233. Kleiderman: “Não Quero Mudar”

Deve ser porque eu não quero
Só pode ser porque eu não quero
Deve ser porque eu não gosto
Só pode ser porque eu não gosto


Os Titãs estavam numa encruzilhada. Aliás, o BRock como um todo, naquele 1994. O som garageiro já não ditava os rumos da canção popular brasileira e seus principais representantes, praticamente sem exceção, viviam um ostracismo que jamais haviam experimentado.

Recapitulemos: a Legião Urbana amargava um recesso forçado, desde que Renato Russo se descobrira soropositivo, amadurecendo uma produção incessante de novas composições enquanto produzia seus próprios álbuns – The Stonewall celebration concert (1994) e Equilíbrio distante (1995). Os Engenheiros do Hawaii haviam se dissolvido com a saída de Augusto Licks, e o futuro dos remanescentes Carlos Maltz e Humberto Gessinger, após o ao vivo Filmes de guerra, canções de amor (1993), era incerto. Os Paralamas do Sucesso sofriam com a recepção negativa de seu ousado Severino (1994), numa época em que a boa acolhida provinha apenas dos hermanos latino-americanos, vidrados na coletânea Paralamas (1992), que vertia os sucessos do conjunto para o castelhano. O Capital Inicial e o Ira! viam suas principais lideranças afundarem nas drogas, levando consigo a inspiração que marcara seus repertórios nos anos 1980. Roberto Frejat se reerguia vagarosamente, com o Barão Vermelho, desde a saída de Cazuza quase dez anos antes, sentindo também a partida de seu ex-band leader em 1990. O RPM já não existia e Paulo Ricardo, antes de enveredar para a carreira solo marcada por um impensável repertório romântico, se esforçava para ainda parecer relevante. Sem contar a febre dos discos acústicos, iniciada nesse mesmo 1994 com Meio desligado, do Kid Abelha, e Acústico ao vivo, do Nenhum de Nós – sendo que, em pouco mais de dez anos, todos os artistas acima listados lançariam seus álbuns desplugados, com a honrosa exceção do Barão: a primeira banda a gravar um Acústico MTV, ainda 1991, sem nenhuma pretensão em prensar a apresentação num disco-para-vender-milhões.

Os Titãs, como disse, não estavam em melhor situação. Após três discos de carreira matadores – Cabeça dinossauro (1986), Jesus não tem dentes no país dos banguelas (1987) e Õ blésq blom (1989) – a banda havia composto dois álbuns que, então, eram execrados: o inacreditável Tudo ao mesmo tempo agora (1991) e, após a saída do poeta Arnaldo Antunes, o pesado Titanomaquia (1993). Parecia o fim… (e, poucos anos depois, os mesmos discos seriam saudados como clássicos incompreendidos – veja os seguintes dizeres da matéria “Os 100 melhores discos dos anos 90”, publicada na edição 172 da Showbizz, incluindo Tudo ao mesmo tempo agora no box “outras pérolas que mereciam reavaliação”: “Extremo, sujo, escatológico, a trilha perfeita para a era Collor que abortou o início da década”).

E, no meio da tempestade, a saída foi relaxar. Os Titãs foram, cada um – na época em que a banda ainda contava com sete (!) integrantes – cuidar de seus próprios afazeres. Toni Bellotto escreveu seu primeiro livro, Nando Reis e Paulo Miklos lançaram álbuns solo e surgiu o Kleiderman, o projeto paralelo (e, provavelmente, planejadamente efêmero) de Sérgio Britto e Branco Mello (diga-se de passagem, meus titãs favoritos!), mais a baterista Roberta Parisi. Os vocais eram divididos, Sérgio pilotava as guitarras e Branco ficou com o baixo. Um power trio impensável.

O primeiro – e único – álbum do conjunto, intitulado Con el mundo a mis pies, saiu nesse mesmo 1994. O disco trazia nada menos que 17 faixas, embora a maioria não ultrapasse dois minutos. E o som? Um punk pesado, sem frescuras, sujo, mais direto ainda que os experimentos dos Titãs em Tudo ao mesmo tempo agora Titanomaquia. Aliás, considero Con el mundo a mis pies, com esses dois álbuns, uma trilogia – coesa, difícil e irônica, muito irônica.

Isso porque, desde 1991, os Titãs – e Branco Mello, em especial – pareciam estar dispostos a responder às críticas, direcionadas à suposta decadência de suas composições, apenas com mais canções. Assim deve ter surgido “Eu Não Sei Fazer Música”, em Tudo ao mesmo tempo agora (“Eu não sei fazer música / Mas eu faço / Eu não sei cantar as músicas que faço / Mas eu canto / Eu não tenho certeza / Mas eu acho / Eu não sei o que falar / Mas eu falo / Ninguém sabe nada”); “Nem Sempre Se Pode Ser Deus” (“Não é que eu me arrependi / Eu tô com vontade de rir / Não é que eu me sinto mal / Eu posso fazer igual / Não é que eu vou fazer igual / Eu vou fazer pior! / Nem sempre se pode ser Deus / Por isso que eu estou gritando”), do Titanomaquia; e a canção de hoje, “Não Quero Mudar”, em Con el mundo a mis pies.

Também cantada por Branco, como as duas outras canções listadas acima, “Não Quero Mudar” chegou a ganhar videoclipe e alguma projeção. A letra continua essa saga punk do “foda-se” que os Titãs pareciam endereçar aos críticos – como explicitado na abertura de Titanomaquia, “Será Que É Isso Que Eu Necessito?”, com os versos “Não sei o que você quer, nem do que você gosta / Não sei qual é o problema, qual o problema seu bosta?!”.

Em “Não Quero Mudar”, os palavrões cediam lugar a uma melodia alegre, como em outras canções pesadas/punks que Branco Mello cantaria em toda a carreira dos Titãs, a exemplo de “Dona Nenê”, um pouco em “Tô Cansado”, a própria “Nem Sempre Se Pode Ser Deus” e “Tudo O Que Você Quiser”. Mas a mensagem continuava sendo clara: não seria a mídia quem pautaria o som e o conteúdo lírico das canções dos Titãs, fossem de Branco ou de Sérgio. A letra não me deixa mentir: “Deve ser porque eu não quero / Só pode ser porque eu não quero / Deve ser porque eu não gosto / Só pode ser porque eu não gosto / […] Eu poderia mudar se eu soubesse como / Mas eu não quero mudar!”.

Além de “Não Quero Mudar”, Con el mundo a mis pies, que é cantado meio em português, meio em inglês, tem outros atrativos, como os vocais berradíssimos de Sérgio Britto e canções chocantes como “Nem Mãe, Nem Puta” e “Lick My Dirt”. E se eu disser que prefiro o solo de guitarra em “Get Me Higher”, pelo guitarrista tosquíssimo que é Britto, a boa parte dos solos em Tudo ao mesmo tempo agora Titanomaquia?

Conheci o Kleiderman também por conta da revista Showbizz, que na edição 189 trazia a matéria “A outra é que satisfaz”, elencando dez álbuns imperdíveis de projetos paralelos. Sobre Con el mundo a mis pies, os autores Emerson Gasperin e José Flávio Júnior assim se pronunciaram: “[…] o Kleiderman era um trio tosco, que cantava a podridão do mundo sob uma base punk/new wave bem pop. […] Melhor que Titãs”.

Quando som é bom, a crítica sempre se rende, mais cedo ou mais tarde.

kleiderman.jpg
Kleiderman: trio para ironias e muita sujeira enquanto o BRock se ajustava à perda da hegemonia dos anos 1980.

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