221. Os Replicantes: “Astronauta”

Quando ela disse “cai fora”
A lua inteira soube na hora
Eu era só um pobre astronauta
Trabalhando numa armadura de lata
Meu chefe era um robô desalmado
Ele disse aqui na lua isso é bem normal
Mulher é coisa rara, brinquedo mimado
Primeiro bota em órbita e depois trata mal


No programa da TV Cultura apresentado por Gastão Moreira, Musikaos, Os Replicantes fizeram em 2002 uma eletrizante apresentação ao vivo, cantando seu maior hit, o clássico do punk gaúcho “Surfista Calhorda”, ao lado de uma canção mais recente (“Eu Quero É Mucra”, de A volta dos que não foram, álbum de 2001) e uma canção antiga e relativamente obscura, ao menos fora do Rio Grande do Sul: “Astronauta”, do álbum Histórias de sexo & violência (1987).

O cartunista Adão Iturrusgarai, também gaúcho, compunha vários cartuns ali, assistindo à apresentação do então quarteto. Na plateia, ninguém menos que Jorge Mautner assistia ao espetáculo sentado nas cadeiras do Sesc Pompéia. E antes de “Astronauta”, os integrantes da banda – mais precisamente, o icônico vocalista Wander Wildner e o baixista Heron Heinz – traçaram o seguinte diálogo, em referência (e reverência) a Mautner:

– Esta próxima canção é de um tempo muito depois dos maracatus atômicos….

– Ou de um tempo muito antes!

– Ou de um tempo muito antes, exatamente, depende do ponto de vista!

E tocaram uma pesadíssima versão para o som meio new wave, meio punk, que parecia crescer, ao vivo, bem além da conta. E, como bem definiu um atento comentarista do YouTube,

comentario-replicantes

Confesso que fiquei pensando por anos no diálogo entre Wander e Heron. Mero gracejo dirigido ao mestre Mautner? Por outro lado, procurava me atentar para a extrema coerência entre o título do conjunto – inspirado, nunca é demais lembrar, no filme Blade runner, de Ridley Scott – e a temática de ficção científica de “Astronauta”, que narra a desventura lunar de um sujeito que busca suprir sua carência afetiva adquirindo uma esposa-robô.

Mais tarde, me liguei que, à luz do conceito de afrociberdelia, cunhado pela turma do manguebeat – sob a liderança intelectual de Chico Science, Fred 04 e outros – norteando-se musicalmente por figuras como o próprio autor de “Maracatu Atômico”, gravado pela Nação Zumbi justamente no álbum Afrociberdelia (1996), as falas dos Replicantes faziam muito sentido. Com efeito, afrociberdelia é assim definida no livreto do álbum:

AFROCIBERDELIA = (extraído da Enciclopédia Galáctica, volume LXVII, edição do ano de 2102). Afrociberdelia (de África + Cibernética + Psicodelismo) – A arte de cartografar a memória prima genética (o que no século 20 era chamado de inconsciente coletivo) através de estímulos eletroquímicos, automatismos verbais e intensa movimentação corporal ao som de música binária.

Praticada informalmente por tribos de jovens urbanos durante a 2ª metade do século 20, somente a partir do ano de 2030 foi oficialmente aceita como disciplina científica, juntamente com a telepatia, patafísica e a psicanálise.

Para a teoria afrociberdélica, a humanidade é um vírus benigno no software da natureza e pode ser comparada a uma árvore cujas raízes são os códigos do DNA humano (que tiveram origem na África), cujos galhos são as ramificações digitais-informáticas-eletrônicas (Cibernética) e cujos frutos provocam estados alterados de consciência (Psicodelismo).

Eis aí um insuspeito elo entre a música punk oitenista do extremo sul do país e o último grande movimento musical brasileiro, forjado sob o calor dos mangues de Recife.

O Brasil é fascinante!

os-replicantes.jpg
Os Replicantes, com integrantes de todas as suas formações: niilismo punk sci-fi intuindo a vanguarda do manguebeat, ainda nos anos 1980.

A versão original de “Astronauta” tem uma sonoridade (talvez propositadamente) datada. Como disse, ao vivo a canção parece bem mais poderosa.

Assim, vale a pena a escuta do registro de Ao vivo (1995), com Carlos Gerbase nos vocais:

Uma versão bacana – e, na verdade, parecida com o primeiro registro ao vivo – é a de Go ahead (2003), agora com Wander Wildner de volta aos vocais, num registro muito semelhante ao que escutei assistindo ao Musikaos:

Wander deixou novamente a banda e, em carreira solo, gravou “Astronauta” mais recentemente, em Wanclub (2015). A canção ressurge modernizada, envolta numa atmosfera de teclados e efeitos, sem abdicar do peso:

E a curiosidade fica por conta da cover gravada pela banda Viscerália. Os vocais, mirando no canto rouco de Wander Wildner, acabaram acertando mesmo em Lobão! Veja se não estou certo:

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