254. Luiz Caldas: “O Velho Índio Apache”

Segui viagem pelo Colorado
E me esbarrei num velho índio apache
Eu tinha farda e era comandado
Sentia orgulho de mim, mas eu tive medo
Tive pena, tive dó, sem minha gente
Me sentia só, tremendo e temendo outra Nação


Quem é Luiz Caldas?

Por muito tempo, a resposta que daria a essa pergunta foi: “o inventor da axé-music”. E, dependendo do momento, acrescentaria à sentença um tom de lamento ou de admiração.

Na república de meus amigos de graduação, logo que a casa fora inaugurada em 2004, alguém apareceu com o LP Muito obrigado (1988), desse cantor nascido em Feira de Santana-BA (foi você, MP?). A capa trazia uma colorida fotografia do artista, que conhecíamos do hit “Tieta”, abertura da inesquecível novela global que adaptava a obra de Jorge Amado. A andrógina figura, com olhos maquiados e enormes brincos, ostentava uma túnica luxuosamente bordada e uma coroa de louros sobre a volumosa cabeleira. Já na contracapa, havia outra fotografia, menor e identificada com o título “A ceia”. Com uma farta mesa no primeiro plano, doze criancinhas rodeavam o cantor, de pé, posando de Cristo à da Vinci! E, na legenda da foto, constava a informação de que mais ou menos metade dos piás ostentavam o sobrenome Caldas, ou seja, eram seus filhos.

a-ceia.jpg

Achávamos graça no artefato, que começou a ser escutado diariamente naquela tumultuada e aconchegante residência. Em outras palavras, o disco era colocado pra rodar como curiosidade antropológica, não devendo ser levado a sério.

Mas, tanto ouvimos a obra – à beira da exaustão e do desgaste dos sulcos do LP – que, ao longo daquele ano inaugural da casa coletiva, quase todos que ali viviam (ou passavam, às vezes permanecendo mais tempo do que os próprios moradores) sabiam de cor ao menos uma canção de Muito obrigado.

Pois é, no início era zoeira mas, depois, ai de quem ousasse falar mal de nosso Luiz Caldas! E, afinal, o disco trazia boas canções, embora os arranjos e a produção não colaborassem. Talvez com um pouco menos de reverb nos vocais dos coros, ou outros captadores para registrar os sons da Stratocaster (no disco, quase sempre a chave estava na posição que liga os captadores do meio e da ponte da guitarra), e a obra soaria menos risível ou – o que é quase o mesmo – típica dos anos 1980.

Nossos grandes hits do disco eram o pop/rock “Atmosfera E Ar” (que abria o lado-B, com a participação de Lulu Santos na guitarra), a comovente canção título e, principalmente, as faixas do bacaníssima lado-A, que abria com a lambada “Odé E Adão” e trazia dois ótimos reggaes, “Nóbrega” e “Broto Trog”.

No meio do lado-A também estava a canção tomada como tema de hoje, a emocionante “O Velho Índio Apache”. Ou não captei a sutileza metafórica de Caldas – que compôs sozinho a maior parte das canções do álbum –, ou a obra traz realmente o relato de um viajante que, no Colorado, encontra um índio apache. Ao que parece, o viajor é um “cara-pálida” que, do alto de sua arrogância e alegada bravura inquebrantável, se percebe sozinho e perdido no deserto.

O índio, a princípio, seu inimigo, poderia capturá-lo, trucidá-lo, reduzi-lo a pó. Em vez disso, acolhe o cavaleiro extraviado, lhe oferece comida e – o mais importante – atenção. Diante de tanta nobreza de caráter, e agora ciente de sua pequenez e do absurdo de sua jornada, o cowboy desabafa: “Se por acaso sou um kamikaze, não foi porque quis / Eu tenho pai, mãe, filhos / Sou um trem fora dos trilhos, sem amigos / Sem teto, sem pátria, sem sol, sem luar / Eu montei em meu cavalo e galopei pra lá e pra cá / Mais perdido que bebê fora de casa, mas não parei.”

Que canção linda!

Instrumentalmente, destacam-se os teclados de Mú Carvalho (ex-A Cor do Som) e o coro, que traz as vozes femininas de Jussara Lourenço e das irmãs Nair Cândia e Jurema de Cândia (esta, pra quem não ligou o nome à pessoa, é desde 2001 backing vocal de ninguém menos que ele, o Rei, Roberto Carlos).

E então, voltemos à questão inicial: quem é Luiz Caldas?

Procure conhecer mais do cantor, para além deste relato sobre Muito obrigado. Escute a diversificadíssima produção cancional desse artista completo, que além de axés, gravou rocks, baiões, números instrumentais e bossa, muita bossa (já que o baiano é um fervoroso fã de João Gilberto). E repare, acima de tudo, que além de compor e de cantar (bem), Luiz Caldas e um instrumentista fantástico, um dos melhores guitarristas brasileiros.

Luiz é, em todos os sentidos e, no mínimo, nosso Prince.

luiz-caldas.jpg
Luiz Caldas: muito mais do que figura folclórica e pioneiro do axé (como se já fosse pouco!).

5 comentários

  1. Bola-Man, o senhor por aqui? Quanta honra!
    Realmente não conheço a fundo o assunto para emitir alguma opinião bem fundamentada. Mas acho que é por aí mesmo, pois certamente o Trio de Armandinho, Dodô e Osmar participou da construção do gênero, e o músico baiano tocou nesses primórdios dos trios elétricos. Gosto de lembrar, também, da presença de Carlinhos Brown e, claro, de Caetano, que concebeu “Atrás Do Trio Elétrico” como uma síntese entre o frevo e a marcha, percebendo o potencial desses ritmos (e de um possível ritmo novo, que mais tarde seria o axé) como algo emanado do carnaval, mas com vida independente, para além dos dias de folia. E se retrocedermos ainda mais, talvez pudéssemos situar um embrião do axé na obra dos Tincoãs – que, coincidentemente ou não, tiveram sua “Deixa A Gira Girar” relida pela Ana Mametto (que já integrou a banda de Daniela Mercury) como um legítimo (e literal) axé.
    Valeria uma tese pra investigar o assunto!
    Grato pelo comentário e pela contribuição.
    Abração e espero revê-lo em breve em Sampa.

    Curtido por 1 pessoa

  2. A música eu desconhecia;Luiz Caldas era figurinha fácil em programas de auditório nos saudosos-anos-oitenta.

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