260. Humberto Gessinger Trio: “?Pra Quê?”

Pra quem não tem a senha
Pra quem não teve acesso
E vive do lado de fora da ordem e progresso
Pra quem mantém o fogo aceso a noite inteira
No cigarro desprezado na calçada pelo dono da carteira
Pra quem mantém a fé ardendo na fogueira
Sob um céu de viaduto, alimentando a caldeira


Em 1994, os Engenheiros do Hawaii haviam praticamente implodido. Mas a reconstrução da banda com o bom Simples de coração (1995) – após a tumultuada dissolução de sua formação clássica – não vingara.

O líder e principal compositor do conjunto, Humberto Gessinger, resolveu criar um novo conjunto, despojando-se dos excessos que marcaram a discografia hawaiiana até então. Assim, junto do guitarrista Luciano Granja e do baterista Adal Fonseca, o Alemão deu vida a um disquinho muito do invocado e, quem diria, bom pra dedéu. Era Humberto Gessinger Trio (1996), com o mesmo nome do conjunto recém-criado.

O álbum é ligeiro e reúne 12 faixas, com a média de três minutos para cada uma. Sobram rifss de guitarras memoráveis, andamentos acelerados, baixos proeminentes (mas menos do que, tradicionalmente, se fazia ouvir nos discos dos Engenheiros) e vocais gritados. Uma vitalidade impensável para Gessinger, então, caminhando para a meia-idade.

Tem muita coisa boa em Humberto Gessinger Trio, inclusive, canções perfeitamente tematizáveis aqui no blog, como as clássicas “O Preço” e “Freud Flintstone”. Mas, pensando em não enfastiar o leitor – já que o vocalista e baixista apareceu em diversos posts, como este, este, esteeste, este e em seu próprio –, havia resolvido não trazer o Gessinger Trio para cá.

Ontem, porém, concluíra a redação de um capítulo de livro sobre Primo Levi (1919-1987), um químico italiano que, sendo judeu, acabou indo parar em Auschwitz durante a Segunda Guerra. Ali, sofreu os horrores do nazifascismo e, como um dos únicos sobreviventes do comboio inteiro de judeus italianos que integrou (cerca de 650 pessoas), decidiu-se a narrar, para a posteridade, a brutal experiência de desumanização a que fora submetido.

Assim, se tornou também um romancista, editando ao menos um grande clássico da literatura contemporânea, É isto um homem?, precisamente sobre os 11 meses que passou no campo de extermínio.

Levi se aposentou da química em 1975 e, até sua morte, escreveria diversos textos avulsos (principalmente para o jornal La stampa), muitos deles sobre a vida no complexo polonês em que era diariamente humilhado e agredido.

Em suas reflexões sobre o porquê de ter se tornado escritor, acabei lembrando da canção “?Pra quê?”, um rock de Humberto Gessinger Trio para o qual nunca dei muita atenção. Única canção do álbum composta pelos três integrantes do conjunto, traz uma letra que insiste nas interrogações: “[? cantar pra quê?] ? pra quem cantar?” (sim, é exatamente dessa forma que os versos estão transcritos no encarte!).

E a resposta vem como uma lista de possibilidades: “Pra parar o tempo / Pra passar o tempo / Pela força, pela fome, pelas calçadas da fama / Porque é preciso perguntar sem esperar resposta”.

Ora, na antologia O ofício alheio (São Paulo: Unesp, 2016), consta o texto “Por que se escreve?”, em que Levi elenca nove argumentos para justificar a atividade literária. São eles:

  1. Por que se sente o impulso ou a necessidade.
  2. Para divertir ou divertir-se.
  3. Para ensinar algo a alguém.
  4. Para melhorar o mundo.
  5. Para difundir as próprias ideias.
  6. Para se livrar da angústia.
  7. Para se tornar famoso.
  8. Para se tornar rico.
  9. Por hábito.

Note que alguns desses motivos para escrever, de acordo com o químico de Turim, coincidem com os motivos para cantar, conforme o compositor de Porto Alegre. Mas, ao contrário de Gessinger – que assim canta em “3 Minutos”, canção do álbum Minuano (1997), um prolongamento do Gessinger Trio já aceitando-se Engenheiros do Hawaii: “Só acredito no que pode ser dito em 3 minutos” –, Levi dispõe de tempo e espaço para desenvolver cada argumento, mostrando a validade e os limites de cada um.

E, no diálogo entre os dois autores, o químico-escritor e o músico, penso em mais um argumento para se escrever: “10. Pra conhecer os argumentos que justifiquem o fato de se cantar”. Ou, mais concisamente, “pra saber pra quê cantar”.

P.S.: quem advinhar os três argumentos (segundo a lista de Levi) que mais justificam minha investidura amadora no campo das letras, com este blog, ganha um brinde.

humberto-gessiger-trio.jpg
Humberto Gessinger Trio: rocks acelerados para dizer tudo em três minutos.

4 comentários

    1. O pessoal me conhece bem, mas também sou bem previsível!
      Quanto aos itens 7 e 8, realmente não tinha como ter essa pretensão. Ficar rico? O blog nem é monetizado!
      Mas confesso que, por vezes, me sinto perto da fama. Por conta de pessoas como você, que tem divulgado o blog no Twitter e outras redes, alguns posts chegaram até os próprios artistas. O próprio Wilson Sideral veio aqui! O pessoal do Pato Fu também entrou em contato, Daíra Saboia e Pedro Amorim republicaram os posts no Facebook deles, enfim… coisas que eu não podia imaginar que aconteceriam, e que me dão muita alegria quando acontecem.
      Grato pelo comentário.

      Curtir

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