238. Paulinho da Viola e Elton Medeiros: “14 Anos”

Tinha eu 14 anos de idade
Quando meu pai me chamou
Perguntou se eu não queria
Estudar filosofia
Medicina ou engenharia
Tinha eu que ser doutor


Em 1966, Paulinho da Viola e Elton Medeiros dividiram um álbum, Na madrugada. Era justamente o primeiro do carioca autor de “Sinal Fechado”. Elton era pouco mais experiente, tendo debutado em disco no ano anterior. Na madrugada foi reeditado em 1968, agora chamado Samba na madrugada, que é sua versão mais conhecida.

Entre as diversas faixas do álbum, celebrando o samba legítimo do Rio e seus autores, havia uma composição de Paulinho intitulada “14 Anos” (ou “Quatorze Anos”). A letra é simples, com um enunciador lembrando de quando veio a ter com seu pai, a respeito da profissão que deveria seguir. “Tinha eu que ser doutor”, afirma o personagem, confrontando a expectativa paterna, ao se assumir como sambista nato. E após rememorar esse diálogo crucial em sua vida, a voz que canta reconhece as vicissitudes envolvidas no ofício de cancionista (que veio a escolher), principalmente, o parco reconhecimento do público diante dos verdadeiros compositores dos sambas. (Coisa que este blog procura sempre respeitar, é bom dizer).

Como disse, “14 Anos” é simples, e não precisa ser decifrada. Mas é uma canção muito significativa para mim, já que o repertório de Paulinho esteve bastante presente em minha vida, veja só, justamente numa turbulenta época em que decidia meu futuro profissional.

Era 2015 e eu andava vidrado em Dança da solidão (1972) – tendo até cogitado trazer ao blog alguma canção do álbum; no entanto, foi demovido da ideia ao verificar que duas de suas obras já constaram no 365 Canções de Leonardo Davino. Profissionalmente, sentia-me levemente aliviado, pois precisava circular por apenas três (!) empregos, já que chegara a trabalhar em quatro lugares diferentes no ano anterior. Por outro lado, havia a possibilidade de vir morar em Santo André, com uma promessa de remuneração mais justa, ao custo de mudar-me de onde vivia desde o nascimento. Ouvia as canções de Paulinho no caminho para o trabalho aos sábados, pensando em tudo o que 2015 poderia me trazer.

No início de maio, um convite irresistível: meus queridos Beth Ovando e Mestre Siri iriam para Ribeirão Preto assistir a um show de Paulinho. Achei que seria uma oportunidade única para conferir um artista valoroso, na companhia de pessoas tão queridas. A viagem de carro foi hilária – especialmente a volta, sob a iminência de acabar a gasolina, levando a motorista a banguelar o carro em todo e qualquer declive – e o show, fantástico. Mas não teve “14 Anos”, se bem me lembro – e confesso que estava mais atento às faixas de Dança da solidão, tendo sido recompensado com a canção-título.

E em menos de dois meses, eu já estava com o destino selado. Havia conseguido o trabalho em Santo André, para onde me mudei em setembro. Morando sozinho pela primeira vez, fiz do samba um fiel companheiro para aquelas pacatas (e levemente tediosas) semanas pós-mudança.

“14 Anos” me acompanhou para além desse período (que, na verdade, ficou mais marcado por outra interpretação de Paulinho, sua leitura para “Bandeira De Guerra” de outro Paulo, o Vanzolini). Vira-e-mexe me vejo cantarolando-a, e pensando no tema trabalho, dada a forma como ele alinhou as reflexões de meu início de 2015 e nos meses seguintes – por exemplo, não valeria a pena permanecer em minha terrinha, sobrevivendo com um rendimento menor? Terei sido muito “mercenário” ao topar vir para o ABC – guardadas as devidas proporções, coisa análoga ao que tantos jogadores de futebol brasileiros vão fazer na China -, exatamente como os “sedentos de riqueza” cutucados em “14 Anos” (“Vejo um samba ser vendido / E o sambista esquecido, / O seu verdadeiro autor / Eu estou necessitado / Mas meu samba encabulado / Eu não vendo não senhor”)?

Tinha eu que ser doutor?

Samba é isso: uma condensação de dilemas e questões sociais (mas com amplas possibilidades de ressoar em experiências pessoalíssimas) numa cadência rítmica tipicamente brasileira.

Não espere dele respostas para tantas interrogações em vão; o samba é mesmo um companheiro de quem matuta.

paulinho-da-viola-elton-medeiros.jpg
Paulinho da Viola e Elton Medeiros: poemas divinos cantados como memoráveis sambas na/da madrugada.

Na discografia de Paulinho, salvo melhor juízo, a canção foi relida apenas numa excelente versão voz-e-violão, presente na trilha do documentário Meu tempo é hoje (2003):

E “14 Anos” foi regravada por muita gente boa. Vou destacar apenas duas releituras: uma clássica e outra contemporânea.

A versão clássica é a gravada por Nara Leão, no LP Meu samba encabulado (1983). Ao escutar pela primeira vez, pensei: esse cavaquinho parece o do Paulinho… E, modéstia à parte, este ouvido aqui acertou em cheio: o autor, de fato, consta na ficha técnica da gravação, que traz também Ubirany Nascimento tocando “caixa de agulhas 78 RPM” (!). Confira:

Já a regravação mais moderna é a de Moyseis Marques, conhecido por ser um dos fundadores do Casuarina. A versão, presente em sua estreia solo (Moyseis Marques, 2007), tem como atrativo a participação vocal do próprio Elton Medeiros. Samba dos bons, ou melhor, dos ótimos:

5 comentários

    1. Os bons sambistas gostam de improvisar, e alguns instrumentos improvisados já foram até “oficializados” como timbres próprio para o samba: veja o caso do prato-e-faca e da caixa de fósforos.
      Sobre Paulinho, já estava demorando para aparecer aqui!
      Grato pela visita.

      Curtir

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