231. João Pinheiro: “Corrente”

Eu hoje fiz um samba bem pra frente
Dizendo realmente o que é que eu acho
Eu acho que o meu samba é uma corrente
E coerentemente assino embaixo
Hoje é preciso refletir um pouco
E ver que o samba está tomando jeito
Só mesmo embriagado ou muito louco
Pra contestar e pra botar defeito


Meu final de 2017 foi muito bom. Estava já adaptado à nova cidade, onde vivia desde fins de 2015, o trabalho na universidade engrenava e parecia frutificar, a vida pessoal ia bem, a saúde idem. Lecionava apenas à tarde e aproveitava as noites para escutar discos e mais discos, com meus pequenos (e falecidos) fones de ouvido, até a hora do sono.

Nessa época, um álbum em altíssima rotação era Meus caros amigos (1976) de Chico. Por alguma razão, conhecia praticamente todas as canções do LP, mas jamais havia escutado o disco enquanto obra completa. Não chega a ser uma produção conceitual, mas parecia haver uma insuspeita coesão entre as faixas.

Boa parte delas, aliás, compartilhava daquilo que Chico sabia fazer com maestria: a transmissão de mensagens, se não cifradas, ao menos não tão explícitas ou captáveis numa audição superficial. O insondável atingia o paroxismo em “O Que Será (À Flor Da Terra)” – e acesse nossa abordagem de “O Que Será (Abertura)”, canção irmã –, mas se fazia representar em formas mais decodificáveis na ironia de “Mulheres De Atenas” e nos codinomes de “Passaredo” (que também já foi abordada no blog, ainda que en passant, aqui).

No meio termo entre a forma máxima de esconder o discurso, e o mínimo de energia dispensada na tarefa, estava “Corrente”, faixa que sempre me deixou vidrado. Isso porque, a letra, lida enquanto poema, comunica apenas uma mensagem banal e ufanista, quase como um mea culpa de Chico, dando o braço a torcer de que vinha militando no “lado errado”: “Hoje é preciso refletir um pouco / E ver que o samba está tomando jeito”.

Agrupando-se conjuntos de dois versos desde o primeiro deles, realmente a letra transmite essa mensagem. Mas eis que Chico aparece com a sacada máxima: reagrupar os versos, não mais como 1-2, 3-4, 5-6…, mas como 2-3, 4-5, 6-7… e uma nova leitura emerge.

Representei esses pequenos deslocamentos numa figura que discrimina os versos com diferentes cores. Observe (clicando na imagem) os diferentes significados que emergem nas combinações 1-2, 3-4, 5-6, etc. (na coluna da esquerda) e 2-3, 4-5, 6-7, etc. (na coluna do meio):

Corrente

Exemplificando, o que era “Hoje é preciso refletir um pouco / E ver que o samba está tomando jeito” na primeira vez em que a melodia é entoada, na segunda se torna “E ver que o samba está tomando jeito / Só mesmo embriagado ou muito louco”. Gênio.

Já a terceira coluna, à direita, mostra a forma como a gravação de 1976 embaralha os versos todos da canção, unindo sempre duas vozes simultâneas. Observe que, nas três colunas, a canção inicia e termina com os mesmos versos: “Eu hoje fiz [por isso eu fiz] um samba bem pra frente”, “Dizendo realmente o que é que eu acho” e “Isso me deixa triste e cabisbaixo”. Uma corrente, de fato. E note que as estrofes dos versos embaralhados, na terceira coluna, aparecem numa sequência espelhada, que ressalta seu caráter cíclico: I-II-III-IV-IV-III-II-I.

Sim, Chico Buarque não é apenas um poeta/cancionista à moda antiga: em pleno 1976, cutucando a onça com vara curta (“Pra confessar que andei sambando errado / Talvez precise até tomar na cara”, lembra-nos o cancionista, alertando-nos sobre o perigo dos porões da ditadura), o compositor ainda ousava incorporar elementos do concretismo à sua produção artística – movimento poético mais associado ao tropicalismo, é sempre bom dizer, e não às obras “datadas” de Chico (e datadas apenas para os ouvidos displicentes).

Enfim, embasbacado que fiquei com “Corrente”, não demorei a escutar a versão gravada pelo carioca João Pinheiro. Acompanhado da cantora e compositora Suely Mesquita, João apresenta uma releitura arrojada, sem desvirtuar o arranjo original.

Infelizmente não aparece, em sua versão – lançada como single digital em 2011 – o conjunto de versos embaralhados. Em compensação, há charme de sobra no dueto entre as vozes masculina e feminina, e a direção de arte do videoclipe é primorosa. O vídeo, a propósito, foi gravado no colorido bairro carioca de Santa Teresa – um dia ainda piso lá! – e os cantores/atores interpretam a canção dentro de um invocadíssimo Fusca 66.

Enfim, adorei a versão e a ousadia de João e Suely, por resgatarem uma canção que jazia esquecida no repertório buarquiano.

E nesses tempos de intolerância, os cantores soam ainda mais ousados só por registrarem uma obra de Chico – que, ao ostentar um dos intelectos mais privilegiados da história da cultura brasileira, acabou se tornando uma espécie de pária da sociedade, para todos os partidários do anti-intelectualismo vigente.

joaopinheiroesuelymesquita.jpg
João Pinheiro e Suely Mesquita: justa homenagem à genialidade e à coragem de Chico em “Corrente”.

Ainda em 1976, o MPB-4 registrou “Corrente” em Canto dos homens. Versão boníssima também:

3 comentários

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s