222. Dulce Quental: “Terra De Gigantes”

Hey, mãe
Eu tenho uma guitarra elétrica
Durante muito tempo, isso foi tudo que eu queria ter
Mas, hey mãe
Alguma coisa ficou pra trás
Antigamente eu sabia exatamente o que fazer


Em 1987, os Engenheiros do Hawaii ainda tentavam assimilar o inesperado sucesso obtido com seu álbum de estreia, Longe demais das capitais (1986). Mas o trio acabara de perder o (excelente) baixista Marcelo Pitz que, segundo consta, não suportara o bullying incansável dos demais integrantes, o guitarrista e vocalista Humberto Gessinger e o baterista Carlos Maltz. A solução foi convidar o guitarrista Augusto Licks para recompor o trio e, de quebra, trazer uma nova sonoridade à banda, com a passagem de Gessinger ao contrabaixo.

Assim surgiu o clássico A revolta dos dândis (1987), álbum que parecia ir na contramão do que os conjuntos contemporâneos faziam, naqueles fins de anos 1980. Se as bandas de São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília rezavam a cartilha do pós-punk/new wave, com ecos do punk e tentativas (geralmente, esquecíveis) de formatar um tecnopop nos moldes do Duran Duran e do Depeche Mode, os Engenheiros olhavam mais atrás: os anos 1960-70.

A canção-título do álbum (dividida em duas partes) era um country acústico, e o álbum ainda trazia referências ao regionalismo gaúcho (“Desde Aquele Dia” e “Guardas Da Fronteira”), um blues modorrento que desaguava numa jam zeppeliana (“Refrão De Bolero”), referências black (“Filmes De Guerra, Canções De Amor” e “Quem Tem Pressa Não Se Interessa”) e ao menos dois sucessos que permaneceriam eternamente no repertório ao vivo da banda, o improvável hit “Infinita Highway” (com sua longa letra sem refrão, e mais de seis minutos de duração) e uma canção de sonoridade delicada, “Terra De Gigantes”.

Reza a lenda que os executivos da gravadora (o selo Plug da RCA/Ariola), ao escutarem essa última canção, teriam sugerido que a banda devesse incluir bateria na faixa – o que faria dela um sucesso imbatível. Zombeteiros que só eles, Gessinger e Maltz atenderam parcialmente ao pedido: inseriram uma virada de bateria ao fim do verso “Tem uns amigos tocando comigo”… e só. A virada desaguava no nada. E a canção prosseguia com seus dedilhados nas guitarras de Humberto e Augusto – que veio a integrar o conjunto já após a produção de uma fita demo, sem ter tempo de participar da composição do álbum, praticamente pronto e arranjado.

Mesmo assim, “Terra De Gigantes” foi trabalhada nas rádios e acabou ganhando um videoclipe, que torna ainda mais explícita a mensagem da banda:

Numa casa cujas paredes são forradas por jornais, ressaltando a intromissão dos valores da indústria da informação – e do entretenimento – na vida social, os integrantes da banda, separados em cômodos claustrofóbicos, assistem a diversas cenas reproduzidas em aparelhos televisores. Essas imagens de TV trazem instantâneos dos próprios Engenheiros tocando, mais diversas situações envolvendo jovens trajando figurinos alusivos à rebeldia adolescente.

A cena-chave acompanha os versos “As revistas, as revoltas, as conquistas da juventude / São heranças, são motivos pras mudanças de atitude / Os discos, as danças, os riscos da juventude / A cara limpa, a roupa suja, esperando que o tempo mude”. Numa escola (cujas paredes e carteiras estão também forradas por jornais), desenrola-se uma aula tradicional, com os estudantes uniformizados assistindo disciplinadamente à preleção da professora. Um jovem, no entanto, se destaca: com braceletes punk, coturnos, jeans surrados, óculos escuros e cabelo arrepiado, parece estar inconformado com sua situação existencial, exalando revolta; pensa estar à margem do sistema, mais desperto que seus colegas. Até perceber que, junto de seus companheiros, não é mais do que o personagem de um vídeo, a que Carlos Maltz assiste com um sorriso cínico.

Essa é a mensagem principal de “Terra De Gigantes” e do álbum como um todo: o punk, como movimento anti-moda, não passa, ele mesmo, de um modismo. Os conjuntos do BRock, ao se espelharem em seus distantes primos ingleses, apenas satisfaziam aos apetites da indústria cultural, sempre atrás do the next big thing. Uma revolta despropositada e artificial (e pense que o punk de Brasília, por exemplo, ganhou vida entre filhos de abastados funcionários públicos, diplomatas, bancários e professores da UnB): uma revolta de dândis.

Daí o tédio associado à melodia de “Terra De Gigantes”. Esqueça-se o punk e demais produtos anti-sistema: eles estão mais comprometidos com o próprio sistema do que seus líderes gostariam de admitir. E esses rebeldes não esboçam sequer um rudimento de consciência de sua condição de meros joguetes das forças que supõem estar combatendo. Ou, como propõe a esperta letra de Gessinger, “Nessa terra de gigantes / Que trocam vidas por diamantes / A juventude é uma banda / Numa propaganda de refrigerantes”.

Que tapa na cara de seus colegas de geração, Engenheiros!

Mas é interessante como, na boca de outros intérpretes, uma canção pode vir a ganhar mais camadas de significados.

Com “Terra De Gigantes”, temos um exemplo claríssimo desse processo, graças à gravação que Dulce Quental propôs para a obra, no álbum Dulce Quental (1988). A cantora, egressa do conjunto Sempre Livre, fez de “Terra De Gigantes” uma verdadeira arena para uma reflexão feminista.

Na versão dos Engenheiros, o ouvinte percebia que a crítica ao sistema (juventude/banda) e o próprio sistema (propaganda/refrigerantes) eram, na verdade, dois lados da mesma moeda (mensagem reforçada em “A Revolta Dos Dândis, II”: “Pensei que houvesse um muro / Entre o lado claro e o lado escuro / Pensei que houvesse diferença / Entre gritos e sussurros / Mas foi um engano, foi tudo em vão / Já não há mais diferença entre a raiva e a razão”).

Já na gravação de Dulce (com bateria e tudo!), são os versos iniciais que chamam a atenção. E observe que o diálogo representado na canção ocorre, aqui, entre duas mulheres: “Hey, mãe / Eu tenho uma guitarra elétrica / Durante muito tempo, isso foi tudo que eu queria ter”. Ora, o Sempre Livre se impunha como uma ousada banda formada apenas por moças, num contexto dominado por figuras masculinas. Nesse sentido, o conjunto era um ato político ambulante e Dulce, empunhando sua guitarra elétrica, aparecia como uma figura ao mesmo tempo exótica e afrontosa.

Mas, seguindo-se à constatação desse “empoderamento”, a voz (feminina) que canta… desencanta(-se): “Mas, hey mãe / Alguma coisa ficou pra trás / Antigamente eu sabia exatamente o que fazer”. Pense no cachorro que, correndo atrás do motociclista, ao alcançá-lo, não sabe como dar um desfecho para a perseguição. Do que adiantou ousar, provocar, insultar (com a mera existência) se, ao fim e ao cabo, nada disso resultou em qualquer transformação nas estruturas? E veja que foi exatamente isso o que aconteceu: o Sempre Livre tocou, gravou e… atravessamos quase um quinto de século para elegermos um presidente machista, misógino e obcecado por tudo o que tenha um falo.

Dulce já expressara esse desengano ali, às vésperas dos anos 1990. E me arrisco a interpretar que, na gravação de “Terra De Gigantes”, o próprio antídoto para o niilismo, se não era explicitamente receitado, era ao menos sugerido: “Hey, mãe / Tem uns amigos tocando comigo / Eles são legais, além do mais, / Não querem nem saber / Mas agora, lá fora / Todo mundo é uma ilha / Há milhas, e milhas, e milhas de qualquer lugar”.

Se todo mundo é uma ilha, se as lutas que representam pautas específicas (das mulheres, dos negros, do público LGBT, dos indígenas, dos imigrantes, etc.) não têm surtido efeitos perenes e definitivos, a solução talvez atravesse o reconhecimento das demandas comuns a todos que estão marginalizados, de forma a se organizar uma ação coletiva massiva e direcionada, inteligentemente, à causa última de todas as opressões.

É lógico que posso ser acusado de realizar uma leitura ideologizada (como se fosse possível existir textos desideologizados!) e que, afinal, explicita a tentativa de um homem em propor uma interpretação definitiva para uma fala (ou performance) feminina. Ora, se isso acontecer, teremos que reconhecer que a mensagem de Gessinger/Dulce permanece mais necessária do que nunca, pois nos enredamos novamente num infértil debate pós-moderno sobre identidade, subjetividade, representatividade, lugar de fala, etc. – e não avançamos um milímetro na luta pela eliminação das opressões e da desigualdade.

dulce-quental.jpg
Dulce Quental: se apropriando de “Terra De Gigantes” numa perspectiva feminista e (auto)crítica.

Há muitas versões de “Terra De Gigantes” na discografia de Humberto Gessinger, com os Engenheiros ou não. Em geral, as regravações trazem uma releitura da faixa de A revolta dos dândis entremeada a alguma outra canção do repertório da banda gaúcha (“Quanto Vale A Vida”, “Números”, “Vozes”), o que acrescenta ainda outras camadas de significados. Melhor deixarmos aqui, apenas, “Terra De Gigantes” ela mesma, sozinha, no registro de Alívio imediato (1989), eletrizante álbum dos Engenheiros gravado ao vivo no Canecão:

Gessinger participa também da releitura da banda Cidadão Quem (que já foi trazida ao blog com a linda canção “Girassóis”), no DVD Cidadão Quem no Theatro São Pedro (2005). Nessa bela versão acústica de “Terra De Gigantes”, o Alemão divide os vocais com Duca Leindecker, antevindo uma parceria duradoura, que desaguou no power duo Pouca Vogal (a ser pautado no blog em breve). Ouça:

3 comentários

  1. Muito boa a análise,eu sou meio devagar pra entender letra de música,deve ser problema de déficit de atenção.

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