262. Pitty: “Admirável Chip Novo”

Pane no sistema, alguém me desconfigurou
Aonde estão meus olhos de robô?
Eu não sabia, eu não tinha percebido
Eu sempre achei que era vivo


Ouvi Pitty, pela primeira vez, por volta de 2003, ano em que a cantora baiana havia debutado com Admirável chip novo.

A crítica tratou o álbum como uma pueril expressão do “rock de arena” – designação algo depreciativa, como se o som das guitarras, sempre em primeiro plano no disco, fosse inofensivo e apenas disfarçasse a escassez de técnica ou de talento. Pitty era, então, a Avril Lavigne brasileira, ou seja, uma personagem tão medíocre quanto desnecessária.

Bom, eu gostei de cara das três faixas do álbum que estouraram, a canção título (e tema de hoje), “Equalize” e “Teto De Vidro”. Achava pop sim, mas não pensava que isso contribuísse para desmerecer o trabalho de Pitty e de sua competente banda.

Pra falar a verdade, achava “Admirável Chip Novo” genial, com suas referências a duas obras fundamentais da cultura pop: o romance Admirável mundo novo (1932), de Aldous Huxley; e o filme Matrix (1999), dos então irmãos (hoje irmãs) Wachowsky.

O livro, sendo bem franco, não havia lido, à época. Não era por falta de oportunidades: minha mãe tinha um velho volume em casa, guardado até hoje com minhas coisas – porque sou especialista em surrupiar artigos de valor dos acervos de meus pais. De toda forma, vim a ler a obra de Huxley em 2006 e gostei tanto que, em 2009, encarei outro livro seu, Despertar do mundo novo (1937), dessa vez, uma antologia de ensaios.

A história todos já conhecem: o livro apresenta um futuro distópico (ou utópico?) em que a humanidade é reproduzida numa espécie de linha de montagem. Desde a fecundação, cada novo indivíduo já terá definido seu papel na sociedade, que é estabilizada por meio do silenciamento de expressões como a arte e a religião, além da administração coletiva de um psicotrópico, o soma. O personagem Bernard Marx é uma espécie de outsider, e o enredo gira em torno de sua busca pelo “admirável mundo novo”, em que os “selvagens” ainda se reproduzem à maneira antiga e mantêm as tradições de uma era “atrasada”.

Matrix, que vem sendo celebrado (agora que completa duas décadas) como uma experiência revolucionária no cinema, trazia Admirável mundo novo como referência, assim como 1984 (1949) de George Orwell, a alegoria da caverna de Platão, o misticismo gnóstico, as religiões orientais, o cyberpunk, os mangás/animes e outras mil-e-uma inspirações. O personagem principal, John Anderson (que utiliza o codinome Neo para cometer crimes virtuais), acaba se envolvendo com outros supostos hackers, que lhe falam de algo chamado matrix. Na sua busca por alcançar a resposta à questão que tanto o incomoda – o que é a matrix? – Neo acaba fazendo uma escolha que mudará sua vida para sempre. Ele aceita abdicar de sua existência vazia e “renascer” num novo mundo (ou seria um mundo novo?), descobrindo que essa realidade desconhecida é a realidade autêntica: sua experiência prévia, até então, fora uma vida simulada, junto de todos os demais seres humanos, num programa de computador, a tal matrix. A humanidade é mantida aprisionada pelas máquinas (com inteligência e força imbatíveis), que se aproveitam da energia térmica dos corpos humanos em gigantescas usinas, enquanto cada indivíduo é mantido adormecido, sonhando que vive em fins do século XX.

Nas duas obras, o exercício (ou a busca) do livre arbítrio é o que move boa parte das ações dos personagens. Ambas trazem um cenário futurista em que o ultraplanejamento, se assim podemos dizer, criou ao mesmo tempo um mundo de paz estéril e de pequenos atos individuais de revolta, que precisam ser contidos, do contrário, a própria realidade (se é que existe uma realidade) corre o risco de se desfazer.

O intessante é observar que os cenários, tanto de Admirável mundo novo como de Matrix, estão situados num futuro indeterminado, que pode ser tomado como fins do século XXI ou meados do século XXII. Porém, as obras também podem ser vistas como alegorias de nossa vida (pós-)moderna nos tempos contemporâneos.

Afinal, não estamos vivendo, agora mesmo, em meio a uma realidade… digamos… líquida? Temos mesmo controle de nossas vidas? Ou será que estamos sendo determinados por ordens – mais ou menos subliminares – lançadas por máquinas? Nossa vida não se tornou, afinal, um acelerado período (como passa rápido!) em que a sobrevivência é ditada por bitsbytes? O dinheiro que você tem no banco é seu mesmo, ou é apenas um número, uma coleção de dígitos? E observe que essa lastro material inexiste também em outros contextos: as mensagens que se trocam diariamente, os fatos (que, frequentemente, já nem fatos são, são eventos fabricados ou não-eventos), os estímulos visuais ou auditivos… e mesmo este texto!

Por nunca ter tido um telefone celular, me sinto na posição privilegiada de observador, quase como Bernard Marx ou Neo: é incrível como essa maquininha verdadeiramente prescreve o comportamento das pessoas! Nem por isso, estou imune (como os dois personagens, de fato, também não estavam): faço parte de uma sociedade em que a norma é terceirizar as funções cognitivas (e, em breve, as funções afetivas e motoras – sim, já somos ciborgues) para os aparelhos eletrônicos, portanto, enquanto ser socializado, também sou afetado por essas novas formas de ser e de agir.

Retomando o início do post, se a crítica recebeu o álbum de estreia de Pitty com frieza, enxergando nela a representante de uma moda passageira, sua canção “Admirável Chip Novo” prova que o tempo daria razão à roqueira baiana. A coleção de imperativos lançados na letra – “Pense, fale, compre, beba / Leia, vote, não se esqueça / Use, seja, ouça, diga / Tenha, more, gaste e viva / Pense, fale, compre, beba / Leia, vote, não se esqueça / Use, seja, ouça, diga” –, sempre atuais e aos quais todos obedecemos diariamente, faz da canção um revoltado grito de desespero diante de uma constatação: a de que estamos abdicando de nossa humanidade cada vez mais.

Mas não se assuste: pode ser tudo uma simulação.

(E às vezes, quero mais é que seja mesmo).

pitty.jpg
Pitty: desde sempre, atenta aos sinais (eletrônicos?) da pós-modernidade.

Em (Des)concerto (2007), “Admirável Chip Novo” reaparece cheia de punch:

Com sutis alterações no arranjo e com outros timbres, a canção figura como extra do DVD A trupe delirante no circo voador (2014). Versão foderosíssima:

Em meados dos anos 2000, a Coca-Cola organizou uma série de inusitados encontros musicais. Pitty foi escolhida para formar um duo com ninguém menos que Negra Li. A proposta de um arranjo black para “Admirável Chip Novo” levou a canção para uma sonoridade que, com um pouco de esforço, me lembra o som industrial do Nine Inch Nails. Não sei, posso estar exagerando… Em todo caso, gostei do dueto, divulgado na rede em 2007:

Essa proposta, levada para o extremo, pode ser escutada na versão de Thiala Arlequina, em Minha negritude em notas (2017). Fica como curiosidade e, a bem da verdade, a sonoridade robótica do eletrofunk se ajusta bem à letra de Pitty:


Admirável mundo novo serviu de inspiração para trocentas outras canções, brasileiras ou internacionais. Sugiro a escuta de duas peças brazucas.

Uma delas, a mais óbvia, é talvez o maior sucesso de Zé Ramalho, “Admirável Gado Novo”. E como tem gado novo nesse Brasil! A obra consta no segundo disco solo do cantor, A peleja do Diabo com o Dono do Céu (1979) e recebeu incontáveis versões, na extensa discografia do cantor e compositor paraibano. Penso que nada supera a original, com seu baixo marcante e seu desconcertante arranjo de cordas:

A outra é da Plebe Rude. Em 1987, a banda brasiliense lançava seu segundo álbum, trazendo antigas canções que haviam ficado de fora de seu tão bom quanto curto (mini) LP de estreia, O concreto já rachou (1986) – com sete clássicos e a inacreditável duração de pouco mais que 20 minutos. Bom, em Nunca fomos tão brasileiros os fãs encontraram uma banda com maior experiência de estúdio, um repertório mais sofisticado (e mais pós-punk do que punk) e canções mais longas e ousadas. Uma delas é “Bravo Mundo Novo”, composta pelo vocalista/guitarrista Philippe Seabra e pelo baixista André X, que traduz literalmente o título inglês do livro de Huxley (Brave new world). A obra, com uma sonoridade sombria, traz um interessante contraponto entre a frieza da letra e a dramaticidade do belíssimo arranjo de cordas:

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