240. Tom Jobim: “Matita Perê”

No jardim das rosas
De sonho e medo
Pelos canteiros de espinhos e flores
Lá, quero ver você
Olerê, Olará, você me pegar


Quando consegui uma gravação de “Águas De Março” em CD, aos 12 anos, lembro de ter separado algumas folhas de papel em branco e canetas, e me atirado a transcrever a letra da canção de Tom Jobim – na clássica gravação em dueto com Elis Regina. Isso porque aquela mera coletânea de sucessos da MPB não trazia as letras das faixas no encarte – ou melhor, mal trazia encarte.

A missão ia bem até que apareceram os versos “É peroba do campo, é o nó da madeira / Caingá, candeia, é o Matita Pereira”. Entre tantas palavras, poucas ali pertenciam ao vocabulário de um projeto de nipo-caipira, como eu. Logo, eram enigmas. Afinal, o que ou quem seria o tal Matita Pereira?

Foi muito tempo depois que vim a conhecer justamente o álbum de Tom Matita perê (1973), que trazia outra gravação para “Águas De Março”, com apenas o compositor cantando. O disco, como um todo, me agradou, principalmente por conta de seus números instrumentais e pelo apreço erudito do compositor. Nesse sentido, especificamente, uma canção me deixou chapado: era a própria “Matita Perê”.

Matita-perê ou matita-perera é um pássaro (Tapera naevia) conhecido, na cultura popular, como um ser agourento. E, para além desse detalhe, a canção de Tom se revela uma homenagem ao escritor mineiro João Guimarães Rosa, com letra de ninguém menos que Paulo César Pinheiro. A forma como todos esses detalhes se entrelaçam nessa obra de Tom é explicada brilhantemente pelos rapazes do canal Estação Paratodos, indispensável para todos que amam a canção popular brasileira:

Não tenho absolutamente nada a acrescentar sobre a leitura dos rapazes, e sobre a enorme quantidade de fatos, conexões e argumentos sacados em sua exposição. Perfeitos.

Diria apenas que “Matita Perê”, como um épico orquestrado de sete minutos, com ricos elos na produção literária não apenas de Guimarães Rosa, mas também do poeta Carlos Drummond de Andrade, apresenta também um perceptível tom cinematográfico. A jornada do personagem João – mais rosiano, impossível – se desvela, aos sentidos de quem escuta a obra, evocando paisagens e acontecimentos narrativos: o audível objetivo, mais o imagético imaginário, confluem de modo sinérgico para criar uma experiência musical única.

O que se poderia esperar de um encontro, afinal, tão milagroso, entre um dos maiores músicos da humanidade e um dos maiores letristas da canção popular brasileira – e talvez mundial?

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Tom: o melhor da música brasileira e de nossa literatura na obra-prima “Matita Perê”.

No álbum Paulo César Pinheiro (1980), o letrista de “Matita Perê” apresenta um dueto com o maestro Antônio Carlos Jobim, no que talvez seja a versão definitiva da canção:

Outra versão, mais classuda, pode ser encontrada no álbum da Família Jobim, Amazonas – Família Jobim (1989). O registro tem arranjo do próprio Tom – que não chega a tocar no álbum – e de Jacques Morelenbaum. Os vocais parecem de Tom, mas são de seu filho Paulo Jobim. Já as flautas, que realizam belos floreios, são de Danilo Caymmi. Aprecie:

Quando penso em canções que me lembram de João Guimarães Rosa, duas me vêm à cabeça: “Pedro Pedreiro”, sobre a qual Chico confessa ter proposto o adjetivo “penseiro” numa tentativa de imitar os neologismos do escritor; e “A Terceira Margem Do Rio”, parceria de Caetano Veloso com Milton Nascimento, sobre um dos contos apresentados no célebre Primeiras estórias (1962). De todos esses grandes cancionistas, de fato é Bituca aquele que traz a sensação de ser mais próximo, mais afim ao estilo do escritor de Minas. Pois como seria se a voz de Deus entoasse “Matita Perê”? Seria divino, lógico, como você pode atestar na gravação de Jobim sinfônico (2003), com Paulo Jobim ao violão, desta vez:

Por fim, temos uma gravação mais contemporânea, da cantora Juliana Amaral. Com seu estilo minimalista, a artista subverte a complexidade do arranjo original de “Matita Perê”, valorizando uma sonoridade rural que também se ajusta ao contexto interiorano retratado na narrativa de João. A versão aparece no álbum Açoite (2016):

4 comentários

  1. Quando conheci ”Águas de Março”,eu também ficava cabreiro com a expressão,e pra piorar o ”matita pereira” aparecia como matita perê em outra obra.
    Quanto a música analisada,é uma das melhores que eu já ouvi,e o texto ficou à altura.

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    1. Obrigado pelo elogio! Dessa vez, escrevi até pouco, meio que terceirizando os comentários sobre a canção. Sobre o “perê” e o “perera”, também senti a mesma dificuldade! Mas de fato “Matita Perê” é uma obra-prima.

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