turma que ficaria conhecida como “o pessoal do Ceará” – também releu a obra do compositor em 2017, com o belo (desde a capa) tributo De primeira grandeza. Ali, “Princesa Do Meu Lugar” é embalada por sons sertanejos de violas e do acordeom:

Outra grande cantora que interpretou “Princesa Do Meu Lugar”, recentemente, foi Elba Ramalho, em O ouro do pó da estrada (2018). Ali, a canção, entre foles e zabumbas, fica ainda mais marcada pela nordestinidade, sendo tratada como um xote. Prefiro o estilo folk de Daíra, mas a interpretação de Elba não compromete a obra de Belchior, pelo contrário, a universaliza para a tragédia nômade de milhões de outros “paraíbas” que, deixando suas terras natais para nunca mais voltarem, foram as mãos que construíram e constroem este Brasil. Ouça:

E a curiosidade fica por conta de um dueto justamente entre Daíra e Elba, felizmente registrado em vídeo. Coisa linda:

5 comentários

  1. Mais uma que desconhecia,adorei o vídeo com Daíra,que também não conhecia,voz linda e poderosa.

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  2. Existe uma gravação do Belchior dessa música no programa som Brasil apresentado, a época, pelo Lima Duarte.

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    1. Oi, Marcus. Boa observação.
      Já tinha visto o vídeo diversas vezes, inclusive para construir o texto. Ocorre que, aqui e na crítica musical em geral, não se usa o termo “gravação” para se referir a execuções ao vivo, isoladas, mas apenas a prensagens, quando os registros são incorporados a singles, EPs ou álbuns.
      De qualquer forma, grato pela visita.

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