266. Juçara Marçal e Kiko Dinucci: “Atotô”

Rolei na terra
A benção atotô
Seu xaxará
A ferida secou
A flor do velho
Me curou
A flor do velho


Um dos primeiros sons “novos” que conheci em 2013 – um ano cheio de altos e baixos, com fortes emoções a cada semana – foi o álbum Padê (2007), assinado por Juçara Marçal e Kiko Dinucci. Até então, ignorava quem eram os artistas, ela do Rio, ele de São Paulo.

Mas fiquei vidrado em duas canções: “Atotô” e “São Jorge”. Ambas são bastante representativas do que é Padê: instrumentos de samba (com uma percussão de prima) explorando outros gêneros, com um indisfarçável pé no rock.

Quem frequenta o blog deve saber que nutro uma enorme simpatia pelo domador de dragões e, fosse católico, certamente seria seu devoto fervoroso. Assim, “São Jorge” rapidamente se converteu, a mim, num hino, num canto de exortação em que buscava força, quando dominado pelo cansaço (e como foi cansativo aquele 2013!). Afinal, a canção possui uma estrutura que remete aos pontos de umbanda; assim, é natural tomá-la como uma obra invocativa.

Já “Atotô” me conquistou de forma menos explicável. É sucinta, mas não chega a ser um ponto. É acústica, mas tem riffs assustadores, ao violão, que lhe caíriam muito bem num arranjo roqueiro. E fala sobre um personagem nem sempre lembrado pelos cancionistas que simpatizam com a espiritualidade afro: Omulú.

Omulú ou Obaluaiê (que, em algumas linhas, são divindades diferentes) é um orixá cuja figura provoca fascínio e espanto. Sempre encoberto por palha-da-costa, quando “desce”, se apresenta com uma dança pesada, pouco graciosa. Possui um papel ambivalente: é associado às chagas, pestes, doenças, mas também às curas.

Li, em algum lugar, que os filhos de Omulú geralmente possuem doenças de pele – pois a própria mitologia envolvendo o orixá guarda lugar para eventos em que sua epiderme aparecia corroída, até ser tratada pela figura maternal de Iemanjá. Pois bem, conheci um filho de Omulú há muito tempo, sabendo já que o orixá presidia sua cabeça, para descobrir, anos depois, que ele sofria da curiosíssima dermografia (termo que, no começo, costumava confundir com “grafodermia”, para diversão de todos ao redor): arranhões ou desenhos, sobre sua pele, ficam grafados como um relevo que custa a se desfazer.

Eu mesmo enfrentei (e enfrento) uma doença de pele crônica e incurável, a dermatite de contato. Se encosto a superfície dos dedos das mãos em borrachas (entre outros materiais que, céus, estão em todo lugar!) passo a sofrer com escamações nas áreas afetadas, que frequentemente evoluem para cortes e trazem dores, muitas dores. No início da vida, manifestava a doença apenas nos pés, tornando um sacrifício treinar karate no tatame de borracha da academia. Depois dos 20, os pés se tornaram praticamente imunes, e a doença apareceu nas mãos. Isso gerou alguns efeitos colaterais que, geralmente irritantes, podem ser também engraçados. Por exemplo, num documento elaborado numa época de irritação em todos os dedos das mãos, deixei registrada a seguinte impressão digital:

digital.jpg

Sim, isso é um dedão da mão! Os amigos diziam que eu poderia ter feito algum sucesso como criminoso, nessa época de dedos atacados; os palmeirenses completavam: “Corintiano ele já é”.

Por conta da doença, já fiquei impossibilitado de atravessar catracas, de usar o banco e até de entrar em casa. Sonho com o dia em que a biometria baseada na íris se tornará mais popular!

Bom, tudo isso pra dizer que, em 2012, quando conheci uma filha-de-santo criada num terreiro da Bahia, fui surpreendido com dois diagnósticos. Sem que me conhecesse direito, em nosso primeiro encontro e apenas me tocando com a mão, eis que a moça identificou meu orixá de cabeça – e acertou. Numa outra ocasião, quando ainda não nos conhecíamos bem – ou seja, ela nada sabia sobre minha dermatite, que estava sob controle –, a garota lançou um olhar penetrante e sentenciou: “Hmmmm, você tem Omulú aí também!”.

Coincidência ou não, por volta da mesma época, tive dois sonhos incríveis com esse orixá.

No primeiro, o encontrava à beira-mar, lindo, replandecendo num brilho dourado. Quando pensei que revelaria a mim sua face, acordei. E, de fato, embora as lendas sugiram que Omulú se esconde sob a palha para disfarçar as cicatrizes em sua pele, há quem diga que, na verdade, o orixá é tão discreto e modesto que prefere encobrir sua estonteante beleza.

Num outro sonho, estava deitado sobre uma espécie de maca rudimentar, numa cabana. Então, ouvi o som do xaxará – o instrumento musical que Omulú carrega, que lembra um caxixi – sendo agitado sobre mim, como que para me descarregar ou me tratar. Nem preciso dizer que acordei pleníssimo.

Pois é, Omulú tem esse magnetismo, e talvez isso explique o motivo de eu ter gostado tanto de “Atotô” – cuja letra, composta por apenas sete versos, está reproduzida integralmente na epígrafe do post.

O batuque de Juçara e Kiko, ao mesmo tempo comedido e encantador, se ajustou perfeitamente às qualidades arquetípicas dessa deidade tão envolvente.

E fica a dica: em Padê, há muitas outras pérolas a serem exploradas.

juçara-marçal-kiko-dinucci.jpg
Juçara Marçal e Kiko Dinucci: originais e certeiros ao incorporar o afro em forma e conteúdo.

“Atotô”, composta por Dinucci, foi regravada pelo Metá Metá: nada menos que o próprio compositor, com Juçara e o saxofonista Thiago França. Lançada num EP intitulado justamente EP (2015), a versão concretizou meu sonho de ouvir “Atotô” num arranjo mais pesado. Espantosa! Ouça:

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