250. Ney Matogrosso & Aquarela Carioca: “Notícias Do Brasil (Os Pássaros Trazem)”

Uma notícia está chegando lá do Maranhão
Não deu no rádio, no jornal ou na televisão
Veio no vento que soprava lá no litoral
De Fortaleza, de Recife e de Natal


Depois de três anos de atuação contínua no movimento estudantil, me via diante de meu maior desafio, enquanto militante, até então: participar dos bastidores de uma enorme movimentação e da construção de uma greve.

O ano era 2007 e o então governador de São Paulo, José Serra, tinha editado uma série de decretos que interfiriam na autonomia universitária. O teor das normativas passava da reorganização administrativa da estrutura da educação superior (que ganhava uma secretaria à parte da Secretaria Estadual de Educação, sendo comandada por José Aristodemo Pinotti – conhecido por ter sido nomeado por Paulo Maluf, em 1981, como reitor na Unicamp, apesar da preferência dos corpos docente e discente pelo nome de Paulo Freire) até uma tentativa de determinar o teor das pesquisas realizadas nas universidades paulistas (endossando uma visão de ciência “operacional”).

Na USP São Carlos, estava matriculado na pós-graduação e, na parte da noite, cursava outra graduação, o que me permitia exercer atividade dirigente no Centro Acadêmico Armando de Salles Oliveira (CAASO) – nada menos que o maior centro acadêmico da América Latina. Como Secretário Geral, cabia a mim redigir e organizar a correspondência interna e externa da entidade, preparar os editais e divulgar os resultados das eleições estudantis e lavrar atas de reuniões e assembleias. Tais atividades, obrigatoriamente, exigiam que eu acompanhasse de perto a atuação militante de nossos associados e dos coletivos de estudantes, que movimentavam bastante o campus naquele período efervescente.

Assim, participei de incontáveis reuniões, até altas horas das madrugadas, que discutiam as estratégias para a luta que se anunciava, já que estávamos dispostos a derrubar os decretos de Serra a um a um. A luta era unificada entre as categorias dos trabalhadores e dos estudantes, as três universidades públicas paulistas se irmanavam em atos e ocupações e a opinião pública não manifestava tanta ojeriza à educação superior, como se vê atualmente. Ou seja, nada tínhamos a temer.

Mas muitas dificuldades se impunham em nosso caminho. O corpo dirigente da universidade, quando não apoiava explicitamente os decretos do governador, demonstrava no mínimo má vontade para com a pauta estudantil – que, a cada assembleia, se tornava maior, exigindo a contrução de novos blocos de moradias, melhores condições no restaurante universitário, a criação de comissões oficiais para discutir as políticas de permanência estudantil, etc. Mesmo entre colegas estudantes encontrávamos resistências, principalmente a partir do momento em que conseguimos, heroicamente, aprovar uma greve geral estudantil, acho que no dia 17 de maio.

Havia sido constituído, na universidade, um comitê de mobilização. Nós, dirigentes do CAASO, não participávamos enquanto membros, mas assistíamos às reuniões e estávamos integrados às discussões. Como disse, minha própria atuação como secretário geral da entidade conduzia a uma natural aproximação para com esse grupo, de sorte que vim a participar de sua lista de e-mails.

Certa noite, após mais uma enfastiante reunião, saí da universidade cabisbaixo. Fazia frio e o mais adequado seria que eu pedalasse aqueles 6,5 km diretamente até minha casa. Mas senti a necessidade de caminhar, de ficar sozinho com meus pensamentos, pois não encontrava paz: não havia saída para a questão universitária brasileira; os donos do capital iriam emparelhar nossas atividades e transformar a USP num apêndice do setor empresarial; jamais desfrutaríamos de democracia e de relações menos assimétricas entre professores, servidores e estudantes. O fatalismo começava a me ganhar, já não havia quase esperança, a luta era vã.

Foi quando, empurrando a bicicleta na Baixada do Mercadão (um enorme desvio de meu caminho para casa), lembrei de uma canção que alguém, sem motivo aparente e sem qualquer comentário, apenas encaminhou para a lista de e-mails do comitê de mobilização: era “Notícias Do Brasil (Os Pássaros Trazem)”, na versão de Milton Nascimento. Composta pelo próprio Bituca e por Fernando Brant, a obra fora apresentada no álbum Caçador de mim (1981), com arranjo orquestral assinado por Milton e Wagner Tiso, mais a participação de Hélio Delmiro na guitarra.

Se quem compartilhou a canção – não me esqueço, foi com um arquivo .mp3 encaminhado como anexo! – desejava exortar aquele conjunto de jovens militantes, foi bem-sucedido. Pelo menos no meu caso. Naquela caminhada solitária noturna, a lembrança dos versos de Brant verdadeiramente desemaranhou os nós que faziam de meu pensamento um novelo de desesperança. Pois dizia a letra, num quase trava-língua que sempre impediu que eu conseguisse acompanhar o canto de Milton: “Aqui vive um povo que merece mais respeito / Sabe belo é o povo como é belo todo amor / Aqui vive um povo que é mar e que é rio / E seu destino é um dia se juntar / O canto mais belo será sempre mais sincero / Sabe tudo quanto é belo será sempre de espantar / Aqui vive um povo que cultiva a qualidade / Ser mais sábio que quem o quer governar”.

“Notícias Do Brasil”, naquela noite, me salvou. Era isso o que me faltava: o reconhecimento da fibra, do espírito aguerrido, da disposição de nosso povo em não recuar diante das dificuldades. Faltava enxergar que, sozinho, eu jamais conseguiria fazer nossa luta avançar um único milímetro. Nem eu, nem nenhum outro militante. A luta é, por definição, coletiva: estávamos todos juntos, não sentiríamos o peso da opressão (e da repressão) sozinhos, construiríamos democrática e inteligentemente (pois não podíamos desprezar nossa inteligência, nossa capacidade de examinar os problemas da questão educacional brasileira para muito além de sua superfície) saídas e soluções para todos os impasses que nos rodeavam.

A luta de 2007, assim, foi vencedora. Os decretos foram (parcialmente) esvaziados e o governador precisou recuar, publicando um “decreto declaratório”, categoria documental jurídica de que ninguém jamais tinha escutado falar. Mas, já no ano seguinte, novas lutas se anunciavam e, em meio àquelas mobilizações, meu espírito militante se esvaíra: afastei-me das lideranças de esquerda e comecei a participar das assembleias apenas para polemizar. Isso também durou só um tempo, e logo eu estaria novamente vestindo o vermelho.

De qualquer forma, “Notícias Do Brasil” me salvou, por muito tempo, da desesperança, e me impeliu a não desmorecer, num momento crucial.


ney-matogrosso.jpg
Ney Matogrosso: um exótico arauto de (boas) novas para o Brasil.

Em 1993, Ney Matogrosso, reunido com o grupo Aquarela Carioca, lançou o álbum As aparências enganam. Ali, consta uma versão matadora para “Notícias Do Brasil (Os Pássaros Trazem)”. O arranjo promove um encontro sincopado entre percussão, baixo e guitarra, que é o grande diferencial em relação à versão de Milton. Essa instrumentação, que mescla elementos regionais com a sonoridade rock, permaneceria sendo explorada na obra de Ney – você pode observar ela presente, também, no tema prévio do cantor mato-grossense que trouxemos ao blog, “Jesus”.

A versão, entre tantas outras já gravadas, me parece a definitiva. Além do canto sempre preciso de Ney, o grande destaque fica para esse monstro que é Marcos Suzano, ao pandeiro.

De qualquer forma, não deixe de escutar a gravação original de Caçador de mim, que traz a voz divina de Bituca, embora a produção não tenha sido generosa com os timbres dos instrumentos:

2 comentários

  1. É,eu estou bem longe do litoral,que foi onde o Brasil oficial nasceu e desenvolveu – A interpretação do Ney Matogrosso é mais enfática,e o arranjo também é superior à gravação de Milton Nascimento,na minha,na sua e na nossa opinião,rs.

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