229. Ney Matogrosso, Pedro Luís e A Parede: “Jesus”

Salve, salve, simpatia!
Dizem que Jesus morreu na cruz
Mas eu tive com ele na Dutra, em Queluz
Levava na cabeça um tabuleiro de cuscuz
Cocada de céu, cocada de luz


Ouvi falar de Pedro Luís e A Parede, pela primeira vez, na exibição do Acústico MTV dos Paralamas do Sucesso, em 1999. A certa altura do show, Herbert Vianna disse que apresentaria uma canção composta com “os quatro sujeitos da Parede – Pedro Luís e A Parede”. A canção, “Sincero Breu”, única inédita do show, mesclava latinidade, surrealismo e citações instrumentais a “Palco”, de Gilberto Gil.

Alguns anos depois, vim a conhecer o registro de “Assim Assado”, clássico dos Secos e Molhados, que Ney Matogrosso gravara com os tais “sujeitos da Parede”. Adorei a versão que, para mim, se tornou a gravação definitiva daquela cifrada narrativa sobre a morte de um “velho”, vestindo uma “cor assim”, pelo “Guarda Belo” – que “não acredita na cor assim”.

Mas confesso que não me deixei encantar pelo álbum, Vagabundo (2004). Só mais recentemente pensei em escutá-lo… e foi paixão à primeira audição.

O disco transita entre diversos gêneros, com destaque para os embalos sambistas, como na abertura “A Ordem É Samba” e a releitura da ótima “Disritmia”, de Martinho da Vila.

Logo de cara, adorei “Interesse”, com seu grito de independência e seu tom imperativo nos versos “Me solta, me deixa, me larga, / Tenho mais o que fazer/ Não posso ficar nessa de esperar, / Nem posso ficar nessa de querer / O gato acha o rato muito interessante / A cobra acha o sapo muito interessante / Agradeço, você não se interessa mais por mim”.

No entanto, a faixa que mais chamou minha atenção tinha um título, a princípio, desinteressante: o que fazia, em Vagabundo, uma canção chamada “Jesus”? Ney Matogrosso, Pedro Luís e A Parede teriam sido seduzidos pelo gospel?

Nada disso. Embora o herói da obra – composta por Pedro Luís, Gustavo Valente, Lucas de Oliveira, Dado, André Pessoa, Rodrigo Cabelo e Beto Valente – seja Jesus Cristo, trata-se de um verdadeiro tributo à figura de Jorge Ben. Os dois personagens comparecem à canção enquanto polos contrários: problema-solução.

Não que Cristo seja exatamente problemático, em si mesmo; mas o narrador estranha que a iconografia da Igreja Católica insista em difundir justamente uma imagem mortificada do Cordeiro de Deus – daí a insistência no apelo “Jesus, Jesus / Vamos tirar Jesus da cruz”.

De fato, em comparação com outras doutrinas, chama a atenção a forma como o catolicismo insiste numa imagem abatida e sacrificada daquele que fundou a religião. Repare que no budismo, por exemplo, as imagens trazem diversas representações do Senhor Buda na situação de deleite meditativo: com um sorriso discreto nos lábios, postura ereta, e nenhuma ação. Em outros sistemas religiosos, as imagens dos deuses os colocam em movimento, afirmando sua relação com a vida: pense em Ogum portando sua espada ou Zeus prestes a lançar um raio dos céus. Em síntese, se tais sistemas afirmam o polo positivo do agir (+), o catolicismo afirma o contrário, polo negativo (-) – e o budismo, simplesmente, não afirma nem nega, em sua apologia da não-ação (0).

Jorge Ben aparece como o antídoto. Sua figura, em si mesma, representa uma síntese (e não apenas uma síncrese) entre o culto a Ogum e São Jorge (oriundos, assim, de sistemas com orientações axiológicas opostas, no que tange ao valor extenso “vida”) e outras filosofias do Oriente e do Ocidente, em especial, o hermetismo de sua Tábua de esmeralda (1974). E veja o objeto de apreço do cancionista, ali em “Eu Vou Torcer”: “Eu vou torcer pela paz / Pela alegria, pelo amor / Pelas moças bonitas / Eu vou torcer, eu vou / Pelas coisas úteis que se pode comprar / Com dez cruzeiros / Pelo bem estar, pela compreensão / Pela agricultura celeste, pelo coração / Pelo jardim da cidade, pela sugestão / Pelo Santo Tomás de Aquino / Pelo meu irmão”.

Em “Jesus”, Ney, Pedro e A Parede inundam a castigada placidez de Jesus crucificado com uma torrente de imagens tipicamente benjorianas, numa sucessão ininterrupta de sugestões, com um objetivo claríssimo: “Nós vamos tirar Jesus da cruz / Porque o rapaz está pregado / Naqueles pedaços de pau / Há mais de dois mil anos / Vamos deixar ele com os pés / E as mãos livres / Que ele vai pular, dançar / Virar cambalhota / E fazer muito melhor / Mas é muito melhor!”.

E a agricultura celeste, mencionada em “Eu Vou Torcer” – percorrendo todo A tábua de esmeralda, cuja tema é a alquimia, que se baseia na doutrina de que os minérios florescem no seio da terra conforme a ação simpática das forças da terra e do céu, considerando as homologias entre os sete metais e os sete astros conhecidos na Antiguidade (ouro-Sol, prata-Lua, chumbo-Saturno, ferro-Marte, mercúrio-Mercúrio, estanho-Júpiter e cobre-Vênus) – é engajada também como um antídoto às negatividades, junto de uma multidão de figuras pop: “Salve a agricultura celeste / (Salve a agricultura celeste) / Salve Jorge, salve simpatia! / (Salve a agricultura celeste) / Salve Mané Garrincha e Clementina de Jesus / (Salve a agricultura celeste) / Salve Chico Science e Chico Xavier / (Salve a agricultura celeste) / Salve Raul Seixas e Chacrinha, o Velho Guerreiro / (Salve a agricultura celeste) / E paz na Terra / A todos os seres”.

Amém!

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Ney Matogrosso, Pedro Luís e A Parede: alquimia de sambas, guitarras, batuques, bem ao feitio da filosofia benjoriana.

Ouça – e assista a – também a versão de Vagabundo ao vivo (2006):

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