273. Mametto: “Deixa A Gira Girá”

Meu pai veio da Aruanda e a nossa mãe é Iansã
Ô, gira, deixa a gira girá
Deixa a gira girá…
Saravá, Iansã!
É Xangô e Iemanjá, iê
Deixa a gira girar


(Este post foi atualizado no início de 2021. Embora eu prefira manter eventuais erros ou omissões, pensei que “Deixa A Gira Girá” – ou “…Girar”, como queira – merecia um tratamento mais digno. Além disso, o post, originalmente, foi um dos menos visitados do blog. Talvez a atualização, e espero que o WordPress a comunique aos assinantes, dê mais uma chance ao nosso tema #273. Em tempo: a atualização diz respeito, principalmente, ao comentário sobre a gravação do Conjunto Tupi, ao final do post).

Foi numa festa, no ano passado, que escutei pela primeira vez a versão do Mametto para “Deixa A Gira Girá”, clássico que abre o disco homônimo dos Tincoãs lançado em 1973 – e adaptação, de um tema do domínio público, pelos integrantes do conjunto à época, Mateus Aleluia, Heraldo e Dadinho.

O local era apertado, estava quente, eu já não estava totalmente sóbrio… e a vibração sonora dessa gravação me pegou de jeito. Não consegui me mover: fiquei estático, apenas apreciando a forma como o conjunto – liderado por aquela que o nomeia, Ana Mametto, que já integrou a banda de Daniela Mercury – transformou um legítimo canto de louvor num sensacional axé com potencial para arrasar quarteirões.

No palco daquela pequena casa de diversões – tenho uma dificuldade enorme em usar a palavra “balada” que, para mim, sempre significou outra coisa –, três jovens dançarinos (que, aparentemente, não se conheciam até então) dançavam uma coreografia belíssima, repleta de gestos fortes, rodopios e reverências ao céu (ou a Aruanda). Pensei comigo: isso, só no Brasil.

Quando cheguei em casa, fui correndo tentar escutar essa versão que, a mim, soava novíssima. No entanto, soube que o Mametto a divulgara, com o vídeo que abre o post, num já longínquo 2010, época em que o conjunto ainda não tinha nenhum álbum gravado. De qualquer forma, e ainda que tardiamente, o sucesso do novo registro de “Deixa A Gira Girá” é mais do que merecido.

O videoclipe traz uma Ana Mametto viradíssima na Iansã – orixá com enorme presença, rainha dos raios e tempestades, dona do elemento fogo e contraparte feminina do implacável Xangô – e uma participação arrepiante de ninguém menos que o tincoã remanescente, Mateus Aleluia.

Se os Tincoãs estão ainda na boca do povo e se tornaram cult, há de se pensar se o Mametto não teria sido o catalisador dessa redescoberta, colocando uma canção esquecida na boca do povo (e um povo bem jovem, por sinal).

Para agitar, cantar, louvar, dançar e… girar. Rodopia, Iansã!

mametto
Ana Mametto: mostrando que a Bahia é o verdadeiro terreiro da canção popular brasileira, bem representada por seu conjunto e pelos Tincoãs.

A versão ao vivo (e não oficial) do Mametto interpretando “Deixa A Gira Girá” é um banho de energia e movimento:

E, claro, precisamos compartilhar a clássica versão dos Tincoãs:

Na verdade, não foram os Tincoãs quem gravaram oficial e pioneiramente a canção. Conforme explica um maravilhoso post do Acervo Estrela Verde, trata-se de um ponto umbandista que foi recolhido, pela primeira vez, por J. B. Carvalho, do Conjunto Tupi, nos anos 1930. A gravadora Tratore recuperou esse e outros fonogramas em Deixa a gira girar: as gravações pioneiras da música de terreiro (2008). Confira esse registro histórico:

Na mesma festinha em que conheci o som do Mametto, “Deixa A Gira Girá” passou a ser tocada não mais na versão do conjunto de Ana, mas como um remix da gravação original dos Tincoãs. Interessante:

As Três Meninas do Brasil – Jussara Silveira, Rita Benneditto e Teresa Cristina – apresentaram uma releitura bastante fiel ao arranjo e ao espírito da versão original dos Tincoãs, no DVD Ao vivo (2008). E aqui percebo como este post está repleto de mulheres incríveis! Aprecie:

Por fim, temos a climática versão instrumental do conjunto paulistano Bixiga 70, com metais, boas guitarras e uma percussão inesquecível. O registro aparece no álbum Bixiga 70 (2013):

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