268. Mariene de Castro: “Ponto De Nanã”

Oxumarê me deu dois barajás
Pra festa de Nanã
A velha deusa das águas
Quer mugunzá
Seu ibiri enfeitado com fitas e búzios
O ponto pra assentar
Mandou cantar
Ê, Salubá!


Foi no próprio ano de 2012 que conheci uma canção recém-lançada pela cantora Mariene de Castro. Como os leitores do blog sabem, e como relatei detalhadamente no post sobre “Oxóssi”, vivia um momento de entusiasmo para com a espiritualidade afro, e deparei-me com Mariene durante a busca por mais materiais musicais que aludissem aos orixás.

“Ponto De Nanã”, como a mencionada “Oxóssi”, é uma obra de Roque Ferreira. As duas canções, que equilibram descrições modalizadas pelo /ser/ e pelo /fazer/ de cada deidade, possuem estruturas semelhantes. Ambas descrevem os trejeitos dos orixás descritos, suas oferendas favoritas (para Oxóssi, “axoxô, feijão preto, camarão, amendoim”; para Nanã, o mungunzá, que no interior de São Paulo nós chamamos de canjica – e que, no Nordeste, é ainda outro prato) e os outros orixás com quem se relacionam.

Assim, o percurso narrativo de “Ponto De Nanã” é iniciado, na verdade, por uma ação de Oxumaré. João Clodomiro do Carmo (O que é candomblé. São Paulo: Brasiliense, 2006), apresentando as qualidades arquetípicas da velha orixá, menciona seu parentesco – mais histórico que mitológico – com o orixá simbolizado pela serpente, e também com Omulú/Obaluaiê (de quem falamos há pouco):

Uma mulher velha, rabugenta, intolerante, intratável. Um monstro que mora em lugares pantanosos, em alagadiços infestados de doenças. Assim é Nanã Buruquê, uma estranha divindade que junto com Obaluaiê e Oxumaré forma o trio de deuses da nação jeje, assimilados pelo candomblé brasileiro e livremente misturados com as divindades da nação nagô. Aliás, é bom frisar que os três orixás jejes são os que incorporam os aspectos destrutivos mais fortes, sendo Obaluaiê associado à própria morte. Um estudo particular dessa nação poderia identificar por que suas divindades aprentavam esse caráter tão destrutivo, tão ameaçador (p. 80).

A velha Nanã é um personagem que aparece, quase de forma idêntica à descrição de Carmo, no belíssimo videoclipe de “Ponto De Nanã”. Embora o vídeo tivesse sido divulgado em maio, foi por volta de novembro que vim a conhecê-lo. Como resultado, fiquei encantado pelas imagens e, confesso, apaixonado pela figura de Mariene.

As cenas acompanham os passos de Nanã num passeio pela natureza. Oxumaré não é representado; em compensação, Mariene de Castro aparece toda trajada em dourado, incorporando Oxum, a própria orixá de cabeça dessa baiana iniciada no terreiro de Mãe Menininha do Gantois.

A fotografia e os planos, na produção dirigida por Kaya Verruno, nos tragam para a paisagem úmida em que os personagens atuam, o pântano de Nanã e a caxoeira de Oxum, servindo como o complemento perfeito para a letra que saúda a deidade “Dançando devagar seu ijexá” – e, de fato, “Ponto De Nanã” é justamente conduzida ao ritmo desse “ijexá devagar”.

A cereja do bolo é a sutil citação incidental ao refrão de “Cordeiro De Nanã”, dos Tincoãs. (Falamos dela nas primeiras semanas do blog. Inacreditavelmente, esse post é, no momento,  4º mais lido do 365 Canções Brasileiras! Até o fim do ano, pautarei mais uma canção do repertório desse saudoso e curioso conjunto vocal).

Vida longa a Mariene – cuja voz poderosa soa como um trovão que nos arrebata e, ao mesmo tempo, como um alento para quem ainda acredita no futuro da canção brasileira.

mariene-de-castro.jpg
Mariene de Castro: uma filha de Oxum saudando, respeitosa e baianamente, a misteriosa figura de Nanã.

Uma versão alternativa para “Ponto De Nanã”, e bastante interessante, é a gravada pela cantora mineira Beth Leivas. A faixa aparece em seu álbum de estreia, Sete (2018), e traz uma inusitada sonoridade indie. Ao final do registro, uma citação a “Cordeiro De Nanã” bem mais explícita que na versão de Mariene. Muito bacana, ouça:

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