259. Novos Baianos: “Quando Você Chegar”

Quando você chegar, é mesmo que eu estar vendo você
Sempre brincando de velho
Me chamando de Pedro
Me querendo menino que viu de relance
Talvez um sorriso em homenagem a Pedro


Anteontem, um encontro casual me fez querer lembrar de estórias de um tempo não muito distante, mas que também já foi (infelizmente) superado, e não volta.

Estava participando do III Encontro de Educadores em Ciências, realizado no Centro de Divulgação Científica e Cultural (CDCC-USP, um dos mais antigos centros de ciências do Brasil), quando conhecemos aqueles que conduziriam a programação cultural do evento. Era uma banda formada, principalmente, por jovens estudantes da USP de São Carlos, quase todos do bacharelado em física. Ali no meio, inicialmente na percussão, estava Francisco, um garoto da engenharia elétrica que, por volta de 2016, começou a tocar no conjunto que criei.

Depois da apresentação, conversamos rapidamente, e esse papo me motivou a elaborar o post de hoje.

Cheguei a comentar, aqui no blog, que tive meus conjuntinhos, durante toda a vida. E, apesar da diversão adolescente ser inesquecível, quando de meus tempos na banda de rock, foi em 2012 que se iniciou minha experiência musical mais marcante, que daria justamente no conjunto integrado pelo moço que me interpelou no CDCC.

Vou usar este post, assim, para fazer uma retrospectiva dessa fase engraçada.


Lembro que, naquele ano de 2012, nas sextas-feiras, costumava me reunir com uma multidão de chapas no bar do Centro Acadêmico Armando de Salles Oliveira, o CAASO. A paradinha no Bar do Mário era obrigatória, já que eu saía das aulas de História da Química (em que era monitor) e, cansado de ouvir falar dos alquimistas, de Lavoisier e de Dalton, queria mesmo era tomar uma cerveja.

Apareciam os amigos de sempre (Demorô, Scooby, Lili), um pessoal que eu já conhecia por frequentar o bar (Krusty, Marreco, Pedrão, Manito) e uma turma gigantesca que sempre surgia para, principalmente, atazanar o Marião – que, por volta das 23h, era obrigado a sugerir, “educadamente”, que cada bebum tomasse seu caminho pra casa. Vez ou outra, além desses amigos do Mário (Rodney, Barcelusa, Roberto, Du, Alexandre), apareciam figuras de altíssima estirpe: Tony, Gus, Velhinho, Miséria, Siri… vixe, devo ter esquecido muita gente.

No meio de todos, se destacava um sujeito alto, um pouco mais velho que a média, muito parecido com o saudoso Dr. Sócrates, embora mais robusto. Era o lendário Sérgio Trajano, para nós, apenas Serjão. Ele havia ingressado na USP dez anos antes que eu, voltando depois de formado, regular e periodicamente, para concluir o mestrado e o doutorado. Talvez tenha sido nossa paixão pelo Corinthians o que nos aproximou; duvido muito, acho que foi a cerveja mesmo.

Importa dizer que, por alguma razão inexplicável, inventamos de fazer um som num desses fins-de-tarde de sexta. Levei meu violão, ele sacou seu pandeiro, e logo estávamos tentando fazer samba – gênero que eu nunca havia tocado acompanhado, apenas arranhava (e apanhava) sozinho em casa. E não é que ficou legal? Pelo menos, a turma parecia gostar. O repertorio inicial trazia uma lista respeitável de canções: “Kid Cavaquinho”, “Cotidiano nº 2”, “Samba Da Volta”, “Regra Três”, “Sampa”, “Berimbau”, “Samba Da Bênção”, “Iracema”, “Saudosa Maloca”, “Marinheiro Só”… e foi crescendo.

É sempre bom lembrar: Krusty era o cavaquinista oficial, mas nunca trouxe o instrumento para nossos ensaios ao ar livre, que já se tornavam regulares: batíamos ponto toda sexta, às 17h. E o conjunto foi batizado Samba de Primeira, lá pelas tantas. Isso porque o trio continha dois corintianos e um santista, e queríamos zombar do alvi-verde Mário, pois o Palmeiras acabara de ser (bi)rebaixado – e justo no ano em que o Corinthians, milagrosamente, ganhou sua Libertadores e seu segundo Mundial.

Em 2013, Serjão foi para Portugal. O conjunto entrou em recesso e, nesse meio termo, foi proibido consumir cerveja no campus. Afinal, era muita balbúrdia, não é mesmo? Tristezas à parte, no segundo semestre meu chapa estava de volta e retomamos os ensaios, agora com um repertório renovado, trazendo “Espelho”, “Canto De Ossanha”, “Qualquer Coisa”, “Tristeza E Solidão”, “A Rita”, “Tem Mais Samba”, “Samba Pra Vinícius”, “Homenagem Ao Malandro”, “Apesar De Você”, “Dança Da Solidão” e outros clássicos.

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Os criadores do Samba de Primeira, numa divertida e nostálgica noite de 2014.

Com uma nova partida de meu parceiro – dessa vez, definitiva, vindo a assumir o cargo de professor adjunto na Universidade Estadual de Maringá, campus Umuarama –, conseguimos tapar o buraco com dois pandeiristas que, a rigor, já reforçavam nossa percussão, eventualmente, desde os primórdios da dupla: Alecrim e Siri.

Foi com essa formação que estávamos tocando de forma envergonhada (e, excepcionalmente, microfonada) no início de 2014, quando um rapaz passou, ficou olhando e perguntou se podia cantar conosco. Só pela ousadia, deixamos, e não nos arrependemos. Aquele tal de Pedro Vieira, Uai-Fai para os íntimos, tinha mesmo uma voz linda, um timbre meio à Caetano, e foi imediatamente efetivado no conjunto. Achei ótimo, pois isso me liberava apenas para tocar o violão, já que nunca gostei de cantar, e o fazia de forma constrangedora.

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Uai-Fai com seu belo violão, ao centro. O pandeirista ao lado do Serjão é o Seo Jorge, que acabava de defender o mestrado nesse dia. E a moça de costas é a queridíssima Beth, mencionada aqui.

No mesmo ano, outro violonista foi convocado, Greg. Como Uai-Fai também arranhava um violão – enrolando de forma surpreendentemente convincente –, houve um congestionamento de cordas no conjunto. Fizemos alguns ajustes: em canções mais lentas (como “Retalhos De Cetim”), deslocava-me para o pandeiro, e Uai-Fai tratou de comprar um cavaquinho e aprender a tocá-lo em poucos dias.

Chegamos a ter a sofisticação de incluir um flautista, Miséria, que em 2014 gravou quatro números instrumentais conosco: “Homenagem Ao Malandro”, “O Sol Nascerá”, “A Rita” e ” Mambembe”. Pelo que consta, Miséria já chegou a saber tocar seis obras de nosso repertório, antes de 2014; em 2016, pelo que me lembro, ele dizia saber apenas duas. Nessa progressão aritmética, imagino que já não seja mais possível contar com seus dotes!

Foi nesse mesmo 2014 que nos apresentamos pela primeira vez, no próprio Bar do Mário. E prosseguimos tocando até 2015, quando foi minha vez de sair do conjunto, já que eu estava de malas prontas para Santo André. Foi uma pena porque, a essa altura, tínhamos conosco mais um músico de primeira, Henrique Rozenfeld, nosso decano da timba. Sentíamo-nos profissionais, pois Henrique era (e é) docente da USP e havia tocado no conjunto Hamilton e Seus Estados, muito conhecido no interior. Outro que, nessa época, fazia participações especiais – inclusive em apresentações – era o Cazuza (o nosso próprio, diretamente de Taubaté!), que tocava um pandeiro maravilhoso, e imitava uma cuíca (com a boca) como ninguém.

Quando, eventualmente, retornava a São Carlos aos fins-de-semana, às vezes conseguia chegar a tempo de acompanhar um ensaio aberto de sexta, que permanecia acontecendo no mesmo local. Era engraçado chegar à roda de samba e, em algumas vezes, não conhecer quase ninguém: o conjunto adquirira vida própria, sobrevivendo (de forma mutante) às saídas minha e do Serjão. Achava isso o máximo!

E foi assim que conheci o Francisco, num desses ensaios em 2016, com uma formação renovada e, quem diria, estável: Uai-Fai no cavaco e nos vocais, Gabriel no 7 cordas (saca só nosso nível), Robertinha no pandeiro e Greg no violão. Francisco manejava sua bela flauta transversal e adornava o acompanhamento de algumas faixas específicas, não todas. Lembro muito bem dele tocando, nota por nota, a introdução de “A Rita”, com o arranjo igualzinho ao da gravação original de Chico.

E como me senti orgulhoso e emocionado em ver que aquele duo tosco, criado por mim e por aquele gigante (do qual tenho uma baita saudade), estava tocando bonito e emocionando a todos ao seu redor.


No dia em que conheci Francisco, fiquei contente em observar que uma sugestão que fiz para o repertório, já às vésperas de minha saída do conjunto, permanecera sendo ensaiada: “Besta É Tu”, do clássico Acabou chorare (1972) dos Novos Baianos.

Nossa versão promovia um jogo interessante entre duas vozes, deslocadas de suas regiões mais confortáveis: a minha, mais grave, fazia os agudos; a de Uai-Fai, mais aguda, cobria os graves. Sem meus vocais, o conjunto tinha se virado para continuar tocando a canção, e não só isso: incluíram mais uma da banda/comunidade/time de futebol da Bahia: “Quando Você Chegar”, do álbum seguinte, Novos Baianos F. C. (1973).

Trata-se de uma obra linda e, não fosse sua complexidade instrumental, singela. No início, a canção aparece como uma joão-gilbertiana bossa, atravessando passagens mais choradas, embora possa ser considerada mesmo como um samba.

A letra fala sobre um garotinho Pedro vindo ao mundo: ninguém menos que Pedro Baby, à época em que Baby do Brasil e Pepeu Gomes estavam grávidos. A letra brinca com o nome do bebê, que lembra o dito popular “água mole em pedra dura…”, resvala em Drummond (“No meio do caminho tinha uma pedra”) e observa que o primeiro português a nos visitar (trazendo “a língua portuguesa, a língua da luz”) era também um tal de Pedro.

“Quando Você Chegar” foi composta por Moraes Moreira e Luiz Galvão. Este, anos mais tarde, se casaria com uma moça cujo filho fora batizado Pedro justamente por causa da canção de Novos Baianos F. C. Galvão se tornou padrasto do garoto, que cresceu e virou um respeitável músico baiano, Pedro “Peu” Souza.

Infelizmente, Peu – que ficou conhecido por ter tocado com Pitty, com quem dividiu a autoria do hit “Equalize” – se suicidou em 2013. Na cerimônia fúnebre, Galvão, muito abalado, se emocionou ao escutar “Quando Você Chegar”, desta vez, entoada não como um canto de boas vindas a um bebê, mas como uma inesquecível despedida.

novos-baianos
Novos Baianos: unindo samba/choro e rock, os filhos de João Gilberto.

Salvo melhor juízo, ninguém registrou oficialmente “Quando Você Chegar”, além dos Novos Baianos.

Mas você encontrará, no YouTube, um conjunto de jovens talentos tocando a canção em São Carlos, um certo Samba de Vinil – cá entre nós, muito melhor que Samba de Primeira, não é? Apresento, assim, orgulhosamente, Uai-Fai na voz e no cavaco, Gabriel no 7 cordas, Robertinha no pandeiro e Francisco na flauta transversal, tocando uma ensaiadíssima versão para esse clássico dos Novos Baianos:

6 comentários

    1. A gravação não faz jus à qualidade do conjunto! Ao vivo, essa turminha se harmoniza lindamente e o alcance vocal do nosso cavaquinista sempre foi um grande trunfo. Hoje eles tocam até mais profissionalmente, inclusive – coisa que eu e o Serjão nunca pensamos em fazer, pois não tínhamos técnica (nem paciência) para tanto.
      Vou transmitir seu elogio, pessoalmente, quando trombar algum dos meninos em São Carlos.
      Grato pela visita!

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  1. Fico feliz que um encontro singelo tenha resultado num texto de enorme valor para o grupo. Guardarei a história e vivências no samba com zelo em minhas memórias.

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    1. Eu é que fico feliz com sua passagem, tanto pelo conjunto, quanto pelo blog!
      Na memória, sempre vou guardar com carinho esse mundo de gente que deu vida ao sonho de fazer e divulgar boa música no CAASO – você, Uai-Fai, Roberta, Gabriel, Greg, Luiza, Lucas, Alecrim, Siri, Miséria, Cazuza, Serjão e tantos outros.
      Grande abraço, Francisco, e grato pela visita.

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