226. Sepultura: “Ratamahatta”

Biboca
Garagem
Favela
Fubanga
Maloca
Bocada
Maloca
Bocada
Fubanga
Favela
Garagem
Biboca, porra!


Meu disco favorito do Sepultura é Arise, de 1991 – ano, aliás, em que foram lançados muitos dos meus álbuns prediletos do rock nacional. Ouvi pra caramba na época do início da graduação, quando ainda tinha o costume de alugar CDs (coisa possível em algumas lojas de São Carlos, naquele início de milênio). No caso, esse disco da banda mineira foi locado de uma biblioteca… você acredita?

Mas reconheço: não é uma obra tão coesa e importante quanto Roots (1996), álbum histórico do metal nacional. Como o título e a própria capa denunciam, trata-se de um imersão – tão profunda quanto possível a uma banda metaleira com projeção mundial – nas sonoridades típicas do Brasil profundo: era o Sepultura desvendando nossas raízes em ritmos, instrumentos e cantos.

Os ares thrash de Arise apareciam diluídos num estilo mais identificado com o nascente nu metal, com Max Cavalera apostando em vocais mais ritmados, somados a riffs repetitivos e hipnóticos nas guitarras de Andreas Kisser (testando afinações graves para os bordões), muito groove no baixo de Paulo Jr. e batidas tribais e percussivas nas sempre competentes baquetas de Igor Cavalera.

Adornando o álbum, tambores, berimbaus e cânticos indígenas, entre uma microfonia aqui e uma distorção ali. Um encontro entre o metal e a world music, se assim podemos definir.

A canção de hoje, “Ratamahatta”, é justamente uma das mais brasileiras do Sepultura, sendo bastante representativa do conteúdo de Roots. Inclusive, é uma das poucas com versos em português, dentre todas as composições gravadas pelo conjunto.

Em Relentless: 30 anos de Sepultura (São Paulo: Benvirá, 2017), Jason Korolenko traz uma sucinta descrição sobre a faixa, composta pelos integrantes do Sepultura junto com ninguém menos que Carlinhos Brown (que participa cantando):

“Ratamahatta” […] representa a primeira de algumas surpresas em Roots. A faixa inovadora – com percussão adicional de Ross Robinson e do baterista do Korn, David Silveria – é centrada nos ritmos de maracatu de Carlinhos Brown e nos versos em português com chamada e resposta trocados por Brown e Max. Essa “poesia suja” é familiar para os jovens do Brasil, a natureza abstrata dos versos que muitas vezes são escolhidos menos por seu significado e mais por suas qualidades rítmicas e musicais. Palavras amarradas para formular mais um conceito do que uma ideia concreta.

A primeira parte parece falar da luta da juventude brasileira durante uma época de grande opressão e dificuldades econômicas. A segunda, com sua menção a heróis do povo como Zé do Caixão, Zumbi e Lampião, parece representar a liberdade, uma ruptura com a norma ou o típico. O próprio título funciona como um instrumento de percussão nas apresentações de Brown, a palavra criada a partir da ideia de muitos ratos em Manhattan, unindo os Estados Unidos e o Brasil.

“Ratamahatta” como um todo representa uma quebra de paradigma, um afastamento em relação a arquétipos, para bandas de metal daqueles dias ou de qualquer dia.

Mais preciso, impossível.

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O Sepultura com a formação clássica que gravou Roots: sem medo de investir na brasilidade e nos mistérios sonoros de nossa terra.

“Ratamahatta” foi relida ao vivo em Under a pale grey sky (2002), já com Derrick Green nos vocais. Prefiro a original, mas não deixa de transmitir uma vibração mais forte… confira:

A curiosidade fica por conta do encontro do Sepultura com Zé Ramalho, na edição do Rock In Rio de 2013. A jam “Zépultura” resultou na releitura de diversas canções, quase todas do cantor paraibano. No entanto, lá estava “Ratamahatta”, sendo cantada a plenos pulmões pelo autor de “Avohai”. Acesse o instante 50’30”:


E não deixe de conferir o elaboradíssimo videoclipe de “Ratamahatta”, que só não incluí no início do post por preferir compartilhar a versão remasterizada da canção. Assista a ele aqui:

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