253. Hermes Aquino: “Desencontro De Primavera”

Uma andorinha, no céu, passou e disse
Que o amor que eu tinha foi-se embora
Ai, desacerto que cruza nossas vidas tão normais
É solidão que já vem,
É alegria que vai


O ano de 2006 foi engraçado e saudoso. Lembro dessa era, principalmente, como aquela dos últimos períodos da (primeira) graduação, quando a euforia de uma provável formatura enchia a mim e aos meus colegas de ânimo e alívio.

Foi também o ano em que me encontrei, academicamente: após uma tentativa de iniciação científica na área de engenharia de materiais, comecei a paquerar outro campo de investigação, a educação em química.

Se no ano anterior busquei me “aprochegar” desses estudos, a necessidade de elaborar um trabalho de conclusão de curso me empurrara para um caminho sem volta: após fracassadas conversas iniciais com possíveis orientadores de outras instituições, acabei encotrando quem me acolhesse em minha própria faculdade, nosso ex-professor de Química Orgânica (a I e a terrível II), o Aprigio. Ele propôs um trabalho ambicioso e original com livros didáticos para as séries iniciais do ensino fundamental, em que eu deveria mapear tópicos de química em meio àqueles conteúdos elementares. Química para as criancinhas?

E tinha. Não era pouca coisa: geralmente nos volumes para a 3ª série (atual 4º ano), apareciam muitos assuntos químicos, como a fotossíntese, a decomposição da matéria orgânica e até algumas propostas de experimentos que apresentavam às crianças, explicitamente, o universo da química, nomeando o vinagre e o bicarbonato de sódio como reagentes, o gás carbônico como produto, entre outras ousadias.

Bom, para chegar a essa conclusão – ostentada com enorme orgulho em meu TCC, mas imprestável em termos de possibilidades para publicação em alguma boa revista – precisei folhear os 4 volumes de 37 coleções de livros didáticos de Ciências, candidatos a serem distribuídos às escolas públicas brasileiras pelo Programa Nacional do Livro Didático.

A tarefa, que parecia simples, se estendeu por meses a fio (lógico, eram quase 150 livros com cerca de 200 páginas, que precisavam ser lidas e examinadas, uma por uma). Ao menos, as condições de trabalho eram excelentes: como os livros estavam armazenados numa pequena sala, no Centro de Divulgação Científica e Cultural (CDCC-USP), acabei ganhando um local de trabalho silencioso, relativamente apartado das outras atividades dos arredores e… só meu.

A rotina, iniciada em maio daquele ano, era essa: acordava antes das 7h e, às 8h, estava na “minha” salinha. Mas, efetivamente, começava a folhear os livros não antes das 8h30. Isso porque sempre havia alguma boa distração. Uma delas era a obrigatória leitura de pelo menos um texto do livro Millôr no Pasquim, de título autoexplicativo, uma antologia de crônicas assinadas por um dos maiores escritores brasileiros, e que eu acabara de adquirir numa feira de antiguidades. (Hoje, o volume jaz orgulhosamente restaurado, capa dura com letras prateadas e tudo, sobre meu criado mudo).

Quando terminei o livro, encontrei outros passatempos, e me arrependo muitíssimo de não ter guardado o resultado de um deles: um singelo, mas bonito desenho, que acompanhava a letra de uma canção. Era “Nuvem Passageira”, de Hermes Aquino, um cantor que acabava de conhecer, e que havia me tocado de forma muito intensa.

A efemeridade do existir, tão bonita e melancolicamente expressa na segunda estrofe da obra – “Não adianta escrever meu nome numa pedra / Pois essa pedra em pó vai se transformar / Você não vê que a vida corre contra o tempo / Sou um castelo de areia na beira do mar” –, me incitara a ir rabiscando, diariamente, o desenho de um pequeno castelo em meio a amedrontadoras ondas, gastando-se mais alguns dias para a completa transcrição da letra, na melhor caligrafia possível.

Agora vejo: aquilo era uma espécie de terapia ou de preparação para o fastidioso trabalho de folhear, ler, folher, ler, anotar, folher, ler, etc.

Mas onde é que fui enfiar o que sobrou daquele rudimento de arte-terapia? O resultado ficou bom demais para que eu simplesmente tivesse jogado fora. E agora saco a ironia: “Nuvem Passageira” é exatamente sobre esse tipo de evento: a forma como uma obra penosamente construída é tragada e desfeita pelo tempo.


Ao final do ano, visitei o sebo sãocarlense Outros Contos, com algum dinheiro no bolso, e fiz algumas aquisições. Comprei um CD para a namorada de então – na verdade, comprei-o para mim, e passei a ela uma cópia de meu próprio acervo, mais bem cuidada –, uma preciosidade de Belchior (de que falei aqui) e o maior achado da expedição: Desencontro de primavera (1977), de Hermes Aquino, com “Nuvem Passageira” e tudo.

Encontrar tamanha raridade me deixou muito contente, e passei todo o início de 2007 mergulhado nesse disquinho. Infelizmente, a edição que adquiri nada trazia no encarte, exceto uma calorosa mensagem do artista, em sua própria caligrafia:

Foi uma nuvem que passou na minha vida. Foi uma nuvem que me fez conhecê-los e amá-los.

Aqui vai mais um pouco de mim. Em cada faixa uma vida, e em todas as vidas o som de cada um.

Obrigado aos músicos e ao pessoal da gravadora.

Tudo de bom pela vida afora.

1 abração

Hermes – 16-2-77

Como disse, Hermes Aquino trazia “Nuvem Passageira”, o principal sucesso do cantor gaúcho, mas havia outras pérolas (em meio a algumas bobagens, é bom dizer). Gostava muito de “Cuidado” (“Cuidado com quem protege / Cuidado com quem corrige / Cuidado com quem dirige / Cuidado com quem não vê / Cuidado com a porta aberta / Cuidado com a hora certa / Cuidado que a fome aperta / E você vai se arrepender”) e “Bola Louca E Colorida”, que pensei dialogar com “Velha Roupa Colorida” de Belchior (mas, em verdade, era uma canção bem mais desesperançosa e, como “Nuvem Passageira”, quase niilista: “O mundo é bola louca e colorida / Quem pensa que é sabido / Nem vai ver / Que as coisas acontecem / Assim sempre foi / Sempre vai ser / Hei! Não vá desanimar / A vida é sem parar / É só você viver / E sofrer, e sofrer, e sofrer”).

Mas as favoritas eram duas canções que reproduziam a sonoridade de “Nuvem Passageira”, no meio termo entre o fado e o reggae: “Cavaleiro Do Sul” e a faixa de abertura, “Desencontro De Primavera”. Quando escutei essa última, precisei tomar um fôlego, tão logo a canção findara: quanta melancolia! E corri a escutar de novo, e de novo, e de novo…

No relativamente incomum tom de Dó Menor, “Desencontro De Primavera” fala sobre “Uma tristeza que corta a alma da gente / Antes que a primavera se decida / A pôr as flores nos campos / E o verde nas folhas, / Com banhos de mar”. E arremata: “O sol por sobre a cidade, / O vento vai cessar”, antes de apresentar o tristíssimo e metafórico refrão: “Ah! A solidão é uma canoa / Navega o corpo e a alma voa / Além do céu, além do mar / Ah! No pensamento a gente voa, / Qualquer problema é coisa à toa, / Fica tão fácil de se amar”.

É de cortar o coração, pois nem mesmo a primavera – estação de fertilidade e renovação – é capaz de proporcionar um cenário para além do estado disfórico que invade a alma do sujeito enunciador. Ouso dizer: poucas vezes a depressão foi tão bem traduzida em canção.

E tente escutar, também de Hermes Aquino, uma canção que compartilha do mesmo tema – quiçá seja o mesmo personagem que a canta –, “Longas Conversas”: “São tantas as horas que eu passo sozinho / Que eu fico pensando que eu sou uma ilha / Perdido no oceano sem sonhos nem planos / De dores e prantos já tenho uma pilha […] / Já não precisas mais voltar / Pois na tua volta quase nada vais achar / Já não preciso de você / Me fiz poeta inspirado no sofrer”.

Hermes Aquino saiu do radar da mídia, exatamente como uma nuvem passageira. Mas suas canções permanecem por aí – e aposto que o cantor não se importe em saber até quando.

hermes-aquino.jpg
Hermes Aquino, recentemente: vitalidade e juventude impressionante, ainda mais para o autor do verso “Sou um castelo de areia na beira do mar”.

“Desencontro De Primavera”, desde que foi lançada – como um compacto simples em 1976, e não no álbum Hermes Aquino –, foi regravada por muita gente.

A primeira versão que escutei foi do cantor Leonardo, em Canta grandes sucessos – volume 2 (2005). E ficou… ótimo! O canto choroso e dramático do goiano caiu como uma luva para a melancólica canção gaúcha, e o arranjo ficou majestoso, com destaque para os bandolins:

Já o autoproclamado “Rei do Forró”, Alcymar Monteiro, leva “Desencontro De Primavera” para ainda mais longe do chão sulista, transformando a canção num solene e, quem diria, elegante baião cearense. A faixa pode ser escutada em A voz do povo (2017) e, relevando-se as tropeçadas na letra, é de se admirar o esmero materializado no novo arranjo:

Agora vamos às curiosidades.

A primeira é a inacreditável – e muito, muito boa! – regravação em castelhano (!) e rock (!!!) do duo argentino Bárbara y Dick. A versão, intitulada “Desencuentro De Primavera”, consta em Cronología (1979):

E a outra é a versão do português Roberto Leal. Sei que nosso “brasileiro” é lindo, e que podemos sim cantar fado seja com sotaque gaúcho, caipira ou cearense. Mas confesso que “Desencontro De Primavera”, na pronúncia de Portugal, fica lindíssima. A canção está disponível em A fada dos meus fados (1988). Escute:

Novamente, a obra é tão boa que ninguém conseguiu fazer menos que bonito ao regravá-la.

5 comentários

  1. Viajei no tempo,eu tive uma professora de geografia que adorava essa música.Mas veja como são as coisas,a canção já era vista como antiga e perdida no tempo em 1979,ninguém sabia como encontrá-la.Hoje é só digitar Hermes Aquino e andorinha que a música aparece.

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    1. Que estória legal! No fundo, acho que fiz o blog na esperança de que as pessoas, ao comentar os posts, compartilhassem suas próprias narrativas sobre as canções-tema.
      E, sim, hoje é fácil, extremamente fácil, escutar quase qualquer obra de quase qualquer um.

      Curtido por 1 pessoa

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