247. Patrulha do Espaço: “Columbia”

No céu azul… no céu azul
Columbia! Columbia!
Ele subiu aos céus… e voltou!
É o maior dos pássaros, Columbia, Columbia!


Será São Carlos a “Cidade Do Rock”, como sugere a canção da Tarja Preta, um clássico absoluto do rock paulista interiorano?

Por muitos anos, tive a sensação que sim. Aspirante a roqueiro – meus velhos longos cabelos não mentiam, mas que alívio foi cortá-los! –,  tinha a certeza que, nesse mundo, não havia melhor lugar para ter nascido.

Os shows de rock entraram em minha vida aos 14 e, daí em diante, vivi ao menos uma década de muito rock n’ roll, numa cidade que vivia não apenas recebendo artistas de todo o Brasil (e, às vezes, nomes de fama mundial), mas até exportando sons para os quatro cantos do país.

Quantos espetáculos! Os palcos da cidade eram mesmo abençoados, e toda semana havia boa diversão guitarreira garantida: ou no Sesc (o projeto Nas Bandas de Cá foi uma sacada genial), ou nas universidades (quartas e sextas no Centro Acadêmico Armando de Salles Oliveira, o CAASO, na USP; quintas, no palquinho do DCE da UFSCar), ou nos diversos bares alternativos espalhados pela cidade. Desses, meu favorito era o Armazém, mas havia outros espaços, como o Ócio, o Catedral e, mais tardiamente, o St. Patrick’s Pub – todos, absolutamente todos, finados! Ao menos, guardo uma recordação que reflete muito o espírito da época, distribuída pelo meu bar predileto por volta de 2007:

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(Quem vencesse o desafio ganhava, literalmente, um brinde! E, até onde sei, não houve vencedores).

De tanto rodar por esses verdadeiros templos do rock n’ roll (e não tem figura de linguagem mais roqueira que a hipérbole), acabei virando fã de carteirinha das bandas da minha terra – tanto que, volta e meia, trago alguma para o blog, como a já mencionada Tarja Preta, além da Bifidus Ativus (clique aqui). Com o tempo, fui conhecendo melhor seus integrantes e, até por sempre ter algum primo ou amigo que também era primo ou amigo de alguns deles, me tornei camarada dos músicos. Até hoje, nos poucos momentos que posso passar em minha terra natal, é comum e prazeroso trombar o Amauri “Maurizão” Rocha (Rocha Sólida), o Danilo Zanite (Tarja), o Rodrigo “Digão” Lanceloti (Banda Tao) ou o sempre parça Gustavo “Gus” Arruda (Homem Com Asas).

Nessa década inicial do milênio, eu vivia por dentro da programação local, que fornecia um cardápio diversificado o suficiente para que nunca enjoássemos de assistir aos conjuntos. E me lembro muito bem de um período, entre 2002 e 2009, em que recebemos ilustríssimos senhores do rock nacional em nossos palcos: Patrulha do Espaço, Golpe de Estado, Sérgio Dias e Made in Brazil. Modéstia à parte, nossas bandas nunca se intimidaram diante da presença de tantos figurões e, abrindo seus shows, provocavam mesmo é admiração por parte das lendas do rock brazuca.

Tanto é assim que a Patrulha do Espaço, que tocou literalmente dezenas de vezes em São Carlos, acabaria sendo reforçada por alguns de nossos músicos. Dois componentes da Tarja participaram da última formação da Patrulha, Danilo (nosso próprio guitar hero, ostentado com orgulho) e Paulonez Carvalho (um baita baixista, cujo estilo me impressionava muito quando adolescente, tendo me inspirado a arranhar o instrumento em algumas formações de minha própria banda).

Criada em 1977, a Patrulha adquiriu certa notoriedade por ter abrigado, entre seus membros, ninguém menos que Arnaldo Baptista, quando egresso dos Mutantes. E, em sua carreira, a banda viria a ter diversas formações, mantendo-se como membro constante o baterista Rolando Castello Júnior. Nome também mitológico do rock brasileiro, não era difícil encontrá-lo caminhando pelas ruas de São Carlos, naquela época em que o rock pulsava forte na cidade.

Nesses diversos shows da Patrulha a que assisti, uma canção sempre colocava a plateia em ebulição, com gente cantando a letra a plenos pulmões: “Columbia”. Lançada no álbum Patrulha (1982), a obra era uma ode a uma das maiores realizações do gênero humano, o ônibus-espacial Columbia. A letra saudava o artefato de forma poética: “Ele subiu aos céus… e voltou! / É o maior dos pássaros, Columbia, Columbia!”

Mas que trágica coincidência… pois a Patrulha estreou em São Carlos em fins de 2002, com “Columbia” no repertório, sendo que em fevereiro de 2003 a nave foi completamente destruída ao tentar adentrar a atmosfera terrestre, matando todos os seus tripulantes. E se a canção já era obrigatória no repertório da banda antes do acidente, dali em diante esse incrível hard rock teria lugar cativo não apenas no repertório da Patrulha, mas também no setlist das bandas de São Carlos.

Isso porque “Columbia” possibilitava que os shows, por um momento, se convertessem em espetáculos ainda mais emocionantes e dramáticos, em justas rendições ao space rock que marcou o repertório de muitas bandas setentistas do rock inglês. Lembro, especialmente, de uma arrepiante versão executada pela Tarja Preta (ou teria sido a Rocha Sólida?), em que “Columbia” se mesclava com a também teatral “Gimme Shelter”, dos Rolling Stones – já que as canções possuem um encadeamento harmônico parecido, em seus respectivos refrães. Emocionante!

Composta pelo baixista Sergio Santana (falecido, assim como guitarrista Dudu Chermont, que também integrou a formação de Patrulha), “Columbia” permanece como um clássico absoluto. Tanto que a revista Roadie crew a incluiu na lista dos “200 Verdadeiros Hinos do Heavy Metal e Classic Rock Que Você Tem Que Ouvir Antes de Morrer”, no honroso 40º lugar, sendo a canção em língua portuguesa mais bem colocada.

Não é pra qualquer um.

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A Patrulha do Espaço no início dos anos 1980: hard rockheavy de nível mundial, produzido em terras brasileiras.

Existem muitas outras versões de “Columbia”, tocadas pela própria Patrulha.

Uma delas acrescenta um arranjo de cordas à gravação de Patrulha:

Em Primus Inter Pares (1994), gravado em 1992, a banda relê seu clássico, numa versão heavy e cheia de punch:

Já em Capturados ao vivo no CCSP em 2004 (2007), você pode conferir a versão que escutei a banda tocar diante de meus olhos, por tantas vezes. Repare na flauta acrescentada à introdução. E preste atenção: Rolando Castello Júnior é indiscutivelmente um dos melhores bateristas do Brasil. Confira:

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