248. Eduardo Dussek: “Rock Da Cachorra”

Troque seu cachorro por uma criança pobre
Sem parentes, sem carinho, sem rango e sem cobre
Deixe na história da sua vida uma notícia nobre
Troque seu cachorro…


Nesses dias mesmo, fiz uma listagem de todos os artistas cujas ausências, aqui no blog, estão cada vez mais imperdoáveis. Isso porque faltam pouco mais de 100 posts para encerrarmos nossa missão, e há perto de 40 nomes que, na minha opinião, já deveriam ter sido considerados com o devido destaque.

Pois ontem me deparei com um texto que, justamente, me provocou a precipitar o aparecimento de um desses artistas: Eduardo Dussek. Ouvi bastante o cantor, compositor e pianista carioca em 2011, após adquirir uma coletânea de seus sucessos – que trazia praticamente todo o lado-A do álbum Cantando no banheiro (1982).

Ali estava o tema de hoje, “Rock Da Cachorra”, composição de Leo Jaime – cujas canções, coincidentemente, acompanharam meu despertar anteontem, já que o cantor goiano acabava de ser incluído na “lista das ausências”.

E por que justamente essa faixa de Cantando no banheiro – e não, por exemplo, a incrível “Nostradamus”, que começava a ser cogitada como assunto do blog? Porque ontem, em minhas navegações noturnas, deparei-me com o seguinte texto no indispensável Tijolaço (blog que presta verdadeiramente um belo serviço à nação, mantido pelo jornalista Fernando Brito) sobre fatos recentemente noticiados:

Leo Jaime, na música que Eduardo Dussek tornou conhecida em todos país, sugere que se “troque seu cachorro por uma criança pobre”, pedindo que se Seja mais humano / Seja menos canino / Dê guarita pro cachorro/ Mas também dê pro menino / Senão um dia desse você / Vai amanhecer latindo”

Pois não foram poucos os latidos, nas redes sociais apoiando o monstruoso chicoteamento – amordaçado, nu e amarrado – do adolescente que furtou um chocolate de um mercado em São Paulo, que não despertou tanta revolta quanto a morte do cachorrinho brutalmente morto a pancadas pelos seguranças do Carrefour [fato ocorrido em fins de 2018].

O filho do presidente, Eduardo, chegou a postar vídeo dizendo que quem fez aquilo com o cão não merecia o nome de ser humano. Ninguém da família presidencial lamentou que um ser humano tivesse sofrido o que nem um animal merece passar.

Na mosca, Fernando. Apesar do tom bem-humorado com que Dussek cantava e canta seu repertório, “Rock Da Cachorra” é mesmo uma obra seríssima. O divertido arranjo conduzido por João Penca e Seus Miquinhos Amestrados ajuda a despertar a simpatia do ouvinte para um recado dos mais diretos, a quem sente mais compaixão para com os animais (que, sim, merecem nosso cuidado) do que para com nossos irmãos humanos.

As gravações que foram reproduzidas nos veículos midiáticos, mostrando um garoto negro apanhando nu com chicotadas, são estarrecedoras. Nenhum crime justifica tamanha agressão e humilhação dirigida a um ser humano. “Como sempre, a esquerda aparece para defender vagabundo!”… Não se trata disso. A civilização criou dispositivos próprios para lidar com a criminalidade, em nível preventivo, repressivo ou legal. Já a  tortura é ela mesma um crime hediondo e deve ser combatida – já dizia a Declaração Universal dos Direitos do Homem, esse documento septuagenário que é nosso ilustre desconhecido.

O ato criminoso dos seguranças do supermercado, autores da agressão, só demonstra o quão precisos foram Leo Jaime e Dussek, quando vislumbraram que a perda de empatia para com o próximo é um primeiro passo para a desumanização completa: “Senão um dia desse você / Vai amanhecer latindo”.

Pois é, como notou o Brito, a reação do público à notícia – na linha do verso “Tem que bater, tem que matar, engrossa a gritaria” da obra buarquiana “As Caravanas” – mostra que já estamos latindo. (Se ofendi os cachorros, que me perdoem).

E assim fica difícil vislumbrar um futuro de paz e prosperidade para nossa raça. Começo a pensar que um mundo dominado pelos cães seria bem mais humano.

eduardo-dusek.jpg
Eduardo Dussek: no “Rock Da Cachorra”, uma crítica inteligente e bem-humorada que permanece (tristemente) atual.

Em Eduardo Dussek é show (2011) consta uma releitura ainda mais divertida para a canção. Destaque para a participação da plateia (conduzida pelo cantor) e para as passagens em inglês (incluindo os latidos!):

Já no DVD Festa PLOC 80’s: a melhor festa anos 80 (2006), Dussek traz uma performance que turbina com peso e punch o arranjo original da canção:

As Frenéticas, em Diabo a quatro (1983), apresentaram uma versão para “Rock Da Cachorra” com um arranjo vocal que valoriza seu canto uniforme em uníssono:

O Pato Fu, que também busca, frequentemente, no humor o elemento para potencializar sua mensagem, regravou “Rock Da Cachorra” em Música de brinquedo 2 (2017) – álbum em que, pela segunda vez, a banda mineira traz releituras de clássicos nacionais e internacionais utilizando instrumentos e objetos do universo infantil. Muito fofinhos os latidos das crianças na faixa! Divirta-se:

3 comentários

  1. O que fizeram com o rapaz é horrível,e tinha de ser nu,suprema humilhação.Parece que um dos seguranças já está preso,quem apóia um ato daqueles publicamente devia ser punido também.

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