255. Ronnie Von: “Cavaleiro Da Floresta”

Minha Mãe, me diga agora
Se meu Pai já me esqueceu
Meu caminho eu não encontro
Minha estrela escureceu
Onde está aquele verde
Que um dia já foi meu
Em que noite está escondida
A verdade que se perdeu?


Quando tinha 16 anos, li num volume da Showbizz que Ronnie Von – nome que, então, associava apenas à marcha “A Praça” de Carlos Imperial, abertura do humorístico A praça é nossa – havia gravado, nos anos 1970, ao menos um disco candidato a representar o ponto mais alto do rock psicodélico no Brasil.

Como pude conferir muito tempo depois, A máquina voadora (1970), com a explêndida canção-título, fazia jus aos predicados apontados na revista. E, apesar de realmente gostar muito de “A Praça” (terceira faixa de uma coletânea de sucessos dos anos 1960 que escutei bastante em 2010), de fato havia mais, muito mais, a se explorar na discografia do Príncipe.

Uma espécie de anti-Roberto Carlos, Ronnie nunca se envolveu com a Jovem Guarda, preferindo a companhia dos Mutantes e de Caetano Veloso. E após paquerar seriamente a tropicália, tomou rumos estéticos (talvez) mais ousados, nessa sua fase setentista.

É dessa época “Cavaleiro De Aruanda”, composta pelo guitarrista argentino Tony Osanah, dos Beat Boys (o conjunto roqueiro que acompanhou Caetano em sua antológica apresentação de “Alegria, Alegria”, no Festival de Música Popular Brasileira 1967). A origem da canção é impressionante. Segundo consta, o músico esbarrou num estranho de feições indígenas no centro de São Paulo, em 1972. Imediatamente, o homem virou-se para Osanah e, alegando que este precisaria de ajuda, o convidou para uma gira de umbanda. Apesar do espanto provocado pelo encontro fortuito, o músico – que, então, nada conhecia da afro-espiritualidade – topou participar da sessão mediúnica. Depois, já em casa, recebeu “Cavaleiro De Aruanda” num só golpe, como que psicografada. 

Com Ronnie, a canção ganhou vocais poderosos e uma fluência rocker-psicodélica, conjugados com uma pesada parede sonora de atabaques e um coro feminino. Era um legítimo ponto de umbanda! Tanto que, desde então, a canção foi incorporada aos rituais de diversos terreiros brasileiros. O seguinte vídeo, que mescla a canção com cenas do filme Janaína, a virgem proibida (1972), no qual Ronnie atua, é arrepiante, e mostra o grau de envolvimento do cantor niteroiense com o povo da pemba:

Mais tarde a canção, dedicada ao orixá Oxóssi, seria incorporada ao repertório de Ney Matogrosso (pelo que consta, um filho de Oxóssi e de Iansã) e ganharia boa projeção no incrível Tecnomacumba (2006), de Rita Benneditto (então, Rita Ribeiro).

“Cavaleiro De Aruanda” ganhou um espécie de continuação, ou canção complementar, chamada “Cavaleiro Da Floresta”. Composta por Ronnie com Osanah, a obra – lançada no compacto duplo Tranquei a vida (1977) – mantém um pé na psicodelia, ao mesmo tempo em que explora um balanço rock meio funkeado.

A letra traz um sujeito que, diante das desventuras da vida, roga a Oxóssi (o “cavaleiro da floresta / Sentado à direita de Oxalá”) forças para se manter de pé e reencontrar a pessoa amada: “Não sou herói, nem sou covarde / Mas um homem bem comum / Que perdeu-se de amores / Por uma filha de Oxum / Este amor deixei um dia / Escorregar por minha mão / Para ter ela de volta / Hoje peço proteção”.

Hoje Ronnie Von é um apresentador televisivo de sucesso, que parece ter deixado para trás seu passado de personagem subversivo da canção popular brasileira, sendo mais lembrado pela obra melosa e romântica que marcou parte de sua produção artística. De qualquer forma, seu legado como um dos mais inquietos artistas do rock nacional permanece, e já deixou sua marca na cultura.

Salve, Príncipe da Psicodelia!

ronnie-von.jpg
Ronnie Von: não se engane com esses ares de galã… atrás desses olhos verdes, uma mente fervilhante em loucas ideias musicais.

3 comentários

    1. Pois é, foi isso que tentei dizer no post (mas acho que falhei). Ronnie Von é associado com um “movimento” do qual ele discordava até a medula! Era mesmo um porra-louca, mas ficou com a imagem associada a um repertório comercial e de fácil digestão. Infelizmente!
      Grato pelo comentário.

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