237. Danger City: “O Pulso”

O pulso ainda pulsa
O pulso ainda pulsa
Câncer, culpa,
Arteriosclerose, AIDS


Fechamos o pequeno ciclo de três posts com regravações “peculiares” de canções das três grandes bandas do BRock. Hoje, falaremos da versão para “O Pulso”, dos Titãs, conforme registrada pelos paulistanos do The Danger.

Confesso que gostei dessa brincadeira: explorar um tema, ao longo de vários dias, organizando uma sequência de posts. Mas não sei se conseguirei fazer algo parecido novamente, nas pouco mais de 100 canções que nos resta explorar até o aguardado 31 de dezembro.

E falando em “sequência”, o post de hoje (como este e este) será redigido na forma de uma pequena cronologia.

Percorramos o túnel do tempo.


1989. Os Titãs são a maior banda do rock nacional. Pelo menos considerando a quantidade de integrantes: cinco vocalistas, dois guitarristas e um baterista. O conjunto lança o excelente Õ blésq blom, que fez os hits “Miséria” e “Flores”. Mas uma canção estranha, da lavra de Arnaldo Antunes, ganha as paradas de sucesso: “O Pulso”. Com um andamento simulando o ritmo cardíaco, alguns efeitos eletrônicos, guitarras distorcidas e uma harmonia simples (trazendo apenas quatro acordes), os Titãs conseguiram colocar na boca do povo uma letra complicadíssima, que lista uma coleção de doenças (“Hepatite, escarlatina, estupidez, paralisia / Toxoplasmose, sarampo, esquizofrenia / Úlcera, trombose, coqueluxe, hipoconcria / Sífilis, ciúmes, asma, cleptomania”), incluindo, entre elas, algumas doenças do social – raiva, rancor, estupidez, etc.

1996. Escuto “O Pulso” pela primeira vez. O grupo Anima Sonho, de teatro de bonecos, se apresenta no Domingão do Faustão, propondo uma criativa e impressionante interpretação da canção. Não encontrei um vídeo exatamente dessa apresentação, mas há outras performances do mesmo número no YouTube, como a que segue abaixo:

Estávamos na casa de minha avó quando a caveirinha dançou na tela da TV. Todos se divertiram e meu pai comentou: “O Sérgio [meu tio, seu cunhado, que não estava conosco] é tão fanático pelos Titãs que ele deve saber quantas doenças são cantadas nessa música”. A essa altura, eu já estava fisgado pela canção e toparia o desafio de fazer essa contagem.

1997. Os Titãs voltam com tudo à mídia, graças a seu Acústico MTV. O álbum trazia regravações luxuosas para antigos sucessos (“Comida”, “Homem Primata”, “Flores”, “Marvin (Patches)”), algumas boas inéditas (como a linda “Os Cegos Do Castelo”) e novos arranjos para obras esquecidas (com destaque para a reconstrução de “Pra Dizer Adeus”, antes um reggae cantado por Nando Reis, agora uma balada com refrão matador, na voz de Paulo Miklos). E ali estava “O Pulso”, com arranjo semelhante ao da versão original, e a adesão de Arnaldo como convidado especial – já que o compositor havia deixado o conjunto no início dos anos 1990:

Meu chapa Marcos me emprestou o CD bem no finalzinho do ano, e passei a virada para 1998 com uma seríssima missão: decorar “O Pulso”! Mas a cabeça de um pré-adolescente é tão vazia que, em um dia ou dois, poderia entoar a canção de trás para frente.

2014. Quase duas décadas depois de ter conhecido “O Pulso”, me vejo como titular de aulas de Biologia no ensino médio. Apesar de ter ingressado na rede estadual para assumir o componente curricular Química, precisei completar minha carga horária com outra disciplina de ciências. Paciência. No segundo semestre, o conciso material didático fornecido pela Secretaria de Educação do Estado de São Paulo propunha a abordagem do tema “saúde”, para as turmas cursando o primeiro ano do médio. Porém, os livros didáticos fornecidos pelo Governo Federal já não trazem esse tópico, mais típico do ensino fundamental. Assim, para complementar os conteúdos sugeridos no currículo estadual, precisei recorrer a outras fontes, para além dos manuais escolares. E, assim, criei uma atividade que envolvia “O Pulso”. Na primeira aula, paguei o mico de tocar e cantar a canção, ao violão, para aquelas duas turmas terríveis do primeiro ano. Nas aulas seguintes, os alunos utilizaram dicionários para compreender o significado de todos aqueles substantivos dispostos na letra e, assim, discriminar as doenças biológicas, das doenças psíquicas, das doenças sociais, considerando que a canção elencava representantes dessas três categorias. Concluídas as atividades, conseguiríamos discutir a definição de Organização Mundial de Saúde: saúde como situação de perfeito bem-estar físico, mental e social. Meu único arrependimento foi não ter escrito um artigo científico sobre essa prooposta – relativamente bem-sucedida, diga-se de passagem.

2016. A Tratore organiza um tributo aos Titãs, O pulso ainda pulsa, trazendo 32 releituras para canções da banda em todas as suas fases. Considerando que todo tributo tende a ser um compilado irregular de performances, até que gostei do álbum. No entanto, nenhuma versão me impactou mais do que a criativa releitura proposta pelo Danger City. Apesar de referenciar o arranjo original com o riff em duas notas graves (o “tum-tum” do pulso), a banda praticamente elaborou uma canção nova a partir da composição original de Arnaldo Antunes, Marcelo Fromer e Tony Bellotto. O andamento é mais arrastado e a sonoridade como um todo (incluindo a nova harmonia), em alguns momentos, me remete a “Day Of The Lords”, clássico do Joy Division em seu primeiro álbum (Unknown pleasures, 1979). Mais interessante, porém, foi o conjunto de atualizações da letra, incluindo novas doenças (de todos os tipos): AIDS, chikungunya, autismo, machismo, bullying, pedofilia, distrofia, dislexia, preconceito, fisiologismo, etc.

Só pela ousadia, Pedro Gesualdi (guitarra e voz), Theo Portalet (baixo) e Caio Casemiro (bateria) merecem figurar aqui – até porque os rapazes, com sua leitura muito particular para “O Pulso”, conseguiram acrescentar mais um tijolo na parede de minhas memórias sobre a canção, tendo me tocado profundamente. (Não, a versão deles não fala nada específico sobre próstata! Perdão pela piadinha sem graça, mas ouvi dizer que, agora, liberou geral a escatologia e o politicamente incorreto, vide as manifestações diárias do Presidente da República).

danger-city.jpg
Danger City: ousadia e risco ao reler “O Pulso” como uma novíssima canção.

Moral da estória, considerando este post e seus dois imediatamente anteriores: sempre há tempo para se reler velhas canções e fazer delas novas criações.

Ou, como diria o mestre João Gilberto, que temeridade tantas novidades, quando ainda há tanto a se reinterpretar!

3 comentários

  1. Verdade,o Caetano também já disse,pra que fazer mais músicas,já há tantas.Quanto à letra dos Titãs,que mais parece um manual da OMS,é triste e engraçada ao mesmo tempo,além de ser pessimista e otimista na mesma medida,pois o pulsa ainda pulsa.

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    1. Eu acabei não fazendo uma interpretação de “O Pulso” no post. Mas é realmente por aí. Apesar de todas as doenças que nos afetam (e não apenas ao corpo, que “ainda é pouco”, como canta a versão dos Titãs), “o pulso ainda pulsa”. Vamos nos esgueirando pelas doenças do corpo, da mente e do social – que, afinal, estão todas entrelaçadas.
      Grato pelo comentário.

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