263. Ângela e Cauby: “Canta Brasil”

As selvas te deram nas noites teus ritmos bárbaros
E os negros trouxeram de longe reservas de pranto
Os brancos falaram de amor em suas canções
E dessa mistura de vozes nasceu o teu canto


No final de agosto, fiz uma pequena série de posts temáticos, com foco em regravações originais de clássicos do BRock (você pode acessá-los aqui, aqui e aqui).

As postagens de hoje e amanhã também serão temáticas e, talvez, pudessem constituir um único post. Mas, tão grandes artistas não caberiam num único texto!

Assim, com o tema “samba de exaltação”, falarei um pouco sobre as duas maiores canções desse subgênero.


Em 2005, em minha primeira experiência na Feira da Sucata e da Barganha (de que já falei diversas vezes no blog), separei uns 100 mangos – afinal, eu era um abonadíssimo estudante de graduação que recebia mensalmente uma bolsa de iniciação científica do CNPq, no espantoso valor de R$240, o maior “salário” que ganhara até então – e fui para a Praça XV, no Centro de Sâo Carlos. Comprei LPs usados que me pareciam raros demais para que o preço de R$3,00 me fizesse ignorá-los e, quando encontrei expositores vendendo CDs, fiz a festa.

Minha primeira aquisição foi o volume 1 da coleção “Os grandes sambas da história”, editada pela Globo em parceria com as gravadoras RCA e BMG. Afinal, eu não podia deixar passar uma capa como essa, com o mestre Pixinguinha ao centro:

grandes-sambas-da-historia.jpg

Mas, ao final do dia, havia comprado tantas outras obras de meu interesse, que o CD ficou esquecido por três anos em minha prateleira – à época, bagunçadíssima, hoje mais arrumada, enquanto aguardo minha mãe aprovar o projeto de conversão de meu velho e inabitado quarto sãocarlense numa biblioteca/discoteca (o jogo é duro e estou tomando de lavada!).

Quando finalmente foi explorar o CD, fiquei maravilhado com tantas gravações antigas. Ali tinha o próprio Pixinguinha (com Almirante, em “Pelo Telefone”, faixa de abertura), um jovem Martinho da Vila, Bethânia e Aracy de Almeida cantando Noel, Jorge Veiga com “Acertei No Milhar”, bambas de altíssima estirpe como Geraldo Pereira, Ismael Silva e Cyro Monteiro, e até Carmen Miranda.

Duas faixas traziam vozes grandiosas: “Abre A Janela”, com Orlando Silva, e o encerramento do disco, com Cauby Peixoto e Ângela Maria em “Canta Brasil”.

Dá muito o que pensar. Porque Orlando parecia perdido ali no meio, entre tantas vozes “pequenas” ou, pelo menos, cantando com menor empostação. Soava, a mim, como uma espécie de curiosidade histórica, como se a curadoria da coletânea estivesse garantindo o espaço para um passado, do samba, que não foi continuado: talvez graças à influência da bossa-nova, os vozeirões foram desaparecendo, figurando como um beco sem saída na genealogia do samba.

Mas eis que “Canta Brasil” parecia contradizer essa mensagem – ou, então, comparecia como a exceção que confirma a regra, trazendo dois cantores contemporâneos (Cauby e Ângela eram vivos, à época em que o disco havia sido concebido) que não tinham medo de explorar sua potência vocal ao máximo.

A gravação do dueto foi extraída do álbum Ao vivo (1992), um showzaço dessas duas vozes inesquecíveis. O repertório, bastante abolerado, trazia também algo do choro, do samba-canção e, claro, esse clássico samba de exaltação de Alcyr Pires Vermelho e David Nasser. Os arranjos, todos embalados por cordas e pelos sopros de uma big band, são grandiosos, barrocos.

A gravação de “Canta Brasil” começa contida, explodindo pouco antes do verso “Brasil, minha voz enternecida”. Nela, temos a expressão mais literal possível da tal exaltação: sim, é a celebração de um cenário idealizado, onde tudo são valores positivos, como se nunca tivessem existido conflitos entre os indígenas e seus “ritmos bárbaros”, os negros com suas “reservas de pranto” (ué, só veio tristeza, da África?) e os brancos que “falaram de amor em suas canções”. Daí a aceleração do andamento, modalizando tudo pelo /ser/, quando se naturalizam os predicados atribuídos à arte brasileira, simples resultado de uma fortuita alquimia, prolífica e profícua, esgueirando-se pela paisagem natural de Pindorama.

A gravação de Cauby com Ângela Maria não poderia ser mais perfeita, nesse sentido, pois realiza perfeitamente tudo o que se anuncia no jogo entre letra, melodia, harmonia e andamento, proposto pela composição.

E nos dá a impressão de que seria impossível pensar em samba de exaltação a partir de algum outro ponto de vista – que abriria espaço para ambiguidades ou ambivalências, ironias e maior historicidade, diluindo-se o caráter metafísico e idealista inerente ao gênero.

Bom, com o post de amanhã, daremos continuidade a essa conversa.

angela-cauby.jpg
Cauby e Ângela: grandes vozes do rádio, equiparando-se às forças da natureza no canto de exaltação.

“Canta Brasil” foi gravada e regravada por muita gente. Destacarei apenas dois registros.

O primeiro é de Fantasia (1981) de Gal Costa, que une o timbre límpido da baiana com um andamento também acelerado:

O outro é o de Geraldo Azevedo, na terceira reunião do Grande Encontro. O Grande Encontro 3 (2000) trouxe o cantor de Petrolina convocando o baiano Moraes Moreira (sempre muito à vontade no universo do samba) para dar vida a uma linda versão voz-e-violões de “Canta Brasil”, celebrativa e emocionante. Diga-se de passagem, Geraldo tem uma voz única e linda e, ainda por cima, é um tremendo violonista. Destaque para a participação da plateia:

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