256. Teago Oliveira: “Corações Em Fúria (Meu Querido Belchior)”

Era uma casa, anos 80, dez pessoas
Eu vi a roda girar
Sonhamos com um futuro imenso
Coisas boas
E o novo que ia chegar
Também vi o sapato sobre a lama
E o uniforme escolar


Como já disse anteriormente, Cronos está contra o blog. Não porque eu não disponha de tempo suficiente para aqui escrever – de fato, não o tenho em demasia, mas demos um jeito 256 vezes, e o princípio da indução me faz acreditar que assim será com a 257ª, a 258ª, a 259ª… –, mas porque nos restam poucos posts, para muitos artistas que ainda não receberam o devido destaque.

Sim, minha lista traz cerca de 40 nomes dos quais preciso, urgentemente, selecionar canções memoráveis, se não a outrem, ao menos a mim. É gente graúda, de repertório extenso, que certamente já consta na nossa nuvem de palavras “Quem canta/compõe” – aliás, você sabia que temos esse recurso aqui no 365 Canções Brasileiras? Fica lá embaixo, dá um conferes –, mas que ainda não recebeu um post só seu, como deveria.

Bom, todo esse discurso é para certificar o leitor de que sim, estou ciente das ausências incômodas e/ou imperdoáveis, e sei também que estou em falta com frequentadores assíduos que, até o momento, não viram seus pedidos serem atendidos (olá Bob, Jaque, Júlia…).

Mas quando a gente se depara com uma canção como “Corações Em Fúria (Meu Querido Belchior)”, não tem como não deixá-la de lado, não é mesmo? Por isso, cá estamos nós, hoje, atropelando a supracitada lista dos 40, e trazendo um artista contemporâneo que, se ainda não se firmou no cenário musical brasileiro, não tenho dúvidas de que, em breve, o fará.

Trata-se de Teago Oliveira, vocalista da banda baiana Maglore, que lançará na semana que vem seu primeiro álbum solo, Boa sorte. “Corações Em Fúria” foi divulgada recentemente como single e, por conta da menção ao bom e velho Bel, de que tantas vezes já falei aqui, me senti na obrigação de conferir esse som.

E devo confessar: este gélido coração se enterneceu imensamente com a nova obra de Teago. Mas o mérito não foi apenas do cancionista, pois escutei “Corações Em Fúria” a partir da versão do videoclipe. Essa conjugação entre imagem e som, realmente, mexeu muito comigo.

Deixa eu relatar o que senti.

Enquanto a letra falava de um momento passado em que o ato de sonhar, ainda que imperativo, era praticamente a substância única daquela coisa chamada liberdade (“Era uma casa, anos 80, dez pessoas / Eu vi a roda girar / Sonhamos com um futuro imenso / Coisas boas / E o novo que ia chegar / Também vi o sapato sobre a lama / E o uniforme escolar”), estava concentrado em apenas pescar nos versos alguma possível referência ao autor de “Alucinação”.

O “uniforme escolar” me lembrou vagamente a “normalista linda” de “Tudo Outra Vez”, e estava detido nessa imagem quando veio a segunda estrofe, o início de minha súbita comoção: “Suor no rosto, bom trabalho, alento / Abelhas mortas no pomar / Metralhadoras de combate, nesses tempos / De moças que não fingem mais / E um cantor amigo meu / Disse que ‘se tiver que ser na bala vai'”.

Para além da referência a “Se Tiver Que Ser Na Bala, Vai” (canção de Helio Flanders, gravada por seu Vanguart) – e lembrei também do “analista amigo meu” da “Divina Comédia Humana”, embora o “cantor amigo meu” tenha me levado, primeiro, ao “antigo compositor baiano” de “Apenas Um Rapaz Latino-Americano” –, essa estrofe soou como um instantâneo fidelíssimo dos contraditórios tempos atuais. Os versos trazem um léxico remetido a valores negativos (mortas, metralhadoras, combate, bala), ao mesmo tempo em que ressaltam o protagonismo das mulheres na luta contra o obscurantismo destes dias.

Enquanto isso, no videoclipe, se iniciava a série de execuções das coloridas (em todos os sentidos) pessoas perfiladas no paredão. Um a um, tombavam os atores, e logo vinha o poderoso refrão. Arrepios no corpo todo: “E tanta gente diferente podendo se amar / E os corações em fúria cruzam as américas / E os rapazes violentos e apaixonados / Já não são como você / Os tempos já mudaram / E uma guerra de repente pode estourar / E a nossa vida algum momento muda de lugar / Eu já beijei minha garota que dormia no sofá / Ano passado ela morreu / Mas esse ano vai brilhar”.

Os dois versos finais, parafraseados de “Sujeito De Sorte”, acenavam para algo além da disforia que imperava até então. Pensava nisso enquanto me regozijava pela simples menção aos rapazes “violentos e apaixonados”, expressão simétrica à que aparece em “Fotografia 3×4” (“A minha história é, talvez, / É talvez igual à sua, jovem que desceu do norte / E que, no sul, viveu na rua / E que ficou desnorteado, como é comum no seu tempo / E que ficou desapontado, como é comum no seu tempo / E que ficou apaixonado e violento como, como você”). Dá muito o que pensar: se os retirantes de ontem tinham lá suas justificativas para se converterem em marginais (apaixonados e violentos: a violência que vem após a paixão – esta, entendida como sofrimento, padecimento, dadas as agruras dos que abandonam o sertão e são atirados na dura realidade “dessas capitais”), apenas nos cabe lamentar a sorte dos contemporâneos playboys de arminha na cintura (violentos e apaixonados: o sofrimento das almas agitadas, essas que comemoram a tortura ou a eliminação sumária de quem lhe é diferente).

Destaco ainda, no refrão, as entoações vocálicas de Teago, que me lembram muito o canto anasalado de Bel: preste atenção na forma como soam os versos “E tanta gente diferente podendo se amar / E os corações em fúria cruzam as américas”.

Bom, até aí, eu já estava arrebatado.

Foi quando os executados, no videoclipe, começaram a se levantar, um a um, sobre a repetição da canção toda. E as mãos das pessoas ladeadas, que sonhei em ver unidas no início do clipe, finalmente se tocavam! Tem que ser muito insensível para não se emocionar, pois até o “homem de gelo”, aqui, precisou assoar o nariz depois de tudo o que viu.

A essa altura, o canto corajoso de Teago – que, na repetição do refrão, troca o verso “Eu já beijei minha garota que dormia no sofá” por “Eu já beijei o meu garoto que dormia no sofá”, o que me lembrou o procedimento análogo de Morrissey em “Sheila Takes A Bow” dos Smiths, mas lá, com significado político notavelmente menor – já havia imposto, para hoje, “Corações Em Fúria (Meu Querido Belchior)” como nosso tema. Nada me demoveria da ideia, e eis-nos aqui.

Ainda é cedo, e posso estar exagerando, mas acho que estamos diante da melhor canção de 2019. E pensar que, como afirma Teago, “Corações Em Fúria” foi composta, após uma sessão de análise, em apenas cinco minutos! (Mas, ao contrário de uma obra mencionada no post de ontem, não se alega ter sido fruto de psicografia).

Em tempo: a direção do videoclipe é de Victor Marinho, o mesmo diretor do vídeo de “Mantra”, do Maglore.

teago-oliveira.jpg
Teago Oliveira: homenagem emocionante e à altura da obra de Belchior.

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