239. Charlie Brown Jr.: “Quinta-Feira”

Ainda me lembro bem daquela quinta feira, iê
Cinco malandro em volta da fogueira
Ouvi o grito de dor de um homem que falava a verdade
Mas ninguém se importava


O Charlie Brown Jr. estreou em disco com Transpiração contínua prolongada (1997), que fez o hit “Proibida Pra Mim”. O álbum era um apanhado de canções adolescentes, e já não poderia ser levado muito a sério desde a capa – e, aliás, desde o título. A própria banda parecia não se importar em soar adulta, intercalando as composições do álbum com brincadeiras gravadas em estúdio, a começar pela abertura “Tributo Ao Frango Da Malásia”.

“Proibida Pra Mim” foi um estouro em 1997 e, no ano seguinte, a banda continuava em alta. Tanto que não precisou lançar nenhum álbum: Transpiração contínua prolongada era diversão certeira para muito além de seu principal hit, e fez outros sucessos, como “O Côro Vai Cumê” e “Aquela Paz”.

Lembro que, em maio de 1998, meu amigo Gabriel resolveu chamar os amigos para comemorar seu aniversário. Tínhamos de 12 para 13 anos; as meninas ficaram sozinhas num canto, embora tenham ido arrumadas como adultas e, provavelmente, bem dispostas ao jogo do flerte. Nós, os garotos, ficamos rodeando o aparelho de som… principalmente eu, tímido demais para interagir com as convidadas – e, que bobagem, elas eram nossas colegas de sala desde o ano anterior!

O álbum do Charlie Brown estava por ali e tocou inteirinho, se bobear, mais que uma vez. Dada minha inabilidade social, restou-me prestar atenção às canções, manipular o encarte, ler as letras. Mais afeito ao BRock, criei, ali mesmo, a opinião de que a banda era sim boa, mas carecia de melhores letras. Ainda assim, passei a nutrir pelos skatistas de Santos uma simpatia muito maior do que, por exemplo, pelos Raimundos.

Foi naquela ocasião que escutei “Quinta-Feira”, nosso tema de hoje, pela primeira vez. Mas só vim a me interessar pela faixa bem mais tardiamente, quando finalmente comprei meus primeiros álbuns do Charlie Brown (além do Transpiração…, o lançamento seguinte, Preço curto, prazo longo, de 1999), por volta de 2012. Nessa época, passei a valorizar ainda mais “Proibida Pra Mim” (por achar que seu refrão era construído como um hipérbato brilhante, considerando que Chorão nunca foi um erudito no sentido clássico do termo: “Se não eu, quem vai fazer você feliz?”).

“Quinta-Feira”, um reggae guitarreiro e com bom refrão – como, aliás, boa parte das canções de Transpiração, que revezam momentos jamaicanos (explorando, principalmente, o ska) e punks, com algumas pitadas de hip-hop – traz a narrativa de um homem cujo vício em cocaína o levou à rua, para quase morrer de frio.

Uma canção simples, mas que nos faz pensar. Afinal, o narrador, como que traçando a moral da estória desse personagem, repete no refrão: “Parecia inofensiva, mas te dominou, te dominou, dominou, dominou”. Certo, não devemos subestimar o poder arruinador dos psicotrópicos… mas não terá sido justamente isso o que ceifou precocemente a vida do próprio Chorão?

Contradições e ingenuidades à parte, Transpiração contínua prolongada, se não é uma obra perfeita, certamente é um dos maiores clássicos do rock brasileiro noventista. E até bem pouco tempo atrás, o refrão de “Aquela Paz” era uma reflexiva pixação numa parede de São Carlos (no cruzamento entre a D. Alexandrina e a Tiradentes): “Ouvi dizer que só era triste quem queria”.

ouvi-dizer-que-so-era-triste-quem-queria.jpg

Entre um verso e outro, com simplicidade e sinceridade, o Charlie Brown Jr. garantiu que a poesia de Chorão se difundisse para muito além das pistas de skate de Santos.

Uma pena que “Quinta-Feira” tenha se tornado uma trágica auto-profecia.

charlie-brown-jr.jpg
Charlie Brown Jr.: rock bem executado segurando o lirismo espontâneo do poeta urbano Chorão.

“Quinta-Feira”, composta por Chorão e os demais músicos da banda (o baterista Renato Pelado, o falecido baixista Champignon e os guitarristas Thiago Castanho e Marcão) aparece em outros três lançamentos oficiais do Charlie Brown Jr.

Primeiro, em Charlie Brown Jr. ao vivo (2002), com o mesmo arranjo da versão original:

No Acústico MTV (2003) – provavelmente, o menos desplugado de toda a série, afinal, a banda não se preocupou em suavizar ou reconstruir arranjos, apenas executando suas canções com violões (por vezes, saturados de efeitos como o wah-wah) no lugar das guitarras. Apesar de tudo, boa versão:

Depois, a obra apareceria no volume 2 de Música popular caiçara (2016), numa versão abreviada e cheia de punch:

4 comentários

    1. É triste mesmo. Chorão era um personagem que, com muita simplicidade e honestidade, ainda teria muito a oferecer não apenas ao rock nacional, mas à canção popular brasileira.

      Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s