258. Moacyr Luz e Armando Marçal: “Zuela De Oxum”

Me veio à mente um som
Não identifiquei, não
Peguei meu violão
E comecei a dedilhar
Então eu me toquei
Que o som, canção tão bela
Lembrava uma zuela
Que alguém vivia a zuelar
Parei de dedilhar
Pois as minhas mãos tremeram
Difícil confessar
Promessas não poder pagar


Sou apaixonado pelas composições de Moacyr Luz, como expliquei no post de sua maravilhosa “Vida Da Minha Vida”. Ali, manifestara o desejo de abordar outra composição sua aqui no blog, “Zuela De Oxum”. Pois chegou a hora.

Composta com ninguém menos que Martinho da Vila, a obra é um samba desconcertante. O enunciador descreve, desde o início da letra, a forma como uma intuição sonora vai progressiva, mas rapidamente, se transformando em canção.

A inspiração divina – algo que o sujeito desconfia, desde o princípio, estar por trás do som que lhe “veio à mente” – se coagula com o material psíquico do próprio compositor, donde emerge a lembrança dos amores que o balançaram, do passado ao presente.

Até onde me lembro das aulas de evangelização no espiritismo kardecista, é mais ou menos dessa forma que o transe mediúnico se converte em incorporação propriamente dita: a entidade espiritual, que se aproxima do médium e o arrebata, se comunicará com todos ao redor a partir do material linguístico e vivencial do próprio “aparelho”.

Assim, em “Zuela De Oxum”, a música – recordando-se sua definição enquanto inspiração provinda das musas – é situada nesse jogo em que a autoria se dissolve, não sendo possível afirmar, do resultado final (a canção), pertencer exatamente ao seu autor corpóreo, ou à sugestão divina.

Diante dessa descoberta, o espanto do sujeito é tamanho – e se reflete na harmonia de “Zuela De Oxum”, repleta de acordes diminutos, que transmitem a sensação sonora de desconforto, de deslocamento, como se as notas estivessem fora de lugar – que só lhe resta pedir “maleme” (vocábulo derivado do “valei-me” que se dirige a Deus, rogando-Lhe proteção – vide a expressão “Valha-me, Deus!”) aos orixás, nomeados um a um. Aqui, entra a enorme sabedoria de Martinho, que compila nomes e qualidades das deidades do candomblé de forma a respeitar métrica e rima: “Iemanjá, Ogum, Pai Xangô, Iansã / Orumilá, Oxóssi, Nanã e Xapanã”.

Os quatro primeiros nomes são bem conhecidos dos brasileiros de todos os credos. Já os quatro últimos raramente estão na boca do povo, sendo os mais populares Oxóssi e Nanã.

Orumilá é associado aos jogos divinatórios, não presidindo a cabeça dos homens – o que quer dizer que você não encontrará, por aí, um candomblecista se dizendo filho desse deus, como pode encontrar um filho de Oxumaré ou (mais raramente) de Exu.

Xapanã, por outro lado, se assemelha a Omulu ou Obaluaiê (a depender da tradição, considerados como diferentes qualidades de um mesmo orixá, ou entidades diferentes, como ocorre em algumas linhas da umbanda), podendo ser tomado como uma de suas qualidades.

Até escutar “Zuela De Oxum”, eu jamais havia pronunciado essa palavra, “xa-pa-nã”. Isso porque acredita-se que a simples pronúncia do nome desse orixá invoque forças poderosíssimas associadas às doenças ou mesmo à morte. Na dúvida, pra quê arriscar, não é mesmo? Mas, se Moacyr e Martinho a colocaram na letra de uma canção, não haveria nada a temer.

São mencionados os nomes também, no decorrer da canção, de Oxum e Obá. Acho que pouco falamos delas aqui no blog, considerando as abundantes canções com temas afro, aqui trazidas. Pois bem, Oxum é nosso equivalente a Vênus ou Afrodite: deusa das águas associada à beleza e ao espírito leve. Suas filhas são doces, queridas, vaidosas, despreocupadas. Adoro uma Oxum, a propósito! E Obá, segundo as lendas, é uma das três orixás que disputou o amor do austero Xangô; as outras são a própria Oxum e Iansã.

Talvez as lendas expliquem a narrativa da letra de “Zuela De Oxum”: apaixonado, agora, por uma “filha de Obá”, o enunciador se recorda de que já esteve enamorado por outra moça, a quem jurou que não amaria mais ninguém. Possivelmente, era uma filha de Oxum. É a própria orixá, portanto, quem intervém, soprando uma zuela que, verdadeiramente, tira o eu-lírico dos eixos: só lhe resta compor uma canção, com o cuidado de, nela, solicitar reverentemente socorro e proteção a todos os orixás.

A versão de “Zuela De Oxum” que abre o post aparece em Sem compromisso (2007), álbum em que Moacyr Luz se junta ao percussionista Armando Marçal – filho do lendário Mestre Marçal, para sempre associado à Portela, grêmio em que foi diretor de bateria por duas décadas.

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Armando Marçal e Moacyr Luz: mantendo o samba pulsante e, literalmente, inspirado.

As versões alternativas de “Zuela De Oxum” estão associadas aos projetos do próprio Moacyr Luz.

A canção apareceu, pela primeira vez, em seu álbum Samba da cidade (2003), que é todo bom. Apesar de termos tematizado, neste post, a gravação com Armando Marçal – por seu inegável caráter histórico, ao reunir dois sambistas dos mais importantes de sua geração – , foi em seu lançamento que a canção se apresentou com um arranjo mais bem acabado. O coro que entoa os nomes dos orixás (incluindo Mart’nália, filha de Martinho, sempre bom lembrar) faz toda a diferença nessa lindíssima gravação:

Por outro lado, a versão ao vivo registrada no álbum assinado por Moacyr Luz & Samba do Trabalhador, Ao vivo no Bar Pirajá (2017), traz sutis alterações no arranjo. Vale pelo axé da roda e, novamente, pelo arrepiante coro que entoa os nomes dos orixás:

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