228. Odair José: “Uma Lágrima”

Uma lágrima
Eu deveria ser
Somente pra dizer
Nasci de um amor que em mim nasceu
Uma lágrima
Caída pelo rosto
Sentida de bom gosto
E beijar quem a mim a vida deu


Lembro de ter visto na televisão, quando tinha 10 ou 11 anos, a propaganda de uma coletânea de Odair José. Primeiro, pensei que as canções (das quais o reclame apresentava amostras de dois segundos!) eram “coisa de velho” e, sobretudo, breguíssimas, cafonérrimas. Depois, achei que estava diante apenas de uma versão menos afortunada de Roberto Carlos. E esqueci Odair temporariamente.

Anos mais tarde, mais precisamente em 2006, acompanhei o lançamento do tributo Vou tirar você desse lugar, que tratava de resgatar as canções do cantor nascido em Morrinhos, no estado de Goiás. Gostei muito do disco e passei a perseguir Odair em qualquer aparição sua na mídia. Ao conhecê-las, confirmei a impressão de que as canções eram de fato uma coisa meio jeca mas… e daí? Algo como “Que Saudade De Você”, cujo título já entrega o tom kitsch do conteúdo, tocava fundo na alma, e era isso o que importava, para mim. Aliás, ainda importa.

Hoje, Odair José é um artista reinventado. Da Jovem Guarda, herdou apenas a energia rock, investindo em timbres sujos e andamentos mais acelerados, e surpreendendo a todos com canções como “Dia 16”, que batiza o pesado álbum que lançou em 2015. Não me lembro de ter ouvido nada tão parecido com AC/DC nos últimos tempos!

Mas as canções antigas permanecem clássicos insubstituíveis. E é nessa categoria que situo “Uma Lágrima”, composição de Odair com Francisco Lara, lançada no álbum Meu grande amor (1971). Na verdade, a obra deveria compor a ópera-rock – primeira do Brasil, pelo que consta – que seria parcialmente editada, mais tarde, como o controvertido álbum O filho de José e Maria (1977).

Portanto, “Uma Lágrima” é uma espécie de tijolo de uma construção mais ampla, na qual explicita outros sentidos. Não importa: sozinha, a canção já funciona maravilhosamente bem. Em sua concisão (dura pouco mais de dois minutos), Odair destila o sentimento sublime de desejar, apenas, ser uma lágrima da pessoa amada: eis o amor literalmente visceral, que brota de dentro, embora tragicamente esteja fadado ao fim, pois toda lágrima escorre e se perde do olho que a produziu. Mas o cantor vai além, se dispondo a sabotar as leis da fisiologia e da física: “Se eu fosse uma lágrima, eu não lhe deixaria / Ficaria em seus olhos, como poesia / E todo amor do mundo seria pra nós dois / Palavras de carinho pra depois”.

Lindo!

Destaque para o arranjo, bastante típico da sonoridade jovem-guardista, com órgãos à Lafayette. Aliás, tenho minhas dúvidas se não é o próprio quem toca na versão de Meu grande amor… Mas, ao que parece, à época Odair tocava com o conjunto The Fevers, então é possível que o instrumento esteja sendo pilotado, na verdade, pela tecladista Cleudir.

odair-jose.jpg
Odair José: mais que o “terror das empregadas domésticas”, um pioneiro e veterano do rock nacional.

Na verdade, “Uma Lágrima” é muito mais importante do que dei a entender nas considerações acima. Trata-se, em verdade, da primeira canção registrada por Odair José, gravada num compacto de 1969. O single não chegou a ser comercializado, pois as duas centenas de cópias prensadas ficaram sob a guarda do cantor, que saiu distribuindo exemplares pelas rádios do Rio de Janeiro. Quanto ao arranjo, é praticamente idêntico àquele que seria registrado em 1971, mas vale como raridade:

Quanto ao tributo Vou tirar você desse lugar, coube ao Pato Fu defender, ali, “Uma Lágrima”. A versão tem duração maior, pois abre espaço para um – mui patofuístico – solo de guitarra de Joh Ulhoa, o par ideal para o canto delicado e a voz pequena de Fernanda Takai. Adoro essa versão, que me traz boas lembranças daquele 2006. Ouça:

2 comentários

  1. Odair José foi meu primeiro ídolo (ao lado de Diana),adorava e sigo gostando,os artistas da chamada MPB eu só conheci na década de oitenta,e mesmo assim com muito esforço.
    Já ouvi muita gente dizer que as rádios antigamente eram democráticas,ao menos na minha cidade os aparelhos só tocavam artistas de corte bem popular.

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    1. Eu tinha certeza que você era fã de Odair. Apesar da alta intelectualidade o considerar um cantor “popular demais”, a verdade é que o homem segue na ativa com um séquito considerável de fiéis, e não pode ser acusado de ter estacionado no tempo, nem de nunca ter ousado em sua já longa carreira.

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