257. Leoni: “Educação Sentimental”

Eu ando tão nervoso pra te escrever
Os versos mais profundos
Eu roço no seu braço enpasso sem mexer
Feliz por um segundo
É sempre a mesma cena, é só te ver no corredor
Esqueço do meu texto
Eu fracasso como ator
Só dou vexame e fico olhando pros seus peitos
Escorrego na escada
Acho que assim não vai dar jeito


Educação sentimental é o grande clássico do Kid Abelha (pela primeira vez, se apresentando sem os “Abóboras Selvagens” no nome da banda). O título foi emprestado do livro L’Éducation sentimentale (1869), de Flaubert, e é possível considerar o que o disco tem suas canções alinhadas por esse conceito referente à educação dos sentimentos.

Todas as composições do álbum são do baixista Leoni, a maioria, em parceria com outros membros do conjunto. Uma das três faixas compostas exclusivamente por ele é a canção de hoje, a própria “Educação Sentimental” – que tem uma continuação, “Educação Sentimental II”, curiosamente, apresentada anteriormente (no lado-A, enquanto nossa canção-tema está no lado-B).

A canção traz um sujeito que, confessando-se sem jeito para lidar com o sexo oposto, parece ter encontrado a solução para todos os seus problemas: um anúncio no jornal, com a proposta de um curso de… educação sentimental. E, confiante com o sucesso do novo diploma, aposta: “Ninguém vai resistir / Se eu usar os meus poderes para o mal”.

Há certa ambiguidade na letra: não se sabe se o enunciador conseguiu frequentar de fato o curso, ou se está apenas imaginando seus resultados. De uma forma ou de outra, nota-se que o personagem padece: afinal, só uma pessoa sentimentalmente doente poderia imaginar que, conhecendo algumas técnicas de paquera, poderia vir a controlar os outros a seu redor, não é mesmo?

Já cheguei a escrever num artigo acadêmico algo a respeito, que falou rapidamente sobre os seguintes dados. Observe os componentes curriculares do ensino médio, ao menos nas escolas de SP: Química, Física, Biologia, Matemática, Língua Portuguesa, Língua Estrangeira Moderna, Geografia, História, Filosofia, Sociologia, Educação Física e Arte. Os dez primeiros da lista se referem à educação do pensamento, pois abrangem os conceitos científicos, as operações lógicas, os fatos naturais e histórico-culturais, etc. O 11º se refere à educação do corpo, isto é, a apreensão dos aspectos motores ou, como diriam meus amigos que estudam a chamada ciência da motricidade humana, o se-movimentar – um aspecto fundamental do ser, também bastante negligenciado na educação escolar. E, por fim, temos o 12º componente, responsável justamente pela educação do sentimento – afinal, a arte é que nos educa para a sensibilidade, para a experiência e o controle das emoções, seja a alegria, a tristeza, o furor, a comoção, a empatia, a raiva, a angústia, etc.

A questão que se impõe é: por que, em 12 componentes do currículo, apenas 1 se refere à tal educação sentimental? Não será isso o que explica a enorme instabilidade emocional que acomete a todos nós, viventes desses conturbados tempos contemporâneos?

Apesar de, em sua época, Educação sentimental ter sido tomado como um disco tolinho (coisa que não o é), pode-se atribuir às composições de Leoni – as últimas do baixista na banda, antes de formar os Heróis da Resistência, de que falamos aqui – no Kid Abelha uma grande capacidade em radiografar a problemática do homem no contexto pós-moderno, em que uma das facetas está plasmada na questão acima.

Problemática, por sinal, nem um pouco resolvida, passados mais de 30 anos.

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Leoni: no Kid Abelha, composições pop, mas com mensagens que insistem em não perder a atualidade.

Das dez faixas de Educação sentimental, apenas duas têm o registro vocal principal de Leoni: a própria “Educação Sentimental” e “Conspiração Internacional”. Infelizmente, essas canções nunca mais foram tocadas ao vivo pelo Kid Abelha, desde a saída de Leoni.

A versão que abre o post, inclusive, é a que aparece em seu solo Áudio-retrato (2003), quando o baixista recolheu pérolas de seu repertório passado e as interpretou com uma roupagem semi-acústica. Com esse novo arranjo, a canção reapareceu, ainda, em Leoni ao vivo (2005):

Já a versão original, com Paula Toller nos backing vocals, é a seguinte:

E, pra quem não conhece (duvido muito), eis a continuação, “Educação Sentimental II”, parceria de Leoni, Paula e o paralama Herbert Vianna – clássico absoluto do BRock:

3 comentários

    1. O Kid Abelha dessa fase tem tanta coisa boa… mas nunca foi um conjunto levado a muito a sério, justamente por ser o mais pop/new-wave dentre seus congêneres de sucesso nos anos 1980.

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