249. Serena Assumpção: “Oxalá”

Oni saurê
Aul axé
Oni saurê
Oberioman
Saurê
Aul axé
Oni saurê
Oberioman


Você já experimentou comprar algum álbum só por causa da capa?

Fiz isso algumas poucas vezes já que, geralmente, não poderia me dar ao luxo de arriscar adquirir algo que desagradasse aos meus ouvidos, considerando o dinheiro minguado.

Não vou falar das vezes em que a experiência fracassou, preferindo compartilhar o caso em que essa atitude temerária deu certo. Foi quando, em 2017, passei por um Sesc (não sei se o de São Carlos ou o de Santo André) e, no espaço dos produtos em exposição, me deparei com a belíssima arte de Ascensão (2016), álbum póstumo de Serena Assumpção (filha de Itamar, cujo post aqui no 365 Canções – “Nega Música” – está fazendo um inesperado sucesso, estando no Top 20 do blog):

asecensao

Foi paixão à primeira vista! Depois, fui conferir a lista de canções e notei que quase todas recebiam nomes de orixás. Disco do Selo Sesc, da família Assumpção, com faixas dedicadas à afrobrasilidade… pensando bem, não comprei Ascensão apenas pela capa.

Serena, que padeceu de câncer em 2016 com apenas 39 anos, foi verdadeiramente a organizadora de uma obra coletiva. Embora as faixas, em geral, refaçam temas do domínio público cristalizados como cantos do candomblé, inúmeras vozes, mãos e corpos dão vida a Ascensão. Cada faixa, assim, foi executada por uma formação diferente, às vezes emulando as cantorias populares, às vezes criando versões com sabor afrobeat para famosos pontos, ou então promovendo uma síntese entre tudo isso.

Curiosamente, o único orixá que, cultuado em praticamente em todos os terreiros, não recebe uma faixa com seu nome, é Oxóssi (e, para saber mais sobre ele, leia este post). No entanto, ele tem seu lugar no álbum, com “Pavão”. A menção aos caboclos, na faixa, além da arte de um ofá (o arco e flecha do orixá) próximo à letra, no belíssimo encarte, nos certifica de que o santo da nação Ketu não foi deixado de lado.

Falando no encarte, chama a atenção o capricho materializado no generoso livreto com nada menos que 32 páginas, com textos, ilustrações e muito espaço para as letras e a ficha técnica das faixas. A que escolhi para o post de hoje, “Oxalá”, ocupa duas páginas:

oxala

Alocada ao final de Ascensão, “Oxalá” é dedicada a Heitor Villa-Lobos, outro grande entusiasta das raízes africanas da música brasileira. Uma das poucas canções do disco com participação vocal da própria Serena, a obra formata num tom solene uma mescla de elementos eruditos (flauta, orquestração) com uma sonoridade quase indie (com destaque para as guitarras de Pipo Pegoraro).

Já a letra reproduz um antigo canto a Oxalá – a figura mais paternal do panteão do candomblé, sincretizado à imagem de Jesus Cristo – que escutei, pela primeira vez, encerrando uma faixa de Martinho da Vila, “Festa De Candomblé” (de Novas palavras, LP de 1983 que rodou bastante na república que mais frequentava durante meus tempos de estudante):

Fica o convite para que você escute Ascensão do começo ao fim, pois o disco é sublime, sendo uma pena que Serena não tenha sobrevivo para ver a ótima recepção da crítica ao álbum. Preste atenção à sonoridade das faixas “Exu” (com a bonita voz de Karina Buhr), “Ogum” (que traz Tulipa Ruiz no coro), “Oxum” (com voz de Xênia França) e uma de minhas preferidas, “Obaluaiê” (com voz lead de Filipe Catto).

serena-assumpcao.jpg
Serena: mantendo a tradição das obras reverentes e elaboradas com muita diligência, associadas ao sobrenome Assumpção.

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