227. Gal e Caetano Velloso: “Um Dia”

Como um dia numa festa
Realçavas a manhã
Luz de sol, janela aberta
Festa e verde o teu olhar
Pé de avenca na janela
Brisa verde, verdejar
Vê se alegra tudo agora
Vê se para de chorar


O primeiro álbum de Caetano Veloso não era apenas dele: era dividido com outra moça da Bahia, com o sonoro nome Maria da Graça Costa Penna Burgos, chamada por todos como Gau. Mais tarde, Gal… Costa – tornando-a quase um homônimo do presidente General (Gal.) Costa e Silva.

Domingo (1967), assim, trazia na capa os nomes de Gal e de Caê, então, Velloso, com dois l’s. O disco – produzido por uma trinca de feras, Dori Caymmi, Francis Hime e Roberto Menescal – traz clássicos como a faixa de abertura, “Coração Vagabundo”, e pode ser enquadrado no gênero da bossa-nova. Quem conhece a vida e a obra de Caetano, sabe: não seria exagero dizer que tudo, absolutamente tudo o que o rapaz de Santo Amaro da Purificação realizou, foi feito em tributo a João Gilberto.

Minha favorita de Domingo, desde sempre, foi “Um Dia”, cantada apenas por Caetano, e por ele composta. A canção ganhou algum reconhecimento por ter recebido o prêmio de melhor letra no II Festival de Música Popular Brasileira, aquele mesmo que foi vencido pela magnífica “Disparada” (de Geraldo Vandré, na interpretação inigualável de Jair Rodrigues) e pela boa “A Banda” (de Chico Buarque) – cá entre nós, o empate mais injusto da história da humanidade!

Quanto a “Um Dia”, de fato a letra traz achados poéticos de imensa beleza. Em geral, Caetano recorre às redondilhas maiores, exceto nos versos que tratam do principal objeto da canção, a volta – “De voltar…”, canta o compositor repetidas vezes.

Mas o retorno é o valor que apenas em última instância dirige o percurso fórico da obra. Na verdade, o /querer/ do sujeito se dirige a outro sujeito, aquele que se entristece com a partida. A propósito, a modalização pelo /querer/ é tão explícita que o verbo é enunciado em três formas aproximadamente sinonímicas: “Quero, careço, preciso”. Nesse sentido, a partida parece ser menos dolorosa que a percepção de que a viagem deixará alguém só. A ida, por si só, não chega a se impor como fonte da disforia, tanto que é abreviada, de forma genial: “Eu não estou indo-me embora / Tô só preparando a hora / De voltar”.

Os elementos dispostos no parágrafo anterior foram aqueles que mais imediatamente despertaram meu olhar (ou melhor, minha escuta) para “Um Dia”. Além deles, teve a enorme coincidência relacionada à seguinte passagem marcada por assonãncias: “No Raso da Catarina / Nas águas de Amaralina / Na calma da calmaria / Longe do mar da Bahia / Limite da minha vida / Vou voltando pra você”. Ora, em minha primeira vez na Bahia, fiquei alojado justamente na praia de Amaralina, sendo atendido, na recepção do hotel, por uma moça de nome Catarina.

caetano-veloso.jpg
Caetano Veloso: o jovem compositor de Domingo que, junto com Gal, ganharia o Brasil e o mundo anos mais tarde.

Que eu saiba, Caetano nunca releu oficialmente “Um Dia”, mas a canção pode ser encontrada na discografia de outras cancionistas.

A versão original, lançada em 1966, consta na registro fonográfico referente ao II Festival, Viva o Festival da Música Popular Brasileira. Ali, a obra foi defendida pela cantora Maria Odette, num arranjo quase barroco, marcado por mudanças no andamento que refletem os estados de ânimo do sujeito enunciador. Grande versão:

Mais de 30 anos mais tarde, a cantora paulista regravaria “Um Dia”, em dueto com o próprio Caetano, no álbum Maria Odette (1997):

Outra paulista que gravou a canção foi a cantora Vânia Bastos, no disco-tributo Cantando Caetano (1992). O álbum é todo bom desde a capa, e a versão de Vânia está mais para o minimalismo de Domingo do que para os registros grandiloquentes de Maria Odette, embora se permita algumas ousadias no arranjo:

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