224. Noel Rosa: “Conversa De Botequim”

Seu garçom, faça o favor de me trazer depressa
Uma boa média que não seja requentada
Um pão bem quente com manteiga à beça
Um guardanapo e um copo d’água bem gelada
Feche a porta da direita com muito cuidado
Que não estou disposto a ficar exposto ao sol
Vá perguntar ao seu freguês do lado
Qual foi o resultado do futebol


Nos últimos meses, os jornais trouxeram, por dias seguidos, notícias sobre as depredações de um monumento à canção popular brasileira: a escultura de Joás Pereira Passos, na Avenida 28 de Setembro de Vila Isabel, que eterniza a cena retratada em “Conversa De Botequim”, uma das principais obras de Noel Rosa (composta em parceria com Vadico).

estc3a1tua_noel_rosa

O trabalho dos restauradores lembrava o mito de Sísifo: recomposta uma peça, dias depois outro elemento da obra era dilapidado, e assim ad infinitum.

Não posso culpar os autores dos sucessivos furtos. Se o fizeram, foi porque nossa civilização brasileira está falhando vergonhosamente em todos as práticas sociais imagináveis: na economia, no respeito ao patrimônio e à memória, na educação e, especificamente, na educação musical – vide a quantidade de lixo que emana dos auto-falantes que vira-e-mexe perturbam nosso sossego.

Esse é meu lado racional falando. Poupo os leitores de conhecerem os absurdos de minha irracionalidade.


E, afinal, o tal furto das peças da escultura não deveria nos chocar: ele está anunciado na própria peça retratada.

Com efeito, “Conversa De Botequim” é um título irônico para uma das canções mais famosas de Noel, afinal, ali não há conversa alguma. A obra já foi extensamente analisada e não preciso dizer muito sobre ela, apenas a resumo para os (hereges – olha meu lado irracional aparecendo… ou seria o racional mesmo?) que não a conhecem: a canção traz um sujeito enunciador dirigindo ordem atrás de ordem a um solícito garçom, enquanto desfruta de um momento de descanso e ócio num botequim. O servente simplesmente nada enuncia, presumindo-se que acata os pedidos silenciosamente, com algum gesto mudo que indique “Sim, senhor”. E “esse tremendo folgado”, como certa vez minha mãe tachou o personagem enquanto escutávamos “Conversa De Botequim” juntos, ainda sai sem pagar, recorrendo ao pobre garçom para ajudá-lo: “Seu garçom, me empresta algum dinheiro / Que eu deixei o meu com o bicheiro / Vá dizer ao seu gerente / Que pendure esta despesa / No cabide ali em frente”. É o cúmulo!

Marcelo Braz, num dos capítulo da antologia Samba, cultura e sociedade (por ele organizada, e publicada pela Expressão Popular em 2013), assim se pronuncia sobre o caráter das canções de Noel:

Nas composições de Noel, vemos o Brasil real dos trabalhadores que vivem as agruras da vida através do desemprego, dos diversos tipos de subemprego, dos ganhos que mal conseguem alimentar o próprio assalariado, da falta de moradia. É possível identificar esses temas em algumas de suas composições, nas quais se expressa uma realidade econômica contraditória que articula elementos da atrasada economia agromercantil com traços do processo de modernização conservadora capitalista emergente (p. 190).

Em “Conversa De Botequim”, tais elementos podem ser percebidos tanto no plano das relações concretas estabelecidas entre os sujeitos que participam do “diálogo” – em que um manda e outro obedece – quanto no plano das ideias – em que um pensa que deve mandar, e outro pensa que deve obedecer. Assim, a canção se instala numa paisagem urbana do início do século XX, com a modernização dos meios de produção numa tentativa ainda incipiente de industrialização. No entanto, na esfera ideológica, permanece a antiga mentalidade escravocrata que não enxerga no subalterno um ser humano, apenas um instrumento para a satisfação dos caprichos do “sinhô”.

E sabemos que, passados cem anos desde então, não avançamos o suficiente. Nossa classe média ainda é o veículo para essa ideologia desumanizante e, na sociedade política, continuamos elegendo representantes que não moverão uma única palha em prol da diminuição das desigualdades. A educação pública definha, a cultura de massa se reduz a uma programação imbecilizante nos meios de comunicação e a pauperização cresce aceleradamente. Não surpreende que, num tal cenário de barbárie, um monumento à cultura, como a escultura em homenagem a “Conversa De Botequim”, seja atacado de forma bárbara. E pense comigo: se o poder público enxergasse na obra algo além de um objeto inanimado, disporia alguns guardas em vigília permanente ao seu redor (não é isso o que faz a Inglaterra em seu Palácio de Buckingham?).

Enfim. Na página anterior à citada acima, Braz sintetiza um entendimento sobre a importância da obra de Noel, à luz de suas qualidades artísticas intrínsecas. Fecho o post com esse preciso e necessário comentário:

A riqueza das melodias que criou em suas canções é a mesma que originou letras que representam a percepção – assutadoramentr aguçada, incomum para um jovem de classe média baixa que viveu apenas 26 anos, entre 1910 e 1937 – das profundas transformações da vida social brasileira no período. Em suas composições, muitas delas verdadeiras crônicas do cotidiano que sintetizavam as contradições sociais da época – o caráter catártico de sua criação artística apresenta-se numa articulação surpreendentemente espontânea entre o universal e o singular, através de uma reprodução da realidade que, ao suspender o cotidiano, a refigura esteticamente, resultando e algumas criações que sulantam o meramente agradável. Em Noel Rosa comparece não apenas uma forma de suspensão do cotidiano por meio da práxis cultural, como também alguns momentos nos quais suas criações podem sugerir particulares formas de desenvolvimento, como arte, de uma autêntica autoconsciência da humanidade (p. 189).

Em outras palavras, Noel precisa ser lembrado para além das esculturas – por si só, um louvável ato contra a desmaterialização de sua obra, mas ainda pouco diante da hercúlea tarefa que se nos impõe: a recomposição da combalida cultura brasileira.

noel-rosa.jpg
Noel Rosa: um arguto cronista e observador das contradições de uma jovem república.

Já ouvi Noel Rosa nas vozes de muita gente: Aracy de Almeida, Elizeth Cardoso, Maria Bethânia, Rumo, Teresa Cristina. “Conversa De Botequim” foi também muito regravada, e fica difícil escolher alguma versão para além da que deixei no início do post – extraída da antologia Noel pela primeira vez (2000), que reúne cerca de 200 fonogramas do compositor.

Para não ser injusto com nenhum intérprete da canção, deixarei aqui apenas uma versão instrumental, que escutei muito graças ao álbum The Caju collection (1993), coletânea da gravadora Caju Music. Trata-se da gravação que reúne dois mestres, os saudosos Raphael Rabello e Dino 7 Cordas. Que dupla! Ouça:

2 comentários

  1. E poderíamos dizer que ele também foi um ”cantor-moderno”,sem os cacoetes da velha-guarda.Nada contra os vozeirões empostados.
    Parece que na época havia uma distinção bem grande entre o compositor (que não cantava) e o cantor (que não compunha),a figura do cantautor surgiu bem depois.

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s