246. Mr. Catra: “Mangueira É Uma Mãe”

Só peço a Deus que me acompanhe, me abençoe onde quer que eu vá
Eu tô na vida, eu tô no mundo, eu tô aonde o destino mandar
Tô aqui no pé da ladeira
De frente pro Morro da Mangueira


Já frequentei os bares mais inimagináveis. Alguns, por que passei durante curtas estadias em lugares que não conhecia, me remetem a momentos bons, horas curiosas, passagens efêmeras. Fiz até, nesses lugares, amigos para a toda a vida – e que nunca mais encontrei nesse mundão. Outros, mais significativos, estiveram presentes com mais constância em meus dias, e dizem mais a respeito de quem sou.

Em São Carlos, por exemplo, o amigo Coxinha tinha um estabelecimento localizado numa quebrada, para onde eu me dirigi por algumas noites entre 2012 e 2015. Foi lá que comemorei a conclusão de minha tese de doutorado, assistindo ao jogo entre Brasil e Camarões na Copa de 2014. Ou seja, não era qualquer lugar – por muito tempo, foi “o” lugar onde podia relaxar por alguns breves instantes, já que o proprietário fechava as portas nunca para além da 1h.

Era um canto sujinho, mambembe, frequentado por um público diversificadíssimo (caminhoneiros, patrões, traficantes, assalariados, garotas de programa, policiais – um verdadeiro carnaval) que renovou, por algum tempo, meu círculo de amizades. (Falando nisso, pode onde andam Joel, Marcelinho, Frederico, Pézão, Parça e tantos outros companheiros de copo e filosofia?).

E, como toda boa experiência afetiva, essas noites me revelaram não apenas boas amizades, mas também algumas canções.

Já na segunda vez em que ali pisei, alguém inseriu algumas moedas na jukebox – que era um dos grandes atrativos do lugar – e pôs pra tocar um samba que chamou minha atenção, por não se parecer com nada que eu já tivesse escutado desse gênero.

Mais tarde, descobri o motivo: era o samba de um outsider, alguém que não pertencia exatamente àquele universo dos bambas, embora tampouco tal universo lhe fosse de todo estranho. Tratava-se de Mr. Catra (de quem, então, eu praticamente não tinha ouvido falar até aquele fim de 2012) cantando “Baseado Na Lei”.

A canção integrava o alardeado “disco sambista” do funkeiro carioca, que nos deixou no ano passado. Algum tempo depois, fui conferir o tal álbum, Com todo respeito ao samba (2012), passando a gostar muito de ao menos uma canção, “Essência De Poeta”.

No mais, não vi nada de espetacular no disco… exceto uma outra faixa que, honestamente, me pareceu incrível à primeira audição, e reveladora do potencial de Catra enquanto intérprete: “Mangueira É Mãe”.

Composição de Serginho Meriti e Claudinho Guimarães, a obra traz diversos instantâneos da vida no Morro da Mangueira, segundo a visão de um observador absolutamente integrado à vida da comunidade. Como afirma o cantor numa inimaginável passagem roqueira no meio da canção, “O sobe-e-desce é constante / Gente do bem e do mal, tá servidão / O comentário é geral / Também pudera, tô falando de Mangueira / De gente que vive à beira da avenida / Visconde de Niterói / É tanto beco, é tanta boca de siri nesse negócio / O morro é nosso! / Mas a pobreza é que dói”. Egresso do rock, Catra parece de fato muito à vontade ao cantar esses versos.

Embora Com todo respeito ao samba careça de uma maior sutileza – a produção optou por saturar demais os timbres, intensificando uma massa sonora absolutamente incompatível com algumas das canções, em forma (principalmente) e conteúdo –, “Mangueira É Uma Mãe” provou que Mr. Catra, com seu intelecto privilegiado, tinha potencial para cantar obras de grande valor artístico, para muito além das vulgaridades, do machismo e do primitivismo que era a tônica de seus funks.

Pessoalmente, penso que essa impensável síntese entre o samba e o rock mais pesado – já buscada por muita gente, quase sempre com resultados constrangedores – teve seu melhor resultado justamente com “Mangueira É Uma Mãe”, representando, talvez, o ponto mais alto do legado de um curioso personagem que passou rapidamente pela história da canção popular brasileira.

mr.-catra.jpg
Mr. Catra: o ponto alto de sua carreira artística trazendo seu passado roqueiro para o universo do samba.

“Mangueira É Uma Mãe” foi reconhecida como canção valorosa não apenas por mim, mas também por gente que entende de samba muito mais que eu. Estou falando de ninguém menos que Alcione, que gravou a obra ainda antes que Mr. Catra (embora de forma não tão original), em De tudo que eu gosto (2007). Participam da faixa o próprio compositor Serginho Meriti, mais o cantor Falcão, d’O Rappa, em dueto com a Marrom. Confira:

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