218. Sandy e Junior: “As Quatro Estações”

A noite cai, o frio desce
Mas aqui dentro predomina
Esse amor que me aquece
Protege da solidão
A noite cai, a chuva traz
O medo e a aflição
Mas é o amor que está aqui dentro
Que acalma meu coração


Era irritante. Você ligava a televisão – a única diversão barata do pobre, numa época em que a internet ainda era um luxo – e lá estavam Sandy e Junior, naquele final de década de 1990. Comerciais, novela, programa dominicial, especiais mil da Rede Globo…

Ao que parece, meus primos campineiros chegaram até estudar com os garotos, e diziam que Sandy era um bibelô. Ou algo do tipo. Para meu pai, por outro lado, o timbre agudo da cantora, mais a superexposição da dupla, formavam um dos fenômenos mais insuportáveis do mundo pop. Eu mal tinha 15 anos e, muito sugestionável pela opinião doméstica, tendia a concordar.

Jamais escutaria um álbum completo dos filhos de Xororó – como jamais escutei. Mas tendia a fazer uma análise menos rasa que a do meu velho. Cheguei a reconhecer que os irmãos tinham talento – e ficou muito evidente, para mim, que Sandy era boa cantora, quando a vi entoar “Águas De Março” num Som Brasil em 1997 – mas pensava, também, que aquele repertório banal não contribuía muito.

Além disso, era muito estranho ver dois recém-adolescentes cantando sobre separações, ausências, amores infinitos e outras experiências que, definitivamente, não deveriam fazer parte do universo de quem mal começava a conhecer as dores e alegrias de viver.

Com o incensado retorno da dupla, a sensação de estranhamento permanece: são adultos e as canções, agora, parecem infantis demais para duas pessoas tão crescidas cantarem. Que ironia.

sandy-e-junior.jpg
Sandy e Junior: fenômeno pop que ultrapassou o âmbito cancional e criou dois personagens onipresentes na cultura de massa.

De qualquer forma, preciso tirar o chapéu para uma gravação, em especial, presente no repertório de Sandy e seu irmão.

Trata-se da faixa “As Quatro Estações”, lançada inicialmente no álbum de mesmo nome, datado de 1999. Tocou à beça nas rádios, como disse, irritantemente. E nem é uma canção tão memorável; à parte o esforço de Sandy em se apresentar também como compositora (a obra é de sua autoria, em parceria com Álvaro Socci e Claudio DaMatta), “As Quatro Estações” não deixa muito claro a que veio. Parece haver certa incompatibilidade entre melodia e letra; se uma aponta para uma monótona melancolia, a outra pretende se afastar da disforia, assegurando um estado conjuntivo que, a mim pelo menos, não soa nada convincente: “A noite cai, o frio desce / Mas aqui dentro predomina / Esse amor que me aquece / Protege da solidão”. Talvez a chave para compreender a canção esteja na estrofe que antecede o refrão: “Na primavera, calmaria / Tranquilidade, uma quimera / Queria sempre essa alegria / Viver sonhando, quem me dera”. Se a calmaria é uma quimera (e palmas pela preocupação com um léxico mais sofisticado, gerando de quebra uma rima rica), então tínhamos razão em não nos convencermos de que o sujeito não vive euforicamente. Mas faltou algum recurso semiótico que assinalasse, precisamente, um lugar de destaque para essa afirmação que, analisando detidamente, é uma tremenda reviravolta no continuum fórico esboçado desde o início da canção – e, incoerentemente, retomado no refrão.

Mas essas inadequações não parecem soar tão graves na mencionada gravação que me chamou a atenção: o registro do Acústico MTV (2007) da dupla, e que tem a participação de Marcelo Camelo nos vocais e no violão. Como bom fã de Los Hermanos, não resisti à curiosidade e fui escutar o autor de “Anna Júlia” cantar com a dupla infanto-juvenil. Não me arrependi. Isso porque Camelo, que abre a performance sozinho ao violão, operou uma completa rearmonização de “As Quatro Estações”.

Esse recurso tratou de enfraquecer a convicção expressa no nível lírico, agregando uma série de dissonâncias na harmonia da primeira estrofe. O estranhamento causado pelas notas (aparentemente fora de lugar) reforça o cinismo dos versos iniciais, evidenciando que o enunciador está mentindo para si mesmo. É a bola levantada para o corte certeiro na estrofe da “quimera”, quando o sujeito entrega os pontos e se rende à constatação inevitável: “Queria tanto essa alegria”.

Uma pena que, nesse momento, a versão retome o arranjo original, ainda que de forma mais classuda.

De toda forma, pode parecer exagero, mas achei que Camelo fez com Sandy e Junior algo análogo ao que João Gilberto fazia em suas interpretações: a reconstrução da estrutura melódica/harmônica de forma gerar maior compatibilidade entre os materiais dispostos nos níveis semióticos da expressão musical e da expressão lírica. (Para um exemplo desse proceder de João, leia nosso post sobre sua versão de “Sampa”).

E note que não estou sozinho; meio jocosamente, um expectador atento, no YouTube, também pensou no paralelo Camelo-João:

comentario-camelo.jpg

Será que estou exagerando? Ouça e tire suas conclusões: 


Outra versão ao vivo consta em Quatro estações – o show (2000). Apresento mais por obrigação; o arranjo é o mesmo da gravação original: 

E a curiosidade fica por conta da versão lançada como trilha da websére Estações, do coletivo de cinema Buraco Filmes. Agora “As Quatro Estações” ressurge embalada por um modernoso arranjo eletrônico. Acho até melhor que a original. Confira:

2 comentários

  1. A versão eletrônica é a melhor,para o meu gosto.Quanto à Marcelo Camelo e João Gilberto,tudo a ver,ficou parecido mesmo,até porque a escola é a mesma,a voz pequena.

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