232. As Bahias e a Cozinha Mineira: “Apologia Às Virgens Mães”

Quantos tempos teceram teus vestidos de lã?
Quantas tranças os tempos fizeram traçar teus cabelos?
Quantos beiços beberam do teu peito o afã?
E dos seios sugaram o sulco sem dor, dos teus zelos
Senhora de saia, de ventre pré-destino
Quantos tempos cruzaram num ponto de cruz teu destino?


Nunca tinha ouvido falar das Bahias e a Cozinha Mineira até assistir ao show delas no 10º Festival Contato, em 2016. Estava em São Carlos passando alguns dias, antes da volta de mais um período letivo em Santo André, e coincidiu de meu recesso se encerrar praticamente junto com o Contato.

Naquela tarde no Parque do Bicão, reencontrei amigos e curti ao menos um show que aguardava com alta expectativa, o de Liniker e os Caramelows. Se não me engano, seria a primeira apresentação da banda desde o súbito desaparecimento da vocalista Bárbara Rosa, que perdia a batalha para o câncer, com apenas 21 anos.

No entanto, no transcorrer do dia/noite, fui surpreendido por outra apresentação movida a carisma e competência musical: eram as Bahias no palco. Veja alguns instantâneos do que presenciei, roubados do Flickr do Contato (nem tentei me procurar nas fotos porque estava quase na lateral do palco, acompanhado da queridíssima Dani Morgado… será que ela visita o blog?):

Duas canções ficaram especialmente grudadas em minha cabeça: “Comida Forte”, sobre a saga dos nordestinos que, afinal, construíram Brasília (de onde, triste e ironicamente, hoje emanam políticas que atentam contra a dignidade, especialmente, dos mais necessitados que moram nessa região) e o tema de hoje, “Apologia Às Virgens Mães”, composta pela vocalista Assucena Assucena.

Gostei tanto da apresentação que, menos de dois anos depois, abandonei o sossego do lar para assistir a um novo show delas, dessa vez, no Sesc Santo André. O repertório, calcado no álbum Mulher (2015) – a substância do show a que assistira anteriormente -, trouxe novamente a canção que tanto me comovera. (Um parêntese. Guardo a lembrança da imensa vontade de fazer xixi que me acometeu lá pelas tantas. Como a apresentação acontecia no teatro, não havia banheiro por perto e, caipira que sou, fiquei com vergonha de me levantar e perguntar ao staff do Sesc como fazer para “tirar a água do joelho”. Excluindo-se essa dolorosa recordação, foi tudo perfeito!).

As Bahias – que, apesar de ostentarem esse nome, surgiram em terras paulistanas – têm como característica a preocupação com a sofisticação musical (trazendo na bagagem referências do r&b, do jazz, do rock e dos ritmos brasileiros) e lírica (por meio de letras que funcionam perfeitamente como poemas, mobilizando espertamente assonâncias, aliterações e outros recursos).

“Apologia Às Virgens Mães” é, nesse sentido, bastante representativa do repertório do conjunto: sustentando um lirismo militante e feminista, há uma base instrumental encorpadíssima, formatando um blues com ares de big band que deságua num refrão matador – “Mães de Jesus, oh virgens, todas virgens!” – antes de se converter num sambão dos bons.

Com inteligência, esmero e muito talento, as Bahias e a Cozinha Mineira chegaram para trazer uma diversidade muito bem-vinda à já rica tradição da canção popular brasileira.

E deixo uma sugestão final: não apenas ouça o som cujo link abre o post, mas aprecie o incrível videoclipe dirigido pelo paraense Jaloo. Obra de arte.

as-bahias-e-a-cozinha-mineira.jpg
As Bahias e a Cozinha Mineira com seu trio nuclear: militância contra as opressões, som primoroso e poesia de verdade na canção brasileira do século XXI.

2 comentários

    1. Para esse pessoal, escândalo maior que a canção, em si, deve ser o fato de as vocalistas seriam duas mulheres trans – lindas, talentosíssimas e muito inteligentes. As Bahias são necessárias, mais do que nunca. Grato pelo comentário.

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