271. Geraldo Vandré: “Arueira”

Vim de longe, vou mais longe
Quem tem fé vai me esperar
Escrevendo numa conta
Pra junto a gente cobrar


Na 7ª série, aprendi a matar aula.

Isso porque, desde o início do ano, revezavam-se, caoticamente, diversos professores de História por nossa turma. A cada semana, uma surpresa, um rosto novo, que logo cedia lugar a outra pessoa.

Cansado desse descaso para conosco, jovens ávidos pelo saber (!), em pouco tempo me apropriei de um conjunto de estratégias para abandonar a sala de aula sem ser percebido – e, às vezes, o sendo, o que mobilizava os amigos para a operação “abafa”, que sempre garantia o sucesso de minhas fugas –, simplesmente para encontrar algum canto discreto pela escola (tarefa difícil) e três parceiros (tarefa fácil) para passarmos pelos menos duas horinhas jogando truco.

Em minha defesa, afirmo que já abandonei a sala de aula, não poucas vezes, para tarefas mais nobres: cheguei a fazê-lo para ganhar mais tempo de treino de tênis-de-mesa, infiltrando-me em alguma outra turma que estava em Educação Física; e até para, simplesmente, ficar na biblioteca lendo (contando com a complacência da bibliotecária, que me reconhecia como frequentador assíduo daquele espaço e não estranhava que eu fosse o único aluno, em toda a escola, “oficialmente” dispensado das aulas para ficar entre os livros – pelo menos era essa minha desculpa, que parecia sempre colar).

Um belo dia, ensaiava entrar na aula de História logo depois do intervalo (só pra não perder o costume), quando me deparei com um sujeito magérrimo, muitíssimo bem vestido, os indefectíveis óculos envolvidos por uma barba espessa, fechando a porta da sala. Pensei: “Mais um substituto”. Dei olá, disfarcei meu pertencimento àquela 7ª C e desci ao pátio. “Deve ser mais um substituto, e bem caxias dessa vez!”, murmurei comigo.

Depois, soube que aquele seria nosso professor efetivo, finalmente – isso já era por volta de setembro. Assim, a contragosto, voltei a frequentar as aulas, abandonando o baralho e as demais atividades “extracurriculares”. Mais tarde, descobri que esse Prof. Dagmar era simplesmente o pai de um garoto com quem tinha certa amizade, o André, desde a 2ª série.

E, em pouco tempo, estava mesmo é animado e envolvido com o “curso de História” – era assim que Dagmar se referia àquilo que fazia conosco.

Que professor! Sua dedicação era tamanha que ele, quixotescamente, xerocava e distribuía a todos nós pequenos textos de sua própria elaboração, que resumiam os conteúdos da ementa – em algumas semanas, cumprida regular e competentemente, como se não tivéssemos perdido já quase três bimestres inteiros. Em resumo, no contexto de uma escola pública, era uma situação meio surreal.

Abaixo, veja a qualidade do material que o homem nos providenciava – tão boa que o preservei com carinho por mais de 20 anos:

curso-de-historia.jpg


Um belo dia, Dagmar, do alto de seu traje docente, surgiu com a novidade: iríamos estudar a história do Brasil a partir de suas canções mais marcantes. Assim, ele selecionou cinco obras do cancioneiro tupiniquim que mais poderiam nos ajudar a compreender o contexto brasileiro do século XX.

Se não me engano, a primeira seria “uma canção de um compositor chamado Ary Barroso, intitulada ‘Aquarela do Brasil‘”. Não lembro muito bem do conteúdo das aulas e é uma pena que tenha perdido as notas tomadas no caderno. Também esqueci quais foram outras três das canções, mas lembro perfeitamente da aula que se seguiu àquela sobre a composição de Barroso: “Hoje vamos falar sobre ‘Pra Não Dizer Que Não Falei Das Flores'”.

É muito clara a recordação da fala inicial do professor: “Essa foi composta por um cantor chamado Geraldo Vandré. O Vandré era uma espécie de subversivo entre seus pares. Aí a ditadura prendeu ele, que apanhou tanto, mas tanto, que acabou ficando louco, e ninguém mais sabe onde ele foi parar, porque ele nunca mais apareceu pra contar o que aconteceu”.

Muitos anos depois – nem tantos, apenas sete, mas a impressão que tenho é que, entre a 7ª série e o 3º ano de universidade, havia se passado um século inteiro – é que tive notícias de Vandré, graças a essa maravilha chamada internet. Não sei em que contexto a reportagem apareceu, mas fiquei horrorizado: havia, nela, um pequeno depoimento do cantor paraibano, jurando de pés juntos que a narrativa que todos conheciam, e que me fora contada pelo meu professor de História, era falsa. Não houve prisão, apenas um breve interrogatório, e Vandré garantia que nenhum milico havia encostado sequer um dedo nele.

Mais chocante ainda era descobrir que – segundo o depoimento do próprio cancionista – Vandré jamais tivera qualquer relação de antagonismo para com as Forças Armadas, pelo contrário, nutria mesmo admiração pelos militares. Tanto que, a certa altura, compôs uma obra em homenagem à Força Aérea Brasileira, “Fabiana”.

Depois de muito refletir – e de escutar a opinião de um cara que sempre admirei muito, Paulo “Enem” Tauyr, uma espécie de líder intelectual do movimento estudantil na USP São Carlos, nos tempos em que fui militante –, concluí que a entrevista de Vandré poderia perfeitamente estar confirmando as palavras que escutei naquela aula de História. Vandré não apenas foi preso; foi torturado e aterrorizado de tal maneira que, simplesmente, perdeu completamente o juízo e, tomado pela Síndrome de Estocolmo, se converteu num nacionalista que só poderia negar (ainda que movido por forças inconscientes) tudo o que sofrera nalgum quartel.

Qualquer que seja a narrativa, é inegável que as obras compostas e gravadas por Vandré possuem essa marca do confronto, da encenação épica das insurreições, dos movimentos, das marchas. Ouça “Caminhando (Pra Não Dizer Que Não Falei Das Flores)” e tente não pensar numa passeata de mulheres ou de camponeses entoando palavras de ordem: é impossível. E assim também o é com “Disparada” – uma das canções mais lindamente exortativas à ação revolucionária, preparando o momento em que, finalmente, os oprimidos se levantarão com os opressores e os derrotarão.

De minha parte, fico arrepiado toda vez que escuto “Arueira”. A canção apareceu em Canto geral (1967), com todas essas marcas do repertório de Vandré. Pois a letra transmite exatamente o gosto da desforra que há de chegar, quando o plano do poder se inverte e o mal retorna – com juros – a quem iniciou a maldade: “Madeira de dar em doido / Vai descer até quebrar / É a volta do cipó de aroeira / No lombo de quem mandou dar”.


Caetano Veloso, em Verdade tropical (3. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2017) conta um divertido causo sobre Vandré e essa canção. O contexto era o da elaboração do programa Frente Única da Música Popular Brasileira (uma provocação explícita e quase irresponsável dirigida aos militares e, mais frontalmente, ao clássico Fino da Bossa), que seria apresentado por um time heterogêno de artistas, se revezando como a atração principal a cada edição. Conta o compositor de Santo Amaro:

O programa de que mais gostei, afinal, foi o de Vandré. Ele ensaiara um número com o Lennie Dale, fortemente teatralizado, para sua bela canção “Cipó de aroeira” [sic], que resultou muito louco, com Lennie de roupa preta colante estalando um chicote com que terminava por laçar Vandré como se fosse um número apache ou tangueiro, ou uma cena de Rodolfo Valentino. A letra da canção era política, mas essa encenação dava-lhe uma conotação quase erótica que me agradava e que hoje seria tomada por uma exibição sadomasoquista. Não estou dizendo isso para mostrar que eles estavam sendo divertidos involuntariamente, embora isso fosse verdade numa certa medida. Não era a impressão que eles me davam, no entanto. Tampouco quero insinuar que houvesse um caso de amor entre os dois artistas. Na verdade, nada indicava que assim fosse. Mas havia um certo humor alimentado por eles mesmos a esse  respeito (Lennie era gay, mas Vandré não) e esse humor entrava (conscientemente, imagino) na atmosfera do número (p. 182).

Um único comentário: depois desse depoimento de Caê, fica difícil escutar “Arueira” com os mesmos ouvidos de sempre!

De toda forma, a canção permanece como um intenso e poderoso hino contra toda a autoridade, e que encontra em Vandré seu intérprete mais consentâneo – seja qual for a verdade histórica a respeito da controversa/ambígua postura do músico em relação ao regime truculento inaugurado em 1964.

geraldo-vandre.jpg
Geraldo Vandré: a voz que embalou muitos sonhos revolucionários, consciente e intencionalmente ou não.

A cantora Jordana releu “Arueira” em seu DVD Ao vivo (2009), com certo espírito rocker. Escute:

3 comentários

  1. Um dos melhores textos,eu poderia levantar várias questões,mas eu vou apenas destacar que matar aula para ficar lendo na Biblioteca é a melhor forma de desenvolver o intelecto;aquilo que se aprende numa sala de aula é muito pouco,afinal,nem todo mestre é competente como esse Prof Dagmar.

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    1. Sim, Ademar, precisamos de mais mestres como o Dagmar! Aquele tinha amor pelo que fazia, viu.
      Sobre o aprendizado dentro ou fora da sala de aula, tem mais uma canção bacana sobre o tema:

      E gratíssimo pelo elogio.

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