264. João Gilberto, Bethânia, Caetano e Gil: “Aquarela Do Brasil”

Brasil!
Meu Brasil brasileiro
Meu mulato inzoneiro
Vou cantar-te nos meus versos
Brasil, samba que dá
Bamboleio, que faz gingar
O Brasil do meu amor
Terra de Nosso Senhor…


Encerrando o conjunto de apenas dois posts sobre o samba (de) exaltação, hoje trago “Aquarela Do Brasil”, a mais linda obra do gênero – na opinião do humilde blogueiro.

Recomendo que, caso não tenha apreciado a postagem anterior, o faça antes de prosseguir. Não que os textos se encadeiem muito organicamente, mas acho que o tema em comum faz, de ambos, aspectos de uma mesma narrativa, ainda que contada de forma pouco linear. Também, não espere que eu responda, aqui, as dúvidas lançadas no post de ontem – escritas mais para incitar à reflexão.

E hoje, senta que lá vem estorinha, de novo.


Quando acabara de passar metade de minha vida até aqui – ou seja, quando tinha acabado de completar 17 anos –, sofri um terrível acidente, provavelmente, o mais grave já sofrido lá em casa (e olha que meu velho já se arrebentou bastante sobre duas rodas). Ia de bicicleta para a escola numa fria manhã de setembro (mais precisamente, dia 4) quando, por um enorme descuido, me vi sendo arrastado por um Chevette, com magrela e tudo.

Num segundo, o carro estava em cima de mim, e no outro, após um rápido e pequeno voo, fui parar do outro lado da rua, em decúbito dorsal. A roda traseira da bicicleta virou uma obra de arte moderna. Isso pouco importava: estava desesperado, porque o filme de minha vida futura passou diante de meus olhos: eu estava paraplégico.

Sim, a reação de choque tirou o movimento de minhas pernas temporariamente (por um ou dois minutos) e, nesse intervalo em que imaginei que minha condição seria definitiva, deu tempo até para me conformar: se sobrevivesse, já estaria bom, com ou sem pernas.

Não havia local melhor para ser atropelado, pois o cruzamento ficava a menos de 10 m da casa de um famoso ortopedista de São Carlos, Dr. Yoshio, por acaso, pai de um grande amigo meu, o Renato. Que, vendo a movimentação em frente à sua casa (ele também se dirigia para a escola de bicicleta, nessa época em que estudávamos na mesmíssima sala), foi descobrir que a vítima era eu e, diante de meu pobre corpinho estirado no chão, lançou uma indisfarçável gargalhada. Filho da mãe! Afinal, era meu terceiro atropelamento em menos de três anos, ou seja, eu já podia pedir música no Fantástico. Vendo que, afinal, eu estava vivo, meu amigo nipo-descendente tinha mais é que rir mesmo.

Dr. Yoshio foi até a cena do acidente, aproximou-se do jovem estirado no asfalto e tomou a iniciativa de providenciar os primeiros cuidados. Fui encaminhado para o hospital com um pequeno trauma na cabeça e uma clavícula em frangalhos. No mesmo dia, fui transferido para Araraquara, onde aguardei até sexta (o acidente fora numa quarta) para ser operado e receber alta pouco depois do desfile de 7 de setembro, no sábado.

Até novembro daquele ano tenso, por conta do vestibular, teria que me conformar em manter o braço esquerdo imóvel – logo eu, que sou canhoto. Dava pra me virar nas aulas; acho até que a nova posição mais restrita melhorou minha caligrafia. Por outro lado, uma série de atividades mais ou menos adolescentes foram interditadas. Não pensem besteira: estou me referindo aos shows de rock e aos passeios de bicicleta.

Com isso, ganhei tempo para ouvir música. E, céus, como fiz isso, enquanto aquele pino de titânio com uma pontinha para fora do ombro insistia em me maltratar a cada minuto. Devo muito às canções, pois elas aliviaram um bocado as terríveis dores que senti até outubro, quando enfim pari o indesejado grampo de metal, restando-me apenas a companhia da tipoia, que já era praticamente parte de meu ser, àquela altura.

Uma das canções que mais escutei, nesse período marcante (não apenas pelas dores, mas principalmente pela forma calorosa como fui tratado pela família, o que era obrigação, e pelos amigos e colegas de sala, incrivelmente solidários e zelosos para com o atrapalhado atropelado), era essa versão de “Aquarela Do Brasil”, nas vozes de João Gilberto, Caetano Veloso e Gilberto Gil.

Eu poderia passar horas escutando apenas ela, e devo ter feito isso em algum momento. Estava profundamente arrebatado pela forma contida como os cantores baianos davam vida àquele tão conhecido contorno melódico, com o andamento sendo conduzido ao violão, sob uma discreta percussão e um arranjo de cordas maravilhoso.

A versão pertence ao LP Brasil (1981), dos três com Maria Bethânia – cuja voz é a que menos aparece na concisa bolacha, com menos de meia-hora de duração –, e é em tudo oposta à versão de “Canta Brasil” de que falei no post de ontem. No lugar da grandiloquência e da potência vocal, três vozes quase sussurradas; no lugar dos ares de big band, uma instrumentação no limite da simplicidade.

Adoro as palavras de Luiz Tatit em O cancionista (2. ed. São Paulo: Edusp, 2012), que concretiza sua análise da dicção de Ary Barroso constatando que, em “Aquarela Do Brasil”,

A centralidade do tema melódico reproduz a convergência obsessiva da letra em torno da palavra “Brasil”. Realmente, tanto as virtudes quanto as superficilidades do texto ficam por conta do desenvolvimento excessivamente paradigmático desse tema (p. 98).

E arremata, em seguida:

Tudo ocorre como se o interesse estivesse exclusivamente na tradução melódica do texto, na transformação do conteúdo em expressão. O texto torna-se uma verdadeira plataforma fonológica, com seus conteúdos dessemantizados ou, pelo menos, pré semantizados. Versos como “terra boa e gostosa”, “terra do Nosso Senhor”, “terra de samba e pandeiro” ou “o Brasil do meu amor”, “Esse Brasil lindo e trigueiro”, lançados sem remotivação sintagmática, convertem-se em slogans que dispensam atenção especial. E parece ser esse mesmo o objetivo da composição: dessemantizar o texto em favor do tema melódico cuja vocação é concretizar-se em samba-hino do Brasil. Nesse sentido, justifica-se o acúmulo de informações aparentemente supérfluas e tautológicas como “meu Brasil brasileiro”, “Vou cantar-te nos meus versos” (quando, a essa altura, já está cantando!), “Bota o rei congo no congado” e o famoso “esse coqueiro que dá coco”. São versos que cedem sua carga informativa à melodia. Todos querem dizer: “Brasil, pra mim, Brasil, pra mim…” (p. 98-99).

Me lembro que, ao conhecer a versão de João com seus discípulos, senti tanto a falta desse verso… pois o registro já alcançara quase seis minutos e nada do refrão. Que espanto e, diria mais, atrevimento: registrar uma obra tão decantada no imaginário nacional desprezando, justamente, seu traço mais icônico! Mas logo me acostumei e percebi que, afinal, o refrão era desnecessário.

Pois eis que Tatit traduziu numa lacônica nota de rodapé, em linguagem científica, isso que constatei num nível pré-linguístico, apenas com o sentimento não verbalizado/zável:

Interessante que João Gilberto propõe uma interpretaçao em que esse verso central [“Brasil, pra mim, Brasil, pra mim…”] desaparece, como a dizer que sua mensagem já se encotra suficientemente reiterada no interior dos demais (p. 99).

O procedimento do pai da bossa-nova é preciso: encarna o ato do sacrifício, na releitura, sem qualquer traço de culpa, visando justamente ao máximo de rendimento na esfera semiótica. Não à toa, já vi a antonomásia ser convocada para tratar João como o “pesquisador da canção popular”.

E lembrando do garoto de 17 anos, obrigado na convalescência a triplicar o tempo que passava escutando canções, noto que ele se agitava diante da perspectiva de ingressar no curso de Química dali a alguns meses… enquanto descobria, ainda que inconscientemente, que é possível fazer ciência com uma matéria mais viva e mais quente, dispensando um laboratório com vidrarias e aparelhos sofisticados.

Com “Aquarela Do Brasil”, João me ensinava, sem o saber, que música é arte, história, sociologia, economia, filosofia e, claro, ciência.

joao-gilberto-bethania-caetano-gil.jpg
João Gilberto rodeado por Bethânia, Caê e Gil: o mestre em comunhão com seus discípulos, (en)cantando o Brasil.

5 comentários

    1. Sim, devo muito às canções, que sempre foram fiéis companheiras nessa e em outras situações difíceis, pelas quais todos passamos. Talvez por isso tenha surgido este projeto de homenageá-las. Grato pelo comentário.

      Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s