242. Chico César: “Reis Do Agronegócio”

Ó donos do agrobiz, ó reis do agronegócio
Ó produtores de alimento com veneno
Vocês que aumentam todo ano sua posse
E que poluem cada palmo de terreno
E que possuem cada qual um latifúndio
E que destratam e destroem o ambiente
De cada mente de vocês olhei no fundo
E vi o quanto cada um, no fundo, mente


Em julho de 2016, Cristiane veio passar alguns dias comigo em Santo André e descobriu um programa imperdível: um show do Chico César no Sesc. Mesmo sem dominar muito bem o repertório do artista paraibano, achei que valeria a pena conferir suas canções de perto.

Ao final da experiência, eu estava extasiado e encantando com aquele artista cuja obra ultrapassa, e muito, a qualidade (já elevada) de seu maior hit, “Mama África”. Esta, aliás, sequer esteve presente no setlist.

Era a época da turbulência política que levou ao golpe; a polarização explicitada nas jornadas de 2013 se apresentava, então, em seu nível mais alto (e bem que podíamos imaginar que ainda não seria seu ápice) e a mera presença de Chico no palco, com seu figurino “black cabra da peste”, era um ato político.

Olhando ao meu redor, pensei: estamos no show certo, assistindo a um artista que está do nosso lado. Afinal, sendo o show no sábado 23 de julho (aniversário da Cris, a propósito), mal fazia cinco dias desde que este humide blogueiro havia apertado bem forte a mão de ninguém menos que Dilma Rousseff – que havia ministrado uma palestra na UFABC, no campus de São Bernardo do Campo –, olhando em seus olhos, dizendo apenas “Força, mulher!” e recebendo de volta um sorriso inesquecível. A presidenta estava afastada, aguardando o desfecho de seu processo de impeachment; sabíamos que a derrota viria, mas a esperança é mesmo uma droga (viciante).

Foi nesse clima que escutei Chico desfilar as canções de seu mais recente trabalho, Estado de poesia (2015), dedicado a sua alma gêmea Barbara Santos. Mesmo assim, não foi um show romântico, pois sequer seria possível adjetivá-lo com uma única palavra. Se houve um momento mais terno com a belíssima “Caracajus”, confesso que fui arrebatado mesmo – com arrepios e tudo – pela canção tomada como tema de hoje, “Reis Do Agronegócio”.

Foi justamente a peça derradeira daquele show, e só minha habitual frieza justifica o fato de eu não ter derramado nenhuma lágrima ao escutá-la. Com efeito, trata-se de um épico dylanesco de mais de 11 minutos, em que Chico destila, quase sozinho com sua guitarra (apenas o tecladista Zé Godoy o acompanha, ao órgão) os versos dodecassílabos de Carlos Rennó, que mal disfarçam em seu lirismo uma mensagem pra lá de direta. Não, não há meias palavras em “Reis Do Agronegócio” – e isso, desde o título da obra.

Eu poderia descrever tudo o que é ali narrado. Poderia falar sobre a precisão com que os autores endereçam suas acusações àqueles que nos envenenam diariamente (e agora, sob Jair, mais intensamente ainda, com 260 novos agrotóxicos liberados somente neste ano!). Poderia falar sobre a revolta que isso me causa, já que eu ou alguma pessoa muito querida, certamente, deverá lidar com um câncer ou algo parecido, em decorrência da exposição prolongada a esses agentes mortificantes. Poderia falar sobre como a canção, na estrofe que fala do “desenvolvimento destrutivista”, traduz minha preocupação para com o anti-intelectualismo cada vez mais hegemônico entre a população pouco esclarecida sobre o que se faz na academia (e que está bem longe de ser balbúrdia, como acredita aquela pobre alma que ocupa a cadeira que já foi de Darcy Ribeiro). Poderia falar sobre o óbvio: não pode haver direito natural sobre o latifúndio, pois se trata claramente de uma terra subtraída da nação – a matemática não mente: conte quantos anos você teria que trabalhar para conseguir comprar mesmo que uma pequena propriedade, e extrapole o valor para a extensão territorial de um latifúndio médio. Poderia falar sobre como a monocultura é igualmente antinatural, pois degrada o solo e cria uma cadeia de consumo crescente de defensivos agrícolas e sementes geneticamente modificadas, introduzindo de forma irresponsável novos elementos bióticos e abióticos nos já combalidos ecossistemas preparados para o cultivo. Poderia falar sobre as populações de indígenas, quilombolas e ribeirinhos que lutam diariamente para não serem expulsos de suas terras ou simplesmente assassinados pelos “reis do campo”. Enfim, poderia falar sobre o quanto tais questões me tocam, dado que fui criado praticamente na zona rural de São Carlos, sob a ancestralidade de pequenos agricultores.

Não vou falar sobre nenhum desses elementos elencados acima. E exorto você, caro leitor/ouvinte, a reservar pouco mais de dez minutos de sua vida para escutar esse verdadeiro manifesto musical que é “Reis Do Agronegócio”, encerrando o post aqui mesmo.

chico-cesar.jpg
Chico César: política em estado de poesia… ou seria o inverso?

2 comentários

  1. Não conhecia o desabafo lítero-musical de Chico César e Carlos Rennó,e o tempo só reforçou a mensagem.

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