235. Lucas Santtana: “Músico”

Ligue-se o Éden
Som e maçã
Serpentes eternas
Sobem por nossas pernas
Desatam presilhas
De estrelas e sóis
A milhões de milhas
Dentro de nós


Como os frequentadores do blog perceberam, sou muito fã do rock nacional, mais especificamente, o representado pelos conjuntos dos anos 1980.

Nestes três dias de fins de agosto, dedicarei os posts a três releituras que considero bastante originais e ricas, a respeito de canções das três principais bandas brasileiras do BRock – coincidentemente, todas formadas em 1982, nos três polos da produção cancional roqueira da “década perdida”: Rio de Janeiro, Brasília e São Paulo.

O som de hoje vem dos Paralamas do Sucesso, e você certamente já sabe quem são os autores das versões abordadas nos próximos dois posts.


Com Severino (1994), a banda de Herbert Vianna, Bi Ribeiro e João Barone aprofundou os experimentalismos ensaiados já desde Bora Bora (1988), e evidenciados no bem-sucedido Big bang (1989), sua contraparte solar. Os grãos (1991), um fracasso de vendas massacrado pela crítica, ia ainda mais longe, mas reservou espaço para produções mais radiofônicas, como “Tendo A Lua”, “Sábado” e “Trac Trac”.

A viagem do lançamento de 1994, por outro lado, não tinha paralelos. O disco trazia violas caipiras, muitas alusões à cultura nordestina (já desde o título, inspirado em João Cabral de Melo Neto), psicodelia (impossível assistir ao videoclipe de “Dos Margaritas”, único sucesso do álbum, e não se sentir tragado para uma viagem alucinógena decorrente de sabe-se lá que substância) e, ainda assim, um ousado ar cosmopolita, trazendo em sua ficha técnica nomes como o produtor Phil Manzanera, do Roxy Music; o guitarrista Brian May, do Queen; e o hermano Fito Páez, que já colaborava com Herbert e companhia desde a virada da década.

E estava por ali, também, ninguém menos que Tom Zé – e, não à toa, Severino pode ser considerado o álbum tropicalista dos Paralamas. O baiano divide os vocais recitados em “Navegar Impreciso” (uma amorosa declaração de ódio a Portugual… ou seria o contrário?) com o jamaicano Linton Kwesi Johnson, e compôs uma das faixas do disco, junto com Herbert e Bi.

Trata-se de “Músico”, canção que me deixou simplesmente embasbacado logo que a escutei. Conhecedor da discografia dos Paralamas, sabia da capacidade do trio em elaborar obras complexas, mas não imaginava que a banda carioca poderia ir tão além.

A faixa tem como marcas os riffs espertíssimos (e com algum sabor surf) das guitarras de Herbert, complexas harmonias vocais (incrivelmente percussivas), um ritmo quebrado e seu refrão improvável – e inesquecível: “Sêmen, sêmen!”. Nesse sentido, a poesia de Tom Zé fez os Paralamas irem longe como nunca tinham ido.

E aí damos um salto. Em 2012, o músico Lucas Santtana – de quem ouvira falar, pela primeira vez, por sua participação tocando percussão e flauta transversal no Unplugged (1994) de Gilberto Gil – lançou o álbum O deus que devasta, mas também cura. Ali estava uma faixa incrível, eletrônica e bastante “atmosférica” (não achei outro adjetivo), justamente uma releitura para essa que é uma das canções mais difíceis dos Paralamas.

Lucas topou o desafio de reler um clássico obscuro e esquecido – ao que parece, “Músico” não chegou a figurar na turnê de Severino, nem integrou o repertório paralâmico de nenhuma outra excursão ao vivo – perfazendo um belo dueto com a cantora paulistana Céu.

A releitura ganhou um videoclipe interessante e o colega Leonardo Davino (da ideia original de tratar diariamente de 365 Canções), no seu atual blog Lendo Canção, fez um texto maravihoso sobre esse registro de Santtana e Céu. Fecho o post com sua leitura sobre essa obra espantosa:

Nela há uma reivindicação latente engendrada pelo “músico” (masculino) que quer o compartilhamento das glórias recebidas pela “música” (feminina) por disseminar verdades, “desatar presilhas”.

O sujeito da canção faz isso recorrendo à mítica da “expulsão do paraíso”, “Ligue-se o Éden / Som e maçã / Serpentes eternas / Sobem por nossas pernas”, quando ele inseminou ela e juntos ganharam o mundo, perdendo o paraíso. Eis a questão que se configura aqui, longe da nostalgia: é o músico (seja um masculino, um feminino, um assim) quem injeta a semente (energia sonora) na música? Os argumentos do sujeito da canção levam a crer que sim. Mas ele também, por sua vez, não age encantado por ela?

E especificamente sobre o dueto com Céu, afirma o escritor:

a versão de Lucas Santtana, com voz “masculina” e “feminina” discutindo questões íntimas àquilo que cada parte deveria ser, faz um profundo corte epistemológico no tema dos gêneros. E aí se condensa e se prolifera o núcleo duro que o título do disco guarda: O Deus que devasta é o mesmo que cura.

São muitas as possibilidades de leituras para a recriação de Lucas Santanna. A começar pelo arranjo melódico, pela sonoridade eletrônica-orgânica complexa criada para proporcionar a “fala”, por sua vez também complicada, porque um quase poema concreto, do sujeito. E todos os elementos se fundamentam na voz, nas vozes.

[…] A voz que prolifera é a mesma que domina. Lucas e Céu, instrumentos e letras.[…] Partindo para um plano “de fora” da canção, podíamos mesmo dizer que “Músico” é uma canção-enigma de todo cancionista, principalmente os mais inventivos, como é o caso de Lucas Santtana: o músico é o cavalo da música? Mas por onde ele entra nela?

Nada a acrescentar, e muito o que pensar.

lucas-santtana.jpeg
Lucas Santtana: com Céu, se apropriando de “Músico” para refletir sobre a fertilidade do fazer inspirado pelas musas.

3 comentários

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s