241. Demônios da Garoa: “Abrigo De Vagabundos”

Eu arranjei o meu dinheiro, trabalhando o ano inteiro
Numa cerâmica, fabricando potes e lá no alto da Moóca
Eu comprei um lindo lote dez de frente e dez de fundos
Construí minha maloca


Por nossas vidas, as pessoas vêm e vão.

Às vezes, me flagro chocado com a constatação de que convivi por anos com algumas almas e que, desde que nos afastamos, jamais voltei a pensar nelas.

Na primeira vez em que isso ocorreu, fiquei realmente desesperado: tratava-se de um pesquisador com quem mantive uma frutífera colaboração em meados de 2012, a qual não se prolongou para além de julho daquele ano – e dali em diante, fiquei exatamente sete anos sem lembrar da existência do sujeito.

Por outro lado, existem aqueles personagens que, por mais que tenham se afastado – intencionalmente ou não -, jamais são esquecidos assim, sem mais.

Em minha vida, há pouquíssimas pessoas nessa categoria (as demais categorias são: os familiares; a família expandida, ou seja, os amigos-irmãos, aqueles que dão um jeito de permanecer por perto; e as pessoas com que não me importo, ou que busco não desejar o mal).

Uma dessas pessoas raras é um personagem chamado Klaus.

Ele, que faz anos hoje – tendo nascido exatos cinco dias depois de mim -, surgiu como um inseparável companheiro para as mais incríveis aventuras químicas, logo que ingressamos na graduação. Nas aulas de laboratório, sempre em duplas ou trios, foi um parceiro e tanto, com quem dividi muito mais do que a bancada e as burradas experimentais. Juntos, imergimos no universo dos átomos, moléculas e notas baixas – responsabilidade minha já que, entre nós, era eu quem redigia os relatórios; ele, experimentador mais habilidoso, colhia os dados, pois vestindo jaleco, me sentia quase sempre perdido. Aprendemos muito sobre como (não) fazer ciência, e muito mais sobre a amizade e o companheirismo que poderiam fazer de dois sujeitos cheios de manias, pelo menos, uma dupla improvável, desastrosa e muito, muito engraçada.

É certo que, em nosso duo, divertíamos muito mais os observadores do que a nós mesmos. Afinal, todos tinham motivos para rir de um japinha magrelo que vivia machucado por conta de seus acidentes de bicicleta, somado a um gigante temperamental, com quase dois metros de altura e uma barriga “de respeito”. Eu também via graça em nós dois, por nunca ter me levado muito a sério, mas confesso aos leitores: sinto-me horrível por ter permitido tantas zombarias com meu parceiro – sendo que fui até cúmplice de algumas.

Mas o senhor também não ajudava muito, né, Sr. Kirschbauer? (E aqui vai outra confissão: cada vez que consigo escrever esse sobrenome sem errar, coisa que aprendi logo na segunda semana de curso, me sinto vitorioso e aliviado).

Meu amigo passou por minha vida como um trem: chegou na hora certa, fez muito barulho, causou admiração e espanto (e um pouco de irritação, claro, mas faz parte da amizade, e devo tê-lo irritado muito mais), demorou-se um tempo que parecia uma eternidade e, quando percebi, já tinha zarpado para além do horizonte. Mas, se é certo que toda boa amizade deixa uma marca indelével em nós, posso dizer que a passagem do Klaus pela minha existência – para além de tudo o que meu eterno parceiro de laboratório me ensinou -, serviu para me apresentar um punhado de canções valorosíssimas e inesquecíveis.

Isso porque em 2006, quando já éramos formandos, o moço me apareceu com a coletânea dupla Bis, de Adoniran Barbosa. É claro que eu já me sentia familiarizado com a produção cancional desse João Rubinato, e lembro de seus sucessos embalando bons momentos de minha vida: quando tinha 13, uma inesperada apresentação ao vivo no bar próximo a minha casa, quando era ainda de manhã, levara “Trem Das Onze” até meu quarto, me fazendo perceber a magia envolvida em qualquer performance ao vivo (sendo que eu, àquela altura, tinha presenciado pouquíssimas apresentações musicais); e, já aos 17, lembro de voltar a pé da escola para casa, acompanhado dos amigos do ensino médio, cantando “Saudosa Maloca”.

Porém, conhecia apenas os grandes sucessos de Adoniran. A coletânea que Klaus me emprestou, por sua vez, sendo dupla, trazia canções para além do repertório mais radiofônico do autor de “Iracema” (que, lógico, estava ali presente). E fiquei encantado e comovidíssimo com uma canção em especial que acabara de conhecer, “Abrigo De Vagabundos” – justamente, uma continuação da narrativa iniciada em “Saudosa Maloca”, com o despejo forçado de seu narrador e seus companheiros Joca e Matogrosso, atirados para fora de sua humilde maloca pelas autoridades. Pois era reconfortante saber que, afinal, o personagem conseguira um novo cafofo para ocupar (“Eu comprei um lindo lote, dez de frente e dez de fundos / Construí minha maloca”), embora o destino de seus camaradas seja um mistério (“Por onde andará Joca e Matogrosso / Aqueles dois amigos / Que não quis me acompanhar? / Andarão jogados na avenida São João / Ou vendo o sol quadrado na detenção?”).

A versão que escutei é a seguinte, presente no álbum Adoniran Barbosa (1974):

Foi em 2007 que ouvi a versão dos Demônios da Garoa que, afinal, lançaram a canção, em Pafunça (1959). Os sambistas fizeram de “Abrigo De Vagabundos” um canto mais ligeiro, acompanhando o andamento de “Saudosa Maloca”, como se os acontecimentos de uma canção se sucedessem imediatamente aos da outra.

O contexto narrado nas duas composições (uma de 1955, a outra de 1959) é o do acelerado “pogréssio” representado pela urbanização em São Paulo. A ocupação urbana, demolindo os barracos e malocas no centro da cidade, e expulsando seus habitantes para as zonas periféricas, é um processo que se prolonga até os tempos atuais. O tema, assim, permanece na pauta das discussões sobre o urbanismo, e não escapou às análises desenvolvidas por Yara B. Bragatto em sua dissertação de mestrado Adoniran Barbosa e a lírica do progresso de São Paulo (2018. 238 f. Dissertação (Mestrado em Teoria e História da Arquitetura e do Urbanismo) – Instituto de Arquitetura e Urbanismo, Universidade de São Paulo, São Carlos, 2018). Destaco, do trabalho, o seguinte fragmento, relativo à canção que aqui tematizamos:

Há de se notar o contraste de emoções demonstrado pelo narrador e como elas vão sendo alteradas ao longo da canção. Ele inicia descrevendo sua trajetória penosa para juntar dinheiro, mas que é recompensada com a compra do “lindo” lote, o espaço que ele orgulhosamente agora detém. Outra barreira parece atrapalhar o caminho do autor quando ele diz que precisa de documentação correta para construir sua morada. Mas as amizades o ajudam a conquistar mais essa etapa. E quando ele poderia estar tranquilo aproveitando sua nova casa construída a duras penas, ele recorda dos amigos e torce para que eles tenham desfechos tão bons quanto ele julga ser o seu. O que aparenta ser triste é o fato de o narrador sempre precisar enfrentar problemas, e mesmo quando poderia estar gozando das suas conquistas, ele se mantém ligado à ideia da antiga maloca, onde ele não possuía uma casa legalizada, mas possuía amigos, e por isso, então, oferece gentilmente a tranquilidade de uma casa legalizada para todos os amigos que talvez não tenham as mesmas condições (p. 174).

Pois é, quando penso no meu amigo – morando muito mais longe, desde que me mudei -, lembro dessas relações de companheirismo também narradas em “Abrigo De Vagabundos”. E se o destino nos separa de pessoas queridas, sempre é tempo para o reencontro, e espero rever meu querido chapa em alguma boa reunião de turma.

Porque nossa parceria era exatamente como a maloca cantada por Adoniran e os Demônios da Garoa: capenga, meio ridícula e imprestável, mas ainda assim uma entidade sobre a qual tenho saudade, e cuja lembrança me traz uma inexplicável sensação de conforto.

demonios-da-garoa-adoniran-barbosa.jpg
João Rubinato, mais conhecido como Adoniran Barbosa, junto dos Demônios da Garoa: amizade para encarar as tragédias urbanas em São Paulo.

Existem muitas versões para “Abrigo De Vagabundos”, que foi relida por variados intérpretes. Vou destacar apenas três releituras.

A primeira é a de Clara Nunes, em Esperança (1979), impecável como sempre:

Outra versão é dos próprios Demônios, mas com a participação de Zeca Pagodinho, em Demônios da Garoa e convidados (2009). Repare que, no refrão, “minha maloca” se torna “a nossa maloca”, que tem uma sonoridade próxima a “saudosa maloca” (com uma entoação melódica mais próxima da canção de 1955):

Por fim, há a versão mais melancólica, cadenciada e luxuosa do MPB-4, presente em Tributo a Adoniran & Noel (180 anos de samba cantando):

12 comentários

  1. Eu acho que não pode ser deixada para trás a passagem de quando tentamos fazer uma versão em inglês de “Trem das Onze” em algum canto do IQSC.

    Obrigado pela homenagem e pelas boas lembranças, amigo. Um abraço.

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    1. Grande homenageado do dia! Que bom que gostou da lembrança.
      Sobre a versão de “Trem Das Onze”, realmente é uma outra boa recordação. Estávamos na aula de Química Geral II (ou seria Orgânica I?) sentados no fundão, tentando escrever a letra, junto com o Nervinho.
      Saiu algo mais ou menos assim, não me esqueço: “I cannot spend / No more time with you today / I’m sorry, my love, / But I won’t stay / I live in Jaçanã / And, if I lost this train / That now is going away / I’ll have to go on next day / There’s another thing, that I haven’t said: / In my house, my mother want to go to bed / I’m am her only son / I must take care of my house”.
      No próximo encontro da turma, tentamos gravar uma versão! Grande abraço e fique em paz.

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  2. pô japa, que bonita homenagem ao nosso amigo! (e eu tb me lembrei que esqueci de te felicitar pela enésima translação ao redor do astro rei, rs)

    A (falta de) moradia também é tema da música “Barracão pegou fogo”, do mesmo álbum “Trem das Onze”, compondo uma “tríade habitacional” junto com “Saudosa Maloca”. Me lembro de uma vez, lá pelos 2007, estarmos procurando nova sede para a Bordóke, e após sermos abatidos pela tristeza da visita a uma choupana que não nos comportaria, ao entrar no carro do Bob e soltar o “roadstar” que tava pausado, o exato verso que Adoniran nos proferiria seria “Onde é que nóis vai morá?”. E o que seria uma consagração do fracasso na verdade nos fez cair em gargalhadas e por fim conseguimos achar aquela casa atrás do Kartódromo, que seria palco de tantas lambanças…

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      1. Grande The Mulan.
        No fim das contas, a busca por essa “maloka” teve um final mais feliz que o dos personagens das canções: aquela casa que vocês encontraram foi a melhor sede da república, na opinião deste humilde agregado. Chegou um tempo bão em que havia churrasco todo fim-de-semana! E foi lá que conheci a canção “Cunhataiporã”, já comentada no blog, que me foi apresentada pelo Tung.
        Saudade da você e da Didi! Em breve remeto aquela encomenda que estou devendo a vocês. Grande abraço!

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    1. Nosso querido Klaus “Flashpower” merece todas as homenagens!
      Sobre essa estória que você conta, me recordo também de tê-la ouvido à época! Pois é, é disso que se trata esse blog: lembrar como as canções vão entrando, às vezes forçosa, às vezes fortuitamente, em nossas vidas.
      E lendo, quase consigo me imaginar no carro do Bob, e da quantidade de risadas que vocês deram diante dessa incrível coincidência.
      Não falei no post, mas “Saudosa Maloca” e “Abrigo De Vagabundos” formam uma trilogia (em termos narrativos) com “Arranjei Outro Lugar”, que é mais difícil de encontrar por aí.
      Enfim, maninho, obrigado pelo comentário e pelas recordações. Tenho muita saudade daquela época. E quem sabe nesse próximo findi eu dou uma passada na sua casa. Abração.

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  3. Eu estava nesse carro! Fui testemunha auricular dessa memorável cena, análoga à outra: entramos no quarto do Purê (na saudosa do ipê amarelo, Oscar de Souza Geribello) e estava tudo revirado, uma verdadeira baderna e um livro se destavaca entreaberto na cama: O cortiço!

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    1. Essas coincidências lítero-musicais são ótimas. Elas rendem sempre muita matéria-prima para o blog!
      Saudosa maloca, aquela da Oscar de Souza Geribello! Que quintal fantástico. Saudade dos cachorros, dos encontros, daquele carnaval embalado pelo maracatu, da vitrola com os LPs… Bons tempos, que passaram rápido, mas foram bem vividos.

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  4. Muito boa as histórias.Quanto à narrativa da música,eu nunca tinha percebido que fosse continuação de ”Saudosa Maloca”,eu sou meio distraído pra isso,meus ouvidos são mais lerdos que os olhos.

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