252. Wilson Sideral: “Nada Por Mim”

Você me tem fácil demais
E não parece capaz
De cuidar do que possui
Você sorriu e me propôs
Que eu te deixasse em paz
Me disse vai e eu não fui


Em 1999, comprei meu primeiro número da revista Showbizz. O volume era, de fato, “volumoso” – contendo nada menos que 100 páginas – e trazia uma enorme e muitíssimo bem elaborada reportagem de capa, com o hiperbólico título “Como o rock marcou o século 20”.

Varei aquele mês de agosto – que demorou muito a passar, até chegar nas bancas a edição seguinte, n. 170 – devorando a revista, primeira publicação, com textos consistentes sobre música, que pude folhear.

É certo que, então, já havia lido sobre artistas e canções em outras publicações. Meus pais, por algum tempo, compraram a Folha de S. Paulo aos domingos, porque o jornal trazia consigo fitas VHS que compunham a “Videoteca Folha”, e cheguei a ler algumas matérias musicais ali, entre os 12 e 13 anos. E quando precisava ir ao médico, sempre que encontrava alguma Veja ou Isto é na sala de espera, ia direto procurar pelas reportagens sobre o assunto. Lembro também que minha mãe, por volta de 1998, começou a aparecer em casa com os exemplares mensais da Veja kid +, efêmera publicação da Abril que buscava se aproximar do universo infanto-juvenil ou, mais precisamente, adolescente: ali também sempre tinha algo sobre música. E, por fim, acabo de me recordar que a revistinha Heróis, cuja substância principal eram matérias sobre a série animada Os Cavaleiros do Zodíaco, também trazia “quentíssimas” notícias musicais.

No mais, naquele 1999, estava empolgadíssimo com minha recém-descoberta habilidade em guardar nomes de artistas, álbuns e canções, bem como de suas datas de lançamento, estouro ou morte. Devorava todas as leituras possíveis, à procura de uma simples notinha de rodapé que falasse de alguma obscura banda dos anos 1980. Nisso, perdi alguns intervalos das aulas, na boa e velha Escola Estadual Jesuíno de Arruda, procurando e lendo os verbetes “Titãs” ou “Legião Urbana” entre os infinitos volumes vermelhos da Larousse ou da Barsa (que saudade daquela biblitoteca!).

Assim, ter em mãos uma publicação inteiramente dedicada ao assunto era, de fato, uma bênção, e valia a pena economizar no dinheiro do lanche para, a cada mês, buscar o novo volume da Showbizz (e depois, da 89 – revista rock, e da Rock press) – que, a partir daquele agosto de 1999, começava já a ser automaticamente reservado para mim pelo sempre chapa Erick, o dono da banca de jornal do bairro.

Enfim, tudo (incluindo o desejo de escrever sobre música, aqui finalmente realizado) começou com esse monte de papel, há exatos 20 anos:

showbizz-169

E escrevo isso percebendo que soube da existência do artista do post de hoje, Wilson Sideral, justamente nessa minha primeira aquisição da Showbizz. Entre as páginas 48 e 49, uma reportagem de Terence Machado traçava o perfil do jovem cantor, compositor e guitarrista nascido em Alfenas-MG. A chamada da matéria destacava que Sideral estava na boca do povo, pois o hit “Fácil”, então estouradíssima canção do Jota Quest, era uma composição sua, junto de seu irmão Rogério Flausino, o vocalista do conjunto.

A matéria (dum tempo em que o cantor ainda assinava seu nome como Wilsom, com “m” no final) fazia parecer que Sideral, lançando seu álbum de estreia (intitulado simplesmente 1), era mais simpático e detinha um gosto musical mais refinado que o de seu irmão. De qualquer forma, era inegável que os timbres das duas vozes soavam (e soam) absolutamente idênticos – como vim a descobrir ao início de 2002, quando adquiri uma coletânea de números apresentados no festival Pop Rock Brasil, em Belo Horizonte, que trazia uma boa versão ao vivo para “Zero A Zero”, de 1.

wilson-sideral
Wilson Sideral: uma identidade para além de irmão-do-vocalista-do-Jota-Quest.

Pano rápido. Nesse mesmo 1999, os Paralamas do Sucesso gravaram seu Acústico MTV e , acho que por volta de setembro, se apresentaram ao vivo no Domingão do Faustão. Videocassete preparado, botão no rec… e tenho a fita até hoje.

A banda tinha incluído no repertório do show acústico uma boa versão para “Que País É Este”, da Legião Urbana – cujo guitarrista Dado Villa-Lobos participou também da gravação completa do especial da MTV, além de estar presente em algumas datas da (curta) turnê acústica que se sucedeu. Nessa participação na TV aberta, enquanto Herbert Vianna cantava os versos finais de Renato Russo, cenas de um antigo especial da Globo eram exibidas num telão, atrás dos músicos: eram os mesmos Herbert e Renato cantando alguma coisa, sozinhos.

Por algum tempo, tentei descobrir, em vão, que raio de apresentação (histórica) era aquela, da qual a Globo detinha as fitas. Apenas dois anos depois, quando o Video show exibiu matérias sobre a Legião durante uma semana inteira, é que saquei que aquele era um especial que reunia os dois conjuntos, havendo dois números conjuntos: um trazia as duas bandas ao palco, completas, tocando “Ainda É Cedo”; o outro, mais intimista, unia apenas Herbert com sua Les Paul (meu sonho de consumo!) e Renato, cantando “Nada Por Mim”.

Na internet, era possível encontrar fragmentos da apresentação, sempre com qualidade abaixo da desejável. Somente em 2009 – portanto, 10 anos depois de ter assistido, pela primeira vez, a algumas míseras cenas do show – é que a EMI-Odeon lançaria, como CD e DVD, Legião e Paralamas juntos, trazendo (quase) todos os números do lendário show no Teatro Fênix, incluindo aquela embasbacante versão para “Nada Por Mim”.

Como a canção é uma parceria entre Herbert e Paula Toller, trata-se do único registro oficial de Renato cantando algo de sua amiga cantora do Kid Abelha. Confira:


E eis que, 10 anos após o lançamento de Legião e Paralamas juntos; 20 anos após a matéria da Showbizz e o show dos Paralamas no Domingão; e 30 (na verdade, 31) anos após o histórico encontro entre Herbert e Renato no Teatro Fênix, Wilson Sideral reaparece com uma gravação ainda mais blueseira para “Nada Por Mim”, que será incluída em seu vindouro álbum Tropical blues, vol. 2.

O arranjo valoriza timbres e instrumentos antigos (incluindo um charmossíssimo piano Wurlitzer, outro sonho de consumo) e conduz a canção quase ao gênero do slow blues. Assim, “Nada Por Mim” fica ainda mais passional do que já era em sua versão original – gravada por Marina Lima em Todas (1985) –, ressaltando os revezes que marcam um percurso fórico baseado em alternâncias entre conjunções instáveis e disjunções indesejáveis.

Tudo isso é auxiliado pela oportuna harmonia desenhada por Herbert Vianna, com acordes invertidos, sétimas, sétimas maiores e um tenso C7add9♭Uma prova, das mais contundentes, que a turma do BRock sabia ir além da cartilha punk, criando harmonias que, se não superavam, ao menos emulavam muito bem o estilo bossa-novista.


“Nada Por Mim” foi regravada por muita gente, assim, escolherei apenas duas versões mais significativas – já confessando, aqui, que considero a versão de Sideral a definitiva.

A primeira, claro, tinha que ser a original, de Todas. Infelizmente, a produção oitentista acaba com a contundência da interpretação de Marina – cujo timbre rouco cai como uma luva para a bossa-blues de “Nada Por Mim”:

E a outra gravação é a do Kid Abelha, no acústico Meio desligado (1994), representando o primeiro registro vocal de Paula Toller para sua canção. Melancólica e bonita… ouça:

9 comentários

  1. Eu comprei algumas edições da revista Showbizz,inclusive a que ilustra o post.Minha cidade é tão pequena que nunca teve banca de jornais e revistas,comprava quando viajava.

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    1. Que legal, você também comprava! O interior onde vivi era mais cosmopolita e tinha bancas pra todo lado. Mas eu gostava mesmo é de comprar as revistas na banca do bairro. Sou amigo do jornaleiro até hoje, embora ele tenha mudado de profissão há tempos.
      Grato pelo comentário.

      Curtido por 1 pessoa

  2. Que texto primoroso! Quanta pesquisa, dedicação, paixão e honestidade!! Muito obrigado pela lembrança carinhosa. W. Sideral

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    1. Grande Wilson! Eu é que agradeço pelos elogios. Se eu imaginasse que o texto chegaria até você, teria me esforçado mais. Fico até sem jeito…
      É uma honra receber sua visita aqui!
      Grande abraço e grato pelo comentário.

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    1. Esse perigo está um pouco afastado daqui, porque só tematizo coisas de que gosto. Assim, impera o tom elogioso! A ideia é justamente destacar os elementos positivos da produção cancional brasileira. Não vejo muito sentido em criar um projeto para lançar energia negativa no ar.
      E percebo que você visita o blog também com esse espírito de escuta atenciosa e aberta à positividade. Acho isso muito bacana.

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  3. Tinha uma coletânea, acho que da som livre, que tinha uma versão de ” Bem que se quis ” muito “blueszeira” do Sideral. Grande músico!

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    1. Essa gravação era mencionada na matéria da Showbizz, de que falei no post. Naquela época, só adquirindo o disco para escutar alguma de suas faixas, e era uma grande frustração não poder ouvir essa versão de “Bem Que Se Quis”.
      Certo dia, assistindo a um programa musical, passou uma reportagem sobre o Sideral, comentando “1”. A matéria falou que o álbum transitava por diversos gêneros e, quando mencionou o blues, apareceu justamente um trechinho dessa canção. Eu demoraria ainda muitos anos até escutar, finalmente, esse registro por inteiro!

      Enfim, boa lembrança, e grato pelo comentário.

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