267. Dinho Ouro-Preto: “Marcianos Invadem A Terra”

Diga adeus e atravesse a rua
Voamos alto depois das duas
Mas as cervejas acabaram e os cigarros também
Cuidado com a coisa coisando por aí
A coisa coisa sempre e também coisa por aqui
Seqüestra o seu resgate, envenena a sua atenção
É verbo e substantivo/adjetivo e palavrão


Como já foi falado aqui, o BRock estava relativamente arrasado em 1994, e o Capital Inicial não escapou à onda de dissoluções que atingiu diversos dos conjuntos nascidos nos anos 1980.

O cantor Dinho Ouro-Preto, ejetado da banda, buscava encontrar um caminho próprio. Isso se consubstanciou no álbum Dinho Ouro-Preto (1995), que a revista Showbizz tratou como o produto menos problemático, entre tudo o que se sucedeu desde sua saída do conjunto: era um disco mais bem acabado que os excessivamente pesados Rua 47 (1995) e Ao vivo (1996) do Capital, com o santista Murilo Lima ocupando o posto de vocalista; e superior à primeira incursão solo do cantor curitibano, Vertigo (1994), também equivocado ao investir numa sonoridade algo grunge.

O discreto lançamento foi puxado por um single que ganhou um videoclipe bacana, um pop-rock bem produzido e com vocação radiofônica: “Marcianos Invadem A Terra”, canção de Renato Russo.

Pelo que consta, durante a produção de Dinho Ouro-Preto, o ex-vocalista do Capital Inicial havia telefonado para o legionário, lembrando dessa antiga canção composta em Brasília no início dos anos 1980. Renato, assim, deslocou-se até a casa de Dado Villa-Lobos – que, nesse recesso da Legião Urbana, se dedicava a empresariar seu selo Rock It!, pelo qual Dinho produzia seu novo álbum – e, ali, repassou ao amigo a letra e a harmonia completa da canção. E foi a última vez em que se encontraram, pois Renato morreria no ano seguinte.

“Marcianos Invadem A Terra” foi registrada pela primeira vez em 1982, numa performance voz-e-violão de Renato em casa, simulando a programação de uma rádio. A fita cassete então gravada, contendo perto de dez canções de sua lavra, circulou pela internet, em fins dos anos 1990, com o título de Rádio Brasília.

É interessante observar que, em grande medida, a fita trouxe canções que nunca foram gravadas comercialmente pelo próprio Renato em vida. Ali, estão pequenos momentos solo que o vocalista inseriria nos álbuns da Legião Urbana (“Dado Viciado”, “Eduardo E Mônica”, “Eu Sei”, “Faroeste Caboclo”) e canções de seu antigo Aborto Elétrico que vazaram para a discografia legionária (“Geração Coca-Cola”, “Que País É Este”). No entanto, a fita trazia também “Boomerang Blues”, gravada inicialmente pelo Barão Vermelho, logo após Cazuza sair da banda (e, mais tarde, relida por muita gente, incluindo Célia Porto, Zélia Duncan e Paulo Ricardo); “Veraneio Vascaína” e “Anúncio De Refrigerantes”, canções do Aborto que seriam lançadas pelo Capital Inicial, em diferentes fases de sua longeva carreira; e a própria “Marcianos Invadem A Terra”, lançada por Dinho.

Com efeito, Rádio Brasília flagrava um Renato cheio de composições na manga, ávido por incluí-las no repertório de uma banda de rock – e justamente no período em que, afastado do Aborto Elétrico, o cantor e compositor ainda planejava criar a Legião Urbana, junto do baterista Marcelo Bonfá. Nessa fase intermediária, Renato se apresentava sozinho abrindo os shows de outros conjuntos candangos, para o tédio ou a chacota dos punks presentes, sob a alcunha de O Trovador Solitário.

A canção gravada por Dinho Ouro-Preto seria incluída, mais tarde, em Uma outra estação (1997), primeiro álbum póstumo da Legião, que mesclava os registros finais da banda em estúdio com obras mais antigas, algumas da fase Trovador Solitário. Essa versão oficial de Renato tocando “Marcianos Invadem A Terra”, sozinho ao violão, reproduz em estúdio o primitivo arranjo de Rádio Brasília e, pelo que infiro, foi gravada durante as sessões do segundo álbum legionário, Dois (1986):

Num faixa-a-faixa concedido logo após o lançamento de Uma outra estação, Bonfá assim descreve a canção: “A letra lembra muito a nossa juventude em Brasília. A gente saía com os nossos carros à noite pela cidade. Éramos os próprios marcianos invadindo a terra”.

De fato, os versos trazem inúmeros instantâneos em que é possível reconhecer passagens da biografia de Renato. Aparecem menções a uma “coisa”, que só pode ser a repressão policial (“Cuidado com a coisa coisando por aí / A coisa coisa sempre e também coisa por aqui / Seqüestra o seu resgate, envenena a sua atenção”), numa irônica censura pelo próprio compositor, que já detalhou em entrevistas as “duras” que tomava em Brasília. Outra passagem lembra o curto período em que o cantor trabalhou como jornalista e programador numa rádio local (“E o carinha do rádio não quer calar a boca / E quer o meu dinheiro e as minhas opiniões”). E, claro, aparece um conjunto de versos metalinguísticos, em que Renato reafirma seu compromisso criativo (“Ora, se você quiser se divertir / Invente suas próprias canções”), ao mesmo tempo em que lança uma (auto)crítica às contradições do contexto punk em que militava (“E existem muitos formatos / Que só têm verniz e não têm invenção / E tudo aquilo contra o que sempre lutam / É exatamente tudo aquilo o que eles são”). No finalzinho, uma interrogação, ainda na senda da metalinguagem, insere ninguém menos que David Bowie (com sua linda “Life On Mars?”) nessas divagações sobre a liberdade do ato de compor: “E mesmo se eu tiver a minha liberdade: / ‘Será que existe vida em Marte?'”).

A versão de Uma outra estação tem seu mérito por compartilhar com os fãs um registro histórico de Renato. Musicalmente, chama a atenção o leve sabor country que permeia as inflexões vocálicas do cantor, numa base folk ao violão.

No entanto, foi Dinho Ouro-Preto quem relembrou, primeiramente, da existência dessa pequena pérola do velho cancioneiro do rock candango – e fez dela uma canção pop, num arranjo definitivo que, em outros tempos, certamente teria cativado as FMs de todo o país.

dinho-ouro-preto.jpg
Dinho Ouro-Preto: um saudosista e entusiasta do cancioneiro candango.

Em 2008, o trabalho de historiador de Marcelo Froés recuperou Rádio Brasília e a lançou, quase integralmente, como o álbum O trovador solitário (2008). O registro mantém a crueza da gravação original de Renato, e vale mais pelo aspecto histórico que artístico:

Alguns anos antes, o tributo Renato Russo – uma celebração (2006) trouxe Dinho Ouro-Preto, acompanhado do violonista Fred Nascimento (que tocou na banda de apoio da Legião e no conjunto Tantra – cuja “Corvos Sobre O Campo” se tornou um inimaginável sucesso de visitação neste blog), tocando “Marcianos Invadem A Terra”. Aqui, o vocalista do Capital Inicial relê a canção conforme o arranjo voz-e-violão de Rádio Brasília/Uma outra estação:

Por fim, temos a banda paulista Vespas Mandarinas reinterpretando “Marcianos Invadem A Terra” no tributo Viva Renato Russo (2016). Boa versão que resgata os ares country dos registros de Renato. Ouça:

4 comentários

  1. Muito bacana saber dos bastidores dessa joia. Sempre achei essa música sensacional, mas apenas suspeitando do que se passava por trás dos seus versos e sua levada singela-contagiante. Valeu, meu caro! Abçs

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