230. Rael: “Envolvidão”

Ela tem cores, curvas, sabores, coisas que seduz e
Eu levo flores, som de cantores e ela ama ouvir
Se der minha hora, preciso embora, mas ela me impede
De um jeito louco, fica um pouco, sou incapaz de ir
Não vou mentir, fiquei envolvidão


Conheci Rael em 2013, quando a CBN organizou uma homenagem a Os afro-sambas de Vinícius e Baden Powell. Naquele especial, o tal Rael Lima aparecia num dueto com a cantora Graça Braga, justamente na faixa de abertura do clássico álbum de 1966, “Canto De Ossanha”. A certa altura do número, o artista arriscava um rap bem no meio da canção; torci o nariz de início, mas depois achei interessante – e pertinente – a intervenção:

(As demais faixas do especial da CBN ficaram dispersas pelo YouTube. Num dia de folga, resolvi organizá-las na playlist disposta acima, respeitando a ordem em que aparecem em Os afro-sambas. Você pode acessá-la aqui).

Alguns anos depois, passei a frequentar um espaço em que uma roda de samba se apresentava todos os fins-de-semana. Nos intervalos, um DJ tratava de manter os presentes animados e dançantes. Recorrentemente, um rap com aura pop, embalado por dois acordes de violão, garantia que isso acontecesse, a despeito de seu andamento lento. Era “Envolvidão”, do mesmo Rael, composta em parceria com o produtor Nave.

Achei a canção simpática, pela forma como exaltava a figura da mulher negra que “tem cores, curvas, sabores, coisas que seduz”. Além disso, o sujeito enunciador parecia valorizar também o conteúdo intelectual da garota admirada: “E curtia Nutella, revista, novela, sambista, Portela / A pista, a favela, mó sinistra ela, frasista e bela / Lia Sergio Vaz, era fã de Mandela / E vai pensando que ela é fácil, rapaz / Ela não é daquelas minas tanto fez, tanto faz”.

Parece pouco, mas achei isso muito significativo, dando mostra de que Rael possui, além de bom gosto, uma elogiável preocupação com o baixíssimo nível cultural da população brasileira em geral. Aliás, até onde sei, o problema não é apenas brasileiro: o mundo tem passado por um assustador processo de emburrecimento, vide a facilidade com que contingentes cada vez maiores da população vêm se rendendo ao obscurantismo e ao anti-intelectualismo.

Num país em que o governante máximo declarou guerra a professores e cientistas, valorizar a cultura – em forma e conteúdo, como o faz Rael, o que pude atestar ao vê-lo ao vivo em 2018 – é um ato de resistência dos mais necessários.

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Rael: o rap tem cor e conteúdo, nunca é demais lembrar.

No mesmo EP que lançou “Envolvidão”, Diversoficando (2014), Rael divulgou uma versão acústica para a canção:

Por outro lado, no show Coisas do meu imaginário (2017), Rael apresenta uma releitura bastante elétrica:

“Envolvidão” é uma obra explicitamente pop. Não que isso seja pecado, mas a canção se viu reduzida a isso quando cantada por outras vozes. E, sim, muitos se arriscaram a fazê-lo, nos apenas cinco anos que se passaram desde a edição de Diversoficando. Alguns desses casos parecem ter sido avalizados pelo próprio rapper paulista – vide o dueto que gravou com Thiaguinho, após este ter registrado “Envolvidão” num pretensioso AcúsTHico (2018). No mais, são releituras que nada acrescentam à faixa.

Abro uma louvável exceção para o sempre certeiro Zeca Baleiro, cujas interpretações se equilibram sempre perfeitamente entre a reverência ao original e o emprego inteligente dos recursos próprios da dicção do artista maranhense. Sua excelente versão para “Envolvidão” foi divulgada como single em 2018:

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